A lição de Keirrison e Walter para a geração Y

Como a vida dos dois atacantes pode inspirar um 2014 melhor

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Sempre que imaginamos o mais belo futuro”, dizia o escritor alemão W.G. Sebald, “já se aproxima a próxima catástrofe.” Eu sei que a frase é um pouco pesada. Mas dezembro, no final das contas, é o mês em que contamos calorias por múltiplos de mil, planos (feitos e desfeitos) em múltiplos de 100 e quilos em múltiplos de dez. É um mês um tanto indigesto, por definição, leitões e perus. Mas um balanço desses não precisa nos colocar na penumbra eterna. O objetivo é outro. Como mostra Walter, o craque-gordinho que brilhou pelo Goiás no Brasileirão, às vezes é possível transformar o peso em vantagem e, mais tar­­­­­­­­­­de, na leveza que permite levar uma vi­­­­­­da interessante.

Keirrison teve dois dezembros para fazer isso. Artilheiro e jogador-revelação do Brasileirão de 2008, homem de ¤ 14 milhões (R$ 40,7 milhões) desembolsados pelo Barcelona em 2009, Keirrison precisou de dois anos para sentir mais uma vez a rede balançar em seu nome. Em um movimento estranhamente circular, ele só voltou a ter alguma perspectiva no futebol pelo mesmo clube em que apareceu para o mundo – e isso depois de ter jogado por Palmeiras, Benfica, Fiorentina, Santos e Cruzeiro. É como se pre­­­­­­­­­­cisasse ter zerado o placar da vida para, finalmente, ter uma nova chance nela.

O atacante do Coritiba é o representante futebolístico da geração Y. Assim como muitas pessoas nascidas entre as décadas de 1980 e 1990, Keirrison parece ter acreditado que o talento é a única chave para o sucesso, em vez de ser uma entre muitas que abrem as portas para uma carreira que também depende da chave-esforço, da chave-persistência, da chave-sabedoria, da chave-trabalho-em-gru­­­­­po e da chave-um-bocado-de-sorte. Assim como inúmeras outras pessoas da sua geração, Keirrison tinha pouco apego ao emprego. Afinal, nesse jeito de ver o mundo, cada empregador é só um degrau para o sucesso individual. Não existe co­­­­­letivo, sociedade, grupo, nada. Só existe o indivíduo, seus sonhos e seus inúmeros talentos.

Sem nenhum traço de autopiedade, é bom con­­­­­fessar: a geração de Keirrison também é a minha. Nossa geração é a dos CEOs de empresas de uma pessoa só e dos indivíduos extrema­­­­­mente confiantes e cheios de projetos para mol­­­­­­­­­­­­dar o mundo à sua imagem e semelhança. Acreditamos que somos todos Messi em potencial – com a diferença de que não é preciso Xavi, Iniesta e Piquet para, juntos, vencermos a Liga dos Campeões. É como se Messi pudesse ganhar, sozinho, todos os campeonatos do mundo.

Isso tem um lado bom. Tivemos de aprender a nos virar, na marra, porque empresas e instituições tradicionais já não oferecem um caminho seguro ou atraente para percorrer essa longa estrada da vida. Estamos mostrando a muitas empresas e organizações que existem outras formas, às vezes melhores, de fazer as coisas. Por outro lado, esse jeito de viver o planeta é uma máquina de criar frustrações do mesmo tamanho das suas ambições – porque, afinal, temos muita aspiração e pouca autocrítica. Quando as coisas não acontecem exatamente como queremos, entramos em uma espiral de insatisfação, angústia e amargura. Todo mundo parece conspirar contra a nossa genialidade. Keirrison, quando percebeu que não seria companheiro de Messi, despencou num abismo de jogos ruins e contusões explicáveis apenas pela capacidade humana de somatizar frustrações em danos físicos. O contraste entre a imagem que tinha de si e o resultado final foi forte demais. Aconteceu com ele, vem acontecendo com tantas outras pessoas da minha geração – e em diversas áreas.

A frase de Sebald que abre este texto é muito feliz em captar, em poucas linhas, uma forma de compreender a existência. Ao depositar grandes expectativas em alguma coisa, em alguém ou em si mesmo, abrimos caminho para um bloco de ansiedade, or­­gulho e autodestruição desabar sobre nós. Não é uma história exatamente nova, mas vem ganhando força, volume e consistência. O escritor Henry James escreveu um clássico, A Fera na Selva. É a maravilhosa história de um homem que fica esperando a “GRANDE COISA” acontecer na sua vida, como se o simples fato de existir o credenciasse a ter uma existência fabulosa. Mas isso era exceção – a ponto de virar uma obra literária bem estranha para a sua época. Agora, é conversa rotineira de bares às sextas-feiras. É o mimimi ressentido como forma de vida.

Com a ingenuidade de quem veio da periferia da periferia, Walter, do Goiás, mostra que é possível ser geração Y e, mesmo assim, ter um pouco mais de bom senso. Ele fez um caminho semelhante ao de Keirrison, mas parece já ter reencontrado o prumo. A fome pela bola, abastecida por chocolates e refrigerantes, se materializou em giros sobre zagueiros, disputas com defensores, chutes poderosos contra goleiros e assistências açucaradas para os companheiros. Isso significa que Walter será um sucesso para sempre? Não. Mas ele mostrou que existem vários caminhos para ter a vida com a qual se sonha – e todos eles têm em comum a persistência, a coragem, autocrítica, o trabalho em equipe e o pé bem fincado no chão.
Não é preciso ir ao fundo do Rio Amazonas para saber que ninguém vive só de saliva e projeto. Por isso que o peso de dezembro é necessário: sem reflexão, por mais difícil que seja, não é possível construir o seu caminho para a felicidade.

 Leandro Beguoci*, jornalista e 100% Caieiras, é autor do blog The Pompéia Times (anivelde.org/thepompeiatimes) e sócio da Orbital Mídia.