NEGÓCIOS

Sem parar: a história de Carlos Alberto de Oliveira Andrade

Carlos Alberto de Oliveira Andrade relembra a sua trajetória e diz que, mesmo tendo superado expectativas, seu foco continua sendo fazer a empresa crescer

A rotina na sede do Grupo CAOA, em São Paulo, é agitada. Ainda mais às terças-feiras, quando o único acionista, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, comparece para tratar dos assuntos relacionados aos negócios da empresa, onde é chamado por todos de “doutor”. É uma alusão à sua formação médica – e o próprio contraria as recomendações que daria aos pacientes sobre uma dieta equilibrada: mal tem tempo para almoçar, enfrenta longas reuniões, lê relatórios de pé no corredor, desce para o estacionamento junto com Mauro Correia, CEO da CAOA, para avaliar equipamentos instalados em dois utilitários HR e, antes de falar com o repórter, engole meio sanduíche, depois da insistência de seu assessor pessoal.

Com a fala mansa, Andrade é uma pessoa de sorriso fácil – que fica ainda mais largo quando ele comenta que a CAOA, no fim de maio, recebeu três importantes prêmios. Um deles é o primeiro lugar na pesquisa anual de satisfação da JD Power. A consultoria, sediada nos Estados Unidos, é uma das principais autoridades mundiais na avaliação de serviços do mercado automotivo a partir do ponto de vista dos consumidores. “Somos uma empresa 100% brasileira e ficamos à frente das multinacionais que operam aqui no Brasil”, diz, com uma inegável expressão de contentamento. As duas outras premiações foram concedidas pela revista Consumidor Moderno: primeiro lugar na categoria automóveis de luxo em “Satisfação em Atendimento ao Cliente”, desbancando nove anos de hegemonia da Mercedes-Benz, e o título de “Empresa do Ano”, prêmio concedido por meio de votação popular.

Foco no consumidor

Andrade <em>(centro)</em>, na sede da CAOA, em São Paulo: “Jamais deixarei de pensar em formas de fazer a empresa crescer”

Andrade (centro), na sede da CAOA, em São Paulo: “Jamais deixarei de pensar em formas de fazer a empresa crescer” (Alexandre Battibugli/Abril)

O orgulho pelo reconhecimento do bom trabalho, no entanto, está longe de deixar Andrade acomodado. Na verdade, a próxima meta está na ponta da língua e é de conhecimento de todos aqueles que trabalham na CAOA: o primeiro lugar na pesquisa de satisfação pelos serviços de pós-venda na concessionária, também realizado pela JD Power. “O aprimoramento dos nossos serviços de pós-venda é algo muito importante para a CAOA, algo em que nós sempre investimos bastante. Por isso, tenho certeza de que chegaremos lá muito em breve”, diz.

Desde quando assumiu o comando da primeira concessionária, no fim da década de 1970, deixar o cliente satisfeito sempre foi um mantra para Andrade, cuja trajetória no mercado de venda de automóveis começou quase por acaso, quando ainda era cirurgião em Campina Grande (PB) e comprou um Ford Landau, mas a empresa faliu e o carro não foi entregue. Diante da promessa de que o dinheiro seria devolvido quando a loja fosse vendida, o faro natural para os negócios falou mais alto. “Eu vi que havia potencial. A marca era boa, os carros também… Era uma questão de melhorar a administração. Creio que o dono estava sem muita disposição, tanto que comprei o negócio”, explica, lembrando que arrematou a concessionária por 4 milhões de cruzeiros, já descontado o valor do Landau.

