Volpon, da UBS: a crise de volta?

Flávia Furlan Nunes

O governo federal comemorou o resultado positivo do PIB na semana passada, afirmando que é chegado o fim da recessão. Mas não vai ser tão fácil assim. Para Tony Volpon, economista-chefe do banco de investimentos UBS Brasil, é impossível ignorar os impactos da crise política sobre a economia – e, caso o cenário de instabilidade permaneça, há o risco de a crise se aprofundar ainda mais. Em entrevista a EXAME, o especialista que já foi diretor do Banco Central, fala sobre como o mercado tem enxergado o atual momento econômico e político brasileiro.

Qual deve ser o impacto da crise política para a economia?
É preciso entender como a incerteza política em geral impacta a economia, porque ela encurta o horizonte de previsão dos agentes econômicos. Um investimento na economia real implica desembolsos financeiros que duram durante anos. Antes de tomar essa decisão, o investidor precisa saber qual será o estado da economia e da política no longo prazo, especialmente em países emergentes como o Brasil. É até uma forma de definir o que diferencia as economias desenvolvidas dos mercados emergentes – as instituições são relativamente fracas e a situação política impacta muito a economia. O mais importante é que essa crise política acabe rapidamente. Do ponto de vista econômico, não importa como, mas quando vai se encerrar. Se esse estado agudo de incerteza permanecer por muito tempo, os impactos sobre a demanda serão maiores, mais profundos, mais longos. Essa recuperação econômica incipiente e frágil, no limite, poderia significar uma volta do processo recessivo.

Seria o chamado “mergulho duplo”, quando em meio à recuperação, a economia volta a ter uma nova recessão?
Seria o double dip, ou até o triple dip, porque, se olharmos os últimos anos, a economia já estava em processo recessivo quando teve a crise da Dilma Rousseff em agosto de 2015, e aquela nova crise causou mais um aprofundamento. Dilma deu azar porque o abandono da meta fiscal, que levou o mercado a questionar a vontade dela de fazer reformas, veio no mesmo mês que teve a desvalorização da moeda chinesa e causou um grande pânico em todos os mercados globais. A partir do impeachment, as condições financeiras melhoraram; a economia demorou para se recuperar. Agora, pode haver o terceiro aprofundamento do processo recessivo, que seria ruim porque a economia está mais fraca do que estava em 2014 ou 2015. A situação das empresas, do consumidor, do emprego, é pior; a situação fiscal é muito pior. Seria muito ruim enfrentar esse choque com a economia já debilitada.

Qual a sua avaliação do comportamento do mercado até agora?
É nossa sorte, e do governo, que tudo agora tenha ocorrido num momento de calmaria no mercado global, o que diminui a reação dos mercados domésticos, que tem grande participação de investidores estrangeiros. Então, se a economia global está favorável aos emergentes, eles tendem a esperar um pouco mais, apesar da piora dos fundamentos. O câmbio estava perto de 3,10; agora está 3,27. Tem um prêmio do mercado. Mas, se os mercados globais estivessem em condição menos favorável, o 3,27 poderia ser 3,50, com os investidores pedindo mais. O contexto em que essas coisas acontecem globalmente é muito importante.

E qual a leitura do mercado quanto à situação no país?
O mercado, corretamente ou não, está apostando numa solução relativamente rápida da crise.

As recorrentes crises são parte do amadurecimento do país?
Ninguém estava esperando o que aconteceu nas últimas semanas, mas ao mesmo tempo não surpreende. Estamos passando por um processo de mudança de comportamento político e institucional do país que a Operação Lava-Jato desencadeou. Ele cobra seu custo no curto prazo, mas acredito que a médio e longo prazo vamos ter novas maneiras de fazer políticas no país que serão bastante positivos para a economia, para o setor privado e para a vida privada. A criação de instituições fortes não é algo indolor.

O que pode resultar de todo esse processo?
Todos os países do mundo têm corrupção, é uma questão de grau e tamanho. O Brasil é o único país emergente hoje que passa por um processo público, evidente e doloroso de lidar. Isso é positivo para a imagem do país. Mas há questões institucionais que precisam ser revistas. E uma reforma política parece necessária. Se tudo isso vai nos levar ao fortalecimento da nossa democracia, depende de quanto vamos aproveitar para fazer reformas nos próximos anos.

A pressão na política monetária aumentou?
A política monetária é a única que sobrou, a fiscal está totalmente constrangida. A equipe do Banco Central estava ligando o tamanho do ciclo de queda de juros às reformas, com a visão de que as reformas permitiriam um nível menor de juros da economia, sem estar ligado ao momento econômico. O ponto de vista era: qual a taxa média real necessária para manter a estabilidade da inflação. A ideia era de que as reformas levariam essa taxa a cair e, portanto, seria possível fazer um ciclo mais longo, mais profundo, com segurança – diferente do que tentaram em 2012, que acabou dando errado. Ali, a Selic caiu para 7,25% e depois passou a 14,25% em poucos anos.

Há uma tolerância maior em relação a uma diluição nas reformas?
O mercado, entendendo as limitações de fazer reformas dado o calendário eleitoral e entendendo que este governo não foi eleito, sabe que essa reforma será diluída. Mas ainda é um passo importante para chegar à reconstrução do regime fiscal