Amazon vende livros de George Orwell falsificados

A venda de livros é uma profissão antiga e complicada, e edições falsas de todos os tipos podem aparecer em qualquer lugar

San Francisco – Na obra “1984”, de George Orwell, os clássicos da literatura são reescritos em novilíngua, uma revisão e redução da linguagem destinada a tornar os maus pensamentos literalmente impensáveis. “É uma coisa linda, a destruição das palavras”, exulta um verdadeiro crente.

Agora, algumas das próprias palavras do escritor estão sendo retrabalhadas na vasta livraria virtual da Amazon, um lugar em que as leis de direitos autorais têm notavelmente pouca influência. A reputação de Orwell pode estar segura, mas suas frases, não.

Recentemente, examinei esse processo quando comprei uma dúzia de livros falsificados e ilegítimos de Orwell da Amazon. Alguns deles foram impressos na Índia, onde o escritor já é domínio público, e vendidos para mim nos Estados Unidos, onde ele está protegido por direitos autorais.

Outros eram simples falsificações, como a edição de seu livro de memórias “Na Pior em Paris e Londres”, que foi editado para estudantes do ensino médio. A administração do espólio do autor disse que não deu permissão para o livro, impresso por uma subsidiária da Amazon. Alguns falsificadores chegam ao ponto de reivindicar os clássicos de Orwell como sua propriedade, garantindo o copyright em seu próprio nome.

O que une todos esses livros é que nenhum deles pagou um centavo ao autor, o que significa que poderiam competir com títulos oficiais de Orwell como uma alternativa de baixo custo. Afinal, se você precisa de uma cópia de “A Revolução dos Bichos” ou de “1984” para a escola, não vai pensar muito em quem a publicou, porque todas as edições de “1984” são iguais, certo?

Nem sempre; não na Amazon.

Um leitor descobriu, para sua surpresa, que sua nova cópia de “1984” tinha passagens que usavam “palavras ligeiramente diferentes”. Outro ofereceu prova fotográfica de que a edição estava quase sem sentido. Um terceiro disse que a palavra “faces” foi substituída em sua cópia por “fezes”. Comprar livros de Orwell com várias páginas ausentes parecia ser uma experiência rotineira.

Até os títulos mudaram. Uma edição de “Animal Farm: A Fairy Story” (A Revolução dos Bichos: Um Conto de Fadas) se referia a si mesma na contracapa como “Animals Farm: A Fair Story” (A Revolução dos Bichos: Uma História Justa). O prefácio se referia a outra grande obra de Orwell, “Homage to Catalonia” (Homenagem à Catalunha), como “Homepage to Catalonia” (Página Inicial à Catalunha).

Comecei a analisar Orwell na Amazon depois de escrever sobre a explosão do número de livros falsificados oferecidos pelo site. Eles pareciam ajudar a Amazon, por exemplo, a incentivar os editores a anunciar os livros genuínos no site. A empresa respondeu em uma postagem no blog que proíbe produtos falsificados e investiu em pessoal e ferramentas tecnológicas, incluindo o aprendizado de máquina, para proteger os clientes contra fraudes e abusos.

Em agosto, a Amazon disse em um comunicado que “não há verdade absoluta” para o status de direitos autorais de cada livro em cada país, e que, por isso, ela precisava que autores e editores policiassem o site. “Essa é uma questão complexa para todos os lojistas”, disse a empresa, acrescentando que o aprendizado de máquina e a inteligência artificial são ineficazes quando não há uma fonte única da verdade a partir da qual o modelo possa aprender.

A venda de livros é uma profissão antiga e complicada, e edições falsas de todos os tipos podem aparecer em qualquer lugar. Mas a Amazon é a maior livraria do mundo e os padrões que ela define reverberam em todos os lugares.

Minha recém-adquirida prateleira de Orwell era francamente aterrorizante – erros de digitação aos montes, textos de orelha extraídos diretamente da Wikipedia, capas obviamente amadoras. Onze dos livros foram vendidos diretamente pela Amazon como novos, sendo enviados de um armazém próprio; um deles foi vendido como livro novo por um terceiro. Os preços variavam de US$ 3 a US$ 23.

As falsificações e importações são geralmente as edições mais baratas, e quem pode culpar as pessoas por comprá-los? Elas comparam os preços. Uma edição legítima de “1984”, por US$ 7,99, estava recentemente classificada em 72º lugar entre todos os livros da Amazon. Uma importada da Índia, por US$ 5, estava na 970a posição, o que sugeria que as cópias estavam sendo constantemente vendidas.

A maioria dos textos adulterados provavelmente se deve à ignorância e ao desleixo, mas os mais radicais tentam melhorar Orwell, como a edição não autorizada para o “ensino médio” de suas memórias de 1933. Esta era creditada a Moira Propreat. Ela não foi encontrada para fazer comentários; na verdade, sua existência não pôde ser verificada.