A concessionária, que vendia oito carros por mês, logo saltou para 30 veículos comercializados. No fim do ano, chegou à casa da centena. Começava ali a fama do doutor que fazia qualquer negócio – e aceitava desde carros usados a terrenos e cabeças de gado, passando por estoques de tijolos. “Muitas vezes eu saía perdendo, mas o importante era fechar a venda.” Logo, a fama se espalhou na região. “Vinha gente de outras cidades do interior, de Natal e João Pessoa para comprar comigo.” Não demorou para que a Ford o procurasse, oferecendo-lhe a principal concessionária do Recife – e, alguns anos mais tarde, outras em São Paulo. A CAOA logo se consolidaria como a maior revendedora da Ford no Brasil, tanto em número de concessionárias como de veículos vendidos. Outro exemplo mais recente dessa constante preocupação com a satisfação do cliente aconteceu alguns anos atrás. “Quando a inspeção veicular foi criada em São Paulo, muita gente ia até as concessionárias fazer uma revisão prévia, para evitar a reprovação. Só que isso era cobrado”, explica. “Quando fiquei sabendo, não achei certo. O serviço deixou de ser cobrado e devolvemos o dinheiro de quem já havia pago. Foram quase 3 milhões de reais.”

Menina dos olhos

Cirurgião de formação, a trajetória de Andrade no mercado automotivo começou por acaso, após uma compra malsucedida

Cirurgião de formação, a trajetória de Andrade no mercado automotivo começou por acaso, após uma compra malsucedida (Alexandre Battibugli/Abril)

A segunda parte da conversa com Andrade aconteceu em sua casa – o que não diminuiu o seu ritmo. Antes de atender a reportagem, uma longa lista de reuniões de trabalho no café da manhã e, durante o bate-papo, vários telefonemas urgentes demandaram a sua atenção. “Sinto orgulho de tudo que eu fiz e construí. Jamais imaginei que chegaria onde cheguei”, conta, quando questionado sobre o sentimento que tem ao rever sua trajetória e da empresa que criou. Atualmente, a CAOA é importadora exclusiva das marcas Hyundai e Subaru, além de ser a maior distribuidora Ford no Brasil. Contando com as 12 lojas de seminovos e a rede independente, são 160 concessionárias que comercializam os modelos produzidos pela CAOA Montadora em sua fábrica em Anápolis (GO) – os SUVs Tucson, ix35 e New Tucson e os utilitários HR e HD80, além do HB20 e do Creta, produzidos pela HMB. Há, ainda, outras frentes de negócio, como a rede de 130 oficinas da CAOA Pós-Venda e a CAOA Consórcios.

No total, ele já vendeu mais de 1 milhão de veículos desde 1979, mas a menina dos olhos do “doutor Carlos” é a fábrica, inaugurada há dez anos. “Os modelos que saem de Anápolis têm a mesma qualidade – ou até melhor – que os carros feitos na Coreia pela Hyundai”, garante, citando os altos índices de qualidade seguidos pelos engenheiros da produção brasileira. Segundo ele, uma de suas premissas foi a de que a fábrica contasse com os melhores equipamentos disponíveis, como os 32 robôs das áreas de pintura e body shop. Além da linha de montagem, ele também destaca o moderno Centro de Pesquisa e Eficiência Energética (“único da América Latina que mede emissões de veículos com tração 4×4”) e a constante preocupação com a preservação ambiental – como exemplo, cita os milhões de reais que foram investidos no tratamento de efluentes, permitindo que a água usada nas câmaras de pintura seja devolvida potável à natureza.

Andrade fala da fábrica com o brilho nos olhos de pai que conta sobre o filho bem-sucedido. No entanto, após uma longa reflexão, revela que, de uma forma indireta, ela também trouxe uma das maiores frustrações. “A fábrica foi inteiramente construída com dinheiro do meu bolso. Não recebi um empréstimo sequer do BNDES e, como empresário brasileiro, me senti totalmente desamparado”, explica, destacando que a fábrica gera, hoje, mais de 25 000 empregos diretos e indiretos no país – e, mesmo diante da recente crise no mercado automobilístico, não demitiu funcionários. “Na época, eu vendi quase tudo que tinha e corri todo o risco sozinho. Quando contei essa história para o presidente mundial de uma montadora alemã, ele se surpreendeu e disse que, se alguém fosse fazer o mesmo na Alemanha, teria recebido enorme apoio financeiro.”

