A pop art não poupa ninguém

Jardel Sebba

As eleições municipais deste ano apresentaram ao país um fenômeno, e a partir dele outros personagens começaram a ser revisitados. Ao vencer a prefeitura da maior cidade do país com mais de 50% dos votos em sua primeira eleição, o empresário João Doria inspirou comparações com o ex-prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, pelo perfil empresarial. Reforçou a importância do governador Geraldo Alckmin, que comprou briga interna no PSDB para lançar sua candidatura e cacifou sua candidatura à presidência em 2018. E colocou os holofotes novamente sobre o artista pop Romero Britto, que prometeu pintar um quadro para celebrar a eleição do novo prefeito de São Paulo.

Pelo menos foi o que noticiou a colunista da Folha de S. Paulo Monica Bergamo dois dias depois da eleição. Segundo ela, Britto teria afirmado que Doria era “a grande esperança que o cenário político brasileiro precisava”, um homem “honesto, trabalhador, detalhista com muita classe” e que seria “uma grande inspiração para os políticos desonestos do Brasil”. Consultado para esta reportagem, Britto, que está em viagem pela Europa, limitou-se a informar que não está trabalhando em um retrato do prefeito eleito.

Britto e Doria, mais do que homens bem-sucedidos, são símbolos de um capitalismo cujo sucesso é baseado em vontade, estratégia e gosto por dinheiro. Muito gosto por dinheiro.

Não há pesquisa que corrobore a tese, mas é bastante provável que, quanto menos um artista fale sobre o quanto ganha, mais saiba como ganhá-lo. Há dois anos, Britto veio ao Brasil para a Copa do Mundo de 2014, menos pelo amor ao futebol, mais pela parceria comercial com a FIFA, que incluía produtos assinados por ele nas lojas oficiais. Na ocasião, tive a oportunidade de passar algumas horas com o artista para a entrevista de PLAYBOY, e tivemos o seguinte diálogo:

– O mercado estima seu lucro anual em algo em torno de 30 milhões de dólares, é isso mesmo? Olha, eu não queria falar de dinheiro.

– Ok, vou fazer a pergunta de outra forma: você ganhou dinheiro para sustentar quantas gerações de Brittos? Falar do futuro é complicado. Você pode gastar uma fortuna em uma ida ao shopping center, pode comprar um relógio de 300 mil dólares, depois comprar um carro de 500 mil, um milhão de dólares, pode até comprar um avião. Dá para gastar muito dinheiro bem rápido.

Na mesma conversa, Britto revelou que um retrato feito sob encomenda poderia custar entre 20 mil e 300 mil dólares. “Depende do que você quer que eu coloque lá. Se quiser ouro, prata, brilhos com diamantes, vai sair mais caro.” Apesar de seu trabalho mais caro em tela ter custado algo em torno de 300 mil dólares, o próprio Britto fez questão de ressaltar que suas esculturas, como a que fica na entrada de Miami Beach, podiam custar dois milhões de dólares. No Ebay, a obra mais cara de Britto à venda é um trabalho em acrílico de 1,20 por 1,50 metro que custa 32 mil euros (cerca de 110 mil reais).

Residente em Miami, cidade que o abrigou desde o fim dos anos 1980 e que sedia a maior quantidade de obras públicas com a sua assinatura (inclusive o uniforme dos funcionários do aeroporto internacional), Britto, como Doria, deu certo na vida. Ele, por exemplo, adora carros. Lavou alguns ao chegar nos Estados Unidos. Já teve três Ferraris na garagem, manteve uma, ao lado de um Bentley, um Rolls-Royce Ghost, um Land Rover e um Mustang 1968. É deste tipo de “dar certo na vida” que estamos falando.

O passado é um país estrangeiro

Um dos aspectos mais heroicos da trajetória de Britto, além da capacidade de transformar sua assinatura em algo reconhecível em qualquer lugar do mundo, é justamente o fato de ter sido um anti-herói, um vencedor improvável diante das estatísticas brasileiras. Antes de encher a garagem de carros que deixariam babando qualquer aficionado, Britto lavou carros dos outros nos Estados Unidos. Fez e entregou pizza, foi jardineiro, vendeu desenho na rua. Agarrou furiosamente as oportunidades que teve, e esteve nos lugares certos, nas horas precisas. Entendeu a importância do marketing, da imagem, dos amigos famosos. Até dos desafetos. Britto é uma aula de empreendedorismo.

Os Brittos foram, originalmente, uma família modesta da região metropolitana de Recife, que vivia perto da praia e teve doze filhos. Só nove sobreviveram, e destes Romero, o oitavo, veio ao mundo em outubro de 1963. Pela diferença com os mais velhos, não só de idade, apegou-se à irmã, a última da fila, dois anos mais nova. Filho de um policial “ladie’s man”, segundo ele mesmo define (que teria tido muitas outras famílias) e de uma dona de casa, na rua da praia Romero fez amizade com uma família inglesa cujo patriarca era cônsul-geral do país no Brasil. Percebeu ali que aquela era a vida que queria para ele, viajar, conhecer novas culturas. Passou fome, mas nunca passou recibo sobre as agruras da infância. “Eu sempre quis criar um mundo alegre em volta de mim, só falo do passado quando me perguntam, mas não fico pensando nisso, não”, ele me disse.

Fez até o quarto semestre da faculdade de Direito, quando conseguiu passar um ano na Europa “de favor”, graças às amizades inglesas. Voltou, tentou a faculdade de novo, desistiu mais uma vez e foi para os Estados Unidos no fim de 1986. Desde então, só voltou a passeio.

Da rua, onde vendeu seus primeiros desenhos enquanto se virava em outros trabalhos, começou a exibir os trabalhos na loja de um senhor cubano. Lá conheceu o então presidente da vodca sueca Absolut, que procurava por novos artistas para embalar suas garrafas. E a coisa deslanchou: um ano depois do anúncio da vodca com o desenho de um grande coração vermelho feito por ele ser publicado em sessenta publicações pelo mundo, o valor das obras – e o lucro – de Britto dobraram.

Um dos elementos fundamentais de seu sucesso foi ter percebido rapidamente a importância dos eventos sociais. Ao longo dos primeiros anos nos Estados Unidos, era comum vê-lo em colunas sociais ao lado de celebridades. O encontro com Michael Jackson foi o mais simbólico. “Ele não comprou minha arte, foi uma amizade que a gente teve, uma coisa que, para mim, como artista, foi muito legal”, ele me explicou em 2014. “Uma pessoa como Michael gostar da minha arte, se interessar por ela a ponto de me oferecer uma festa em Neverland, foi o máximo.” E no dia seguinte, os quadros ficaram mais caros, não? “Ter amizades boas é sempre bom para você, as pessoas gostam disso. Mas o importante para mim foi ter o apoio de alguém especial, me fez me sentir muito bem.” Claro, na vida é tão bom ter amigos. Se ele for o Michael Jackson e posar com o seu quadro, melhor ainda.

Como escreveu um jornal de Miami, para cada crítico de arte que torce o nariz para a arte naive de Britto, um famoso vira fã do artista. Entre eles estão Shakira, George W. Bush, a família Clinton, Michael Jordan, só para citar alguns. Sem contar com os governos que o contratam para obras públicas e as grandes empresas que o contratam para trabalhos específicos. Britto vende de carros a Barbies, de relógio a perfume, desenha decks de navio, guitarras Gibson, garrafas de Campari, o que aparecer. Britto pode não dizer quanto ganha, mas não estabelece barreiras no sentido de ganhar mais e mais.

 Homem de família

O que suas obras têm de coloridas, sua vida pessoal tem de tons pasteis. Casado com a enfermeira norte-americana Sheryl desde 1988, ou seja, desde antes de ficar famoso, é pai de Brandon, que tem 27 anos e estuda engenharia de som. Teve apenas uma outra namorada, no Recife, antes da atual mulher. Perdeu a virgindade aos 18 anos, com uma mulher apresentada pelos irmãos, mas não gostou da experiência sexual sem sentimento.

O muito dinheiro que ganha, gosta de gastar em sapatos, roupas e carros. Tem uma casa em Miami e outra em Nova Iorque – fica em hotéis quando vem ao Brasil, e não vem muito. Gosta de comer frutos do mar no Milos, em Nova Iorque. Na cidade prestes a ser governada por João Doria, Britto gosta de jantar no italiano Gero, no português A Bela Sintra e no francês La Tambouille, todos parte do seleto grupo de melhores restaurantes da cidade.

Ao longo de uma conversa de quatro, cinco horas, Britto é capaz de se comparar com o pintor espanhol Pablo Picasso sem cerimônias, o que pode dar a impressão de que ele é ingênuo. Ele é tudo menos isso. Quando tentei provocá-lo com a alcunha de “decorador de quarto infantil” que um crítico lhe impôs, ele respondeu com maestria. “Fico contente de estar nos aeroportos de Nova Iorque e de Moscou e também no quarto do príncipe George, na Inglaterra. Ninguém vai colocar uma obra do Tunga, que tem coisas incríveis, ou do Salvador Dalí, num quarto de uma criança. Mas ter uma obra minha lá, sinceramente, acho uma maravilha.”

Sua estratégia tem sido o surrado “falem mal, mas falem de mim”. Para o menino que só sonhava em conhecer o mundo na Grande Recife nos anos 1980, deu mais do que certo. “Se a minha arte não tivesse uma certa importância, eu não seria tão mencionado. Como é que as pessoas me dão tanto espaço para criticar? Se me dão espaço, é porque tenho importância. Acho essas coisas até engraçadas, às vezes.”  Quaisquer que sejam as coisas que resultam em 30 milhões de dólares a mais na conta bancária por ano, devem ser, de fato, engraçadíssimas.