“Na Pior em Paris e Londres” é uma visão resoluta do comportamento brutal entre pessoas famintas, e a tarefa de Propreat visa deixar a obra “mais palatável”. Um exemplo de seu trabalho pode ser visto quando Charlie, um estuprador descarado, descreve como atraiu uma jovem para suas garras:

“‘Venha aqui, franguinha’, eu disse a ela.”

A versão de Propreat:

“‘Venha aqui’, eu disse a ela.”

É pouco provável que Orwell, um mestre da prosa inglesa, apreciasse essa edição.

Até recentemente, melhorar Orwell não era uma proposta prática de negócio. Então, a Amazon arrombou as portas do mundo literário com forte curadoria. O acesso não estava mais restrito ao mercado determinado por editores, livreiros ou revisores. Mesmo os livros mais marginais estavam de repente disponíveis para todos em todos os lugares.

No entanto, essa atitude também deu oportunidades àqueles que não parecem se preocupar com a qualidade do que vendem.

“Uma falsificação aparece semanalmente”, disse Bill Hamilton, agente do espólio de Orwell. “Quando uma empresa como a Amazon vai assumir a responsabilidade pela curadoria dos produtos que passam por suas mãos?”

Se a Amazon vetasse cada título como as livrarias físicas o fazem, precisaria de muito mais funcionários. Isso custaria mais, diminuindo os lucros. Procurei em minha conta no site uma maneira de dizer ao vendedor que ele estava vendendo falsificações, mas não achei nada. (A Amazon sugeriu que eu usasse o botão azul “relate informações incorretas do produto”, existente em todas as páginas, ou que eu lhes telefonasse. Se eu devolvesse o livro, poderia selecionar um motivo no menu drop-down fornecido.)

A Authors Guild disse que, nos últimos dois anos, o número de questões de pirataria e falsificação encaminhados a seu departamento jurídico aumentou dez vezes. Essas edições são um golpe contra a autoridade do livro e aceleram uma tendência perigosa de desinformação.

“Durante a maior parte da existência humana, tem sido difícil esclarecer os fatos e a maior parte do conhecimento vem da narrativa oral, do diz-que-diz e da sabedoria que é passada”, disse Scott Brown, um proeminente livreiro da Califórnia. “Passamos a vida toda em um mundo baseado em fatos e, mesmo que isso pareça ser o correto, há a possibilidade de ser uma aberração temporária.”

Um dos livros de Orwell que comprei era uma cópia de “A Revolução dos Bichos” publicada pela Grapevine India. Na página de direitos autorais, havia a declaração: “O autor respeita todos os indivíduos, organizações e comunidades, e não há nenhuma intenção neste romance de ferir qualquer indivíduo, organização (ou) comunidade.”

Orwell nunca disse tal coisa, confirmou o responsável pelo espólio. Esse foi um sentimento de 2019 incluído em uma história de 1945. Só que, nessa edição de “A Revolução dos Bichos”, o autor e o passado mal existem. Não havia a garantia de copyright, nem nenhuma menção ao ano de 1945.

A Grapevine pode publicar esses livros na Índia. Mas, recentemente, depois que perguntei à Amazon sobre a edição indiana, ela foi removida para venda nos Estados Unidos. As falsificações que mencionei também foram excluídas. A Grapevine não respondeu imediatamente a um pedido de comentário.

Mesmo supondo que os clientes da Amazon se importem, é difícil que saibam que estão recebendo uma edição legítima. O site às vezes agrupa todos os comentários de um título, independentemente da edição para a qual foram escritos. Isso significa que uma edição não autorizada de “A Revolução dos Bichos” pode ter milhares de críticas positivas, fazendo o cliente acreditar que é uma edição válida.

No outro extremo, os comentários que expõem uma edição falsificada permanecerão mesmo que ela desapareça. Um leitor reclamou – e forneceu fotos como prova – de que sua cópia de “A Revolução dos Bichos” tinha as palavras “Capítulo IV” inseridas no texto sempre que aparecia uma palavra com as letras “iv”. Por exemplo: “Ele era unCapítuloIVersalmente respeitado.”

“Um pesadelo literário”, concluiu o leitor.

As grandes editoras, que basicamente permaneceram caladas porque estavam do lado mais fraco de um confronto antitruste com a Amazon sobre os e-books, estão reencontrando sua voz. Seu grupo comercial, a Associação de Editores Americanos, acabou de apresentar uma análise contundente, detalhadamente pesquisada, à Comissão Comercial Federal, uma agência dos EUA.

“Hoje, o mercado de ideias corre risco de danos graves, se não irreparáveis, devido à predominância sem precedentes de um número muito pequeno de plataformas tecnológicas”, concluiu o relatório.