Marca Premium

Andrade (segundo à direita) e executivos na sede da CAOA

Andrade (segundo à direita) e executivos na sede da CAOA (Alexandre Battibugli/Abril)

Outro ponto que o leva a uma pausa para reflexão, parecendo não querer esquecer nenhum detalhe, é o trabalho de construção de marca realizado com a sua principal parceira. “Hoje, no Brasil, a percepção que o público tem da Hyundai é de uma marca Premium. E isso não acontece em nenhum outro lugar do mundo. Nós da CAOA é que construímos isso”, ressalta. O New Tucson, por exemplo, que é produzido em Anápolis, custa quase 140 000 reais. Mas Andrade faz questão de dizer que o modelo tem tecnologia e qualidades que o colocam em um patamar superior a modelos de luxo, de faixa de preço mais elevada, de outras montadoras internacionais.

Com a imagem de marca criada para a Hyundai pela CAOA, a introdução dos modelos HB20 e, mais recentemente, do SUV Creta no mercado brasileiro foi bastante facilitada, tornando a Hyundai a quarta maior montadora em vendas em 2016, de acordo com dados da Federação Nacional de Distribuição de Veículos Automotores. O resultado quebra um paradigma nacional: desde o início da entrada de novas montadoras no Brasil não se via a consolidação de uma “novata” entre as maiores do país.

O contrato com a Hyundai foi assinado em 1999. “A primeira providência foi retomar os serviços de assistência técnica”, diz Andrade, relembrando que o representante anterior havia quebrado e deixado os clientes órfãos. Começava ali o trabalho que tem como tripé o investimento maciço em publicidade – a Hyundai CAOA tornou-se uma das maiores anunciantes do país –, o trabalho de atendimento ao cliente na hora da compra e o aprimoramento dos serviços de pós-venda. Ele lembra que a evolução dos veículos da marca coreana também foi fundamental. “Começamos a decolar com o SUV Terracan, mas o jogo virou mesmo com o Tucson. Podemos dizer que inauguramos o segmento dos SUVs aqui no Brasil.” Andrade lembra que tudo isso facilitou a vida da Hyundai quando a marca coreana decidiu iniciar sua própria operação no Brasil, fabricando modelos de maior volume, como a linha HB20 e, mais recentemente, o SUV Creta.

O futuro

Apesar de ter se afastado do comando direto da CAOA há alguns anos – hoje, ele é presidente do Conselho de Administração, Andrade se mantém envolvido nos principais assuntos da empresa e não dá sinais de que tenha planos de parar ou desacelerar. Pelo contrário. “Eu posso ter superado as minhas expectativas, mas é certo que jamais deixarei de pensar em formas de fazer a empresa crescer. Estou sempre prospectando negócios e continuo trabalhando para que a empresa possa, no futuro, tornar-se dez vezes maior do que ela é hoje”, diz. Nem há como duvidar de suas palavras – basta dizer que, dias antes, ele havia retornado de uma longa viagem para a Coreia do Sul e o Japão, onde foi tratar de novas possibilidades de negócios com a Hyundai e a Subaru. Andrade voltou bastante otimista. “Temos perspectivas de boas novidades para as duas marcas. Elas são nossas principais parceiras, junto com a Ford, por isso sempre priorizamos ações que possam melhorar ainda mais o nosso relacionamento.”

Para finalizar a entrevista, questiono se o doutor alimenta algum sonho – além de fazer a empresa continuar a crescer – e ele deixa escapar: “Um país só é economicamente livre se tem uma indústria automobilística própria. Faz alguns anos que eu sonho com um carro 100% nacional”, suspira. “Seria um legado não para mim, para minha família ou para a CAOA, mas para o Brasil inteiro.”