A mulher mais perigosa do mundo

Linda e com um corpo que lembra uma obra de arte, Ronda Jean Rousey pode ser a mulher dos seus sonhos – desde que ela não decida bater em você

Uma princesa da Califórnia. Cachos dourados ao sol do Pacífico. Um sorriso de criar filas de homens perdidamente apaixonados. O senso de humor de um garotão. Pratica skimboard na praia de Venice. Circula de carro com seu melhor amigo pelas avenidas de Los Angeles rindo de qualquer coisa. Canta o que toca no rádio. É a cara de Julia Stiles, de Dez Coisas que Odeio em Você e O Sorriso de Monalisa.

Dentro de um octógono é a mulher mais perigosa do mundo. Focada, brutal, fria, poderosa. Uma massa de músculos. Olhar fulminante, cabelos presos, protetor de dentes negro. Suas adversárias sabem como serão derrotadas. E não podem fazer nada a respeito. “Ela é má, cruel e perigosa”, declarou Dana White, presidente do UFC. “E é linda. Temos o pacote completo.”

Ronda Jean Rousey está com 26 anos. Faz a delícia dos talk shows. Fala o que vem à cabeça. Demonstra sua técnica imobilizando entrevistadores no chão do estúdio. Veste-se muito bem. “Aparência hoje é parte de qualquer negócio”, diz ela. “Mas quem diz que eu sou linda devia ver com que cara eu saio da cama.”

Rowdy é seu nome de guerra. Ela mostra nos detalhes o que diferencia uma superstar de uma simples lutadora. Liz Carmouche a desafiou pelo título mundial do UFC, peso galo. Um dia antes da luta, em fevereiro, elas compareceram ao ritual de pesagem. O auditório está abarrotado de jornalistas, fotógrafos e gente famosa do meio.

Carmouche é anunciada. Entra sem jeito no palco, tira o camisetão e os shorts, sobe na balança para a pesagem. Mostra os músculos e dá um sorriso congelado para os fotógrafos. Então chamam Rowdy. Ela entra no palco, tira o blusão. E a plateia se espanta mais uma vez com a perfeição do seu corpo de 1,68 m. Aí ela retira as botas de salto alto. Em seguida, a calça jeans justíssima. É um striptease natural que faz o coração dos homens bater com mais força. Um marmanjão grita: “Não tenha pressa, baby!” Ronda se pesa e tira a tradicional foto com sua adversária: as duas de punho cerrado, se encarando. Carmouche está claramente querendo sorrir e abraçar a amiga Ronda. Mas a campeã não cede. Olha com fúria nos olhos dela. Má. Cruel. Perigosa.

A mulher mais perigosa do mundo (Crédito: Divulgação)

(Crédito: Divulgação) (ThinkStock/)

No dia seguinte, 23 de fevereiro, elas estão no Honda Center de Anaheim. Começa a luta. Pelos primeiros minutos, as duas se estudam. E então Liz pula nas costas de Ronda numa gravata. Ronda abocanha o antebraço da rival. Não tenta afastar o braço que a enforca. Com calma e autocontrole, usa as mãos para soltar as pernas de Liz. Aí, move lentamente seu corpo até que Carmouche desabe.

O que acontece em seguida é totalmente previsível. Liz sabe o que a espera. A plateia também – assim como os telespectadores. Mas é inevitável. Com expressão de fúria concentrada, Ronda prende lentamente o corpo da adversária com as pernas, para não largar mais. Carmouche segura uma das mãos desesperadamente com a outra.

Não adianta. Rowdy solta as mãos entrelaçadas de Liz. Segura seu pulso direito. E se deita de costas, levando o braço de Carmouche com ela. É sua arma secreta: o armbar. Em poucos segundos com o braço sendo esticado sobre o corpo de Rowdy, Liz contorce o rosto de dor. Com o braço livre, bate duas vezes no chão. Ronda continua campeã. Relaxa a cara de assassina e faz beicinho trêmulo de emoção. Pensa no pai que se foi quando ela tinha 8 anos e que continua fazendo falta. Dá um abraço em Liz Carmouche.

A loura venceu todas as sete lutas que fez de MMA assim: no primeiro round, com uma chave de braço. Em duas ocasiões deslocou o ombro das adversárias. Não sente culpa por isso. E nenhum prazer. “Faz parte do jogo.” Naquela noite em Anaheim, Liz Carmouche saiu do octógono com o orgulho de ter sido a lutadora que resistiu por mais tempo à sexy máquina de vencer: 4 minutos e 49 segundos.

A menininha sorridente voltou. Dana White lhe devolve o cinturão de campeã do mundo. Todas as publicações especializadas concordam: a “California girl” é hoje a mais valiosa lutadora feminina em ação no planeta. Ela retornará ao octógono contra Cat Zingano provavelmente no fim do ano – antes, as duas participam do reality show The Ultimate Fighter, a partir de setembro, no qual serão as treinadoras de times mistos de aspirantes ao UFC.

Ronda Rousey ganhou sua primeira mestra em casa. Sua mãe, Ann Maria, filha de pai venezuelano, foi a primeira campeã mundial de judô em 1984. Ann costumava acordar a filha pulando na sua cama e disputando – na brincadeira – um armbar. Ronda seguiu muito cedo o mesmo caminho da mãe para o tatame. Aos 17 anos tornouse a mais jovem lutadora de judô da história da Olimpíada em Atenas/2004. Ganhou dezenas de medalhas e troféus internacionais. Incluindo o ouro nos Jogos PanAmericanos do Rio de Janeiro em 2007. Em 2008, foi bronze na Olimpíada de Beijing. É faixa preta de quarto dan.

Em 2010, resolveu mudar de luta e experimentar o MMA. No dia 27 de março de 2011, teve sua estreia derrotando a brasileira Ediane Gomes em 25 segundos. Dana White insistia que jamais abriria uma categoria feminina na sua confederação. Em novembro de 2012, anunciou que tinha mudado de ideia. Adivinhe por causa de quem?

E Ronda vestiu a camisa do UFC. Deu um esculacho na brasileira Cris “Cyborg” Santos, que foi suspensa por doping e é apontada como uma ameaça a seu reinado. Defende vigilância constante contra qualquer tipo de droga anabolizante. Seu próprio corpo fala por ela. Enquanto várias lutadoras parecem deformadas, o corpo de Rowdy é firme e musculoso. Mas natural e muito feminino.

Declarou numa entrevista que fazia “muito sexo” antes de cada luta, porque isso aumentava seu nível de testosterona. Criou-se então o mito da linda loura saindo pela noite, caçando homens ao acaso para melhorar suas performances nos treinos e nas lutas. Quem dera!

Ronda então se explicou: isso acontece quando ela tem um namorado. O que anda cada vez mais raro é a sua queixa. “Aliás, eu nem fiz tanto sexo assim para saber se essa história de testosterona funciona mesmo…” Já avisou: gosta de homens confiantes.

Enxeridos, temei!
Ronda Rousey falou com exclusividade para a VIP por telefone de sua casa em Los Angeles. Ela não se nega a responder nada. Fala rápido com seu sotaque californiano cheio de gírias. E partiu para o ataque logo na primeira resposta.

O que mais irrita você?
Jornalistas que procuram coisas negativas em mim em vez de focar nas coisas positivas.

Você tem algum lutador brasileiro favorito?
Flavio Canto! [Medalha de bronze na Olimpíada de Atenas.]

O que você faz para manter essa aparência sempre perfeita?
Não tenho muito tempo para me cuidar. Muitas vezes chego nas entrevistas do jeito que dá, sem maquiagem nem nada. Outras vezes uma equipe cuida da minha aparência. De maneira geral, sou uma garota de baixa manutenção…

Você é a atriz perfeita para um filme de ação. Já recebeu convite?
Já fui sondada, mas nem penso nisso por enquanto. Um atleta tem uma janela de tempo muito pequena. É minha prioridade. Se eu fosse participar de um filme, teria que me adequar aos horários da produção. Quero aproveitar bem esse momento como atleta e depois pensar no caminho que vou seguir.

Como foi sua passagem pelo Brasil em 2007?
Fui três vezes para competir no judô. Uma em Belo Horizonte e outras duas no Rio de Janeiro. Amei. Em todos os lugares do mundo, as pessoas vaiam quando os americanos entram para lutar. Aí no Brasil, no fim do dia já estavam todos torcendo por mim. Vou guardar o carinho que recebi do público em 2007 para sempre.

Você está pronta para lutar com um homem?
Eu luto com homens todos os dias. Meu treinamento básico é lutar com homens. Muito de vez em quando trazem uma mulher para meu treinamento.

Qual foi o melhor conselho que sua mãe te deu?
“Sucesso é a melhor vingança.”

Você tem algum hobby?
Quando vou à praia, costumo praticar skimboard.

O que pretende fazer quando encerrar a carreira?
Talvez vire treinadora. Ou abra minha própria academia.

Qual seu filme favorito?
Sei que é meio clichê falar isso, mas é o Clube da Luta.

Você já lutou fora do ringue?
Quando eu era mais nova, brigava de vez em quando na rua. Percebi que essas brigas não levavam a nada. Só me botavam em encrenca.

Você já foi vegan, teve que desistir. Qual sua alimentação hoje em dia?
Faço uma refeição só, à noite. E aí, como quanto quiser, até ficar satisfeita. Basicamente proteínas, especialmente frango, peixe e ovos. Carboidrato é um dia sim, outro não. Nenhum açúcar artificial. Nem laticínios fora do shake de proteína.

O que faz a guerreira amolecer?
Minha irmã mais nova. E meu cachorro. Ele acabou de entrar na sala. Me deixa toda bobinha.

(Colaborou Fernanda Prates)