A Flip dos sonhos da VIP

Mesa redonda FUTEBOL-ARTE E GOLS DE LETRA
A Flip de 2008 já teve um debate futebolístico entre José Miguel Wisnik e o antropólogo Roberto da Matta. Mas defendemos um princípio: o evento tem que ter “mesa-redonda” sempre, com gente de letras falando de nosso esporte favorito. Aqui, chamamos de volta Wisnik e sua visão de acadêmico, com os reforços de Hilário Franco Júnior e seu enfoque de historiador. O contraponto descontraído teria o papo de bar de Xico Sá (que esteve na Flip de 2008, mas não para falar de futebol) e o único estrangeiro: o inglês Nick Hornby, que, ao falar de sua paixão pelo Arsenal, comprova que todo torcedor é muito parecido.
Hilário Franco Júnior
“Torcer é das atividades emocionalmente mais intensas da sociedade contem porânea. E das mais pretensiosas. É imaginar poder agir a distância para que alguma coisa aconteça de for ma esperada. É julgar contribuir pa ra o resultado final de uma partida sem entrar em campo. Torcer pela televisão ou pelo rádio é acreditar poder emitir na con tramão das ondas hertzianas uma energia psíquica que deve contribuir para a vitória do time. Torcer supõe alterar a configuração de um evento, moldar psiquicamente um fato para adequá- lo ao espaço do desejo.”
José Miguel Wisnik
“Para quem a vida se alimenta, na sua multiplicidade aberta, de uma margem irrecusável de desejo e acaso, o futebol pode ser objeto simultâneo de paixão e desejo intelectual. Essa disposição não é muito diferente daquela que é pedida pela arte – que supõe certa dose de aceitação da violência simbólica e da gratuidade. O futebol vem a ser a mais reconhecível e intercambiável das atividades supérfluas, e, por mais interesses econômicos que estejam envolvidos, expande-se historicamente por um fundo de motivações gratuitas.”
Nick Hornby
“Apesar de não haver dúvida de que o sexo é uma atividade mais legal que assistir a futebol, no curso normal das coi sas, os sentimentos que ele gera simplesmente não são tão intensos quanto aqueles proporcionados pela experiência única na vida de ganhar um campeonato com gol no último minuto. Não há, literalmente, nada capaz de descrever isso. Não consigo me lembrar de mais nada que eu tenha ambicionado durante duas décadas, nem que eu tenha desejado como adulto e como menino.”
Xico Sá
“A vida é mata-mata. Apenas para os bem-nascidos e bem planejados a vida é de pontos corridos. Tor cer, vá lá, tem seu valor; mas bom mesmo é secar. Eu seco, tu secas, ele seca. Secar é a expressão máxima de um certame por pontos corridos. Não basta fazer a sua parte, tem que botar o olho grande no time do próximo. O mais doce dos pecados. Gozar com o falo alheio, como diria o amigo Sigmund, dando requintes intelectuais à psicanálise de boteco, é melhor que o gozo próprio. Ô, se é!”
Hilário Franco Júnior é historiador especializado em Idade Média. Dedicou-se ao mun do da bola em A Dança dos Deuses (Companhia das Letras, 2007, R$ 56,50). José Miguel Wisnik é músico e professor de literatura brasileira na USP. Abordou o futebol em Veneno Remédio (Companhia das Letras, 2008, R$ 41). Nick Hornby firmou-se escrevendo sobre o universo pop e relacionamentos de forma simples e humorada. Em sua estreia, indicou um novo estilo de escrever sobre futebol: Febre de Bola (Editora Rocco, 2000, R$ 34,50). Xico Sá tornou-se autor com um divertido estilo macho. Fala de futebol no jornal Folha de S. Paulo, mas ainda não reuniu o que sabe do assunto em um livro. Por enquanto, sua obra de referência é Modos de Macho & Modinhas de Fêmea (Record, 2003, R$ 32).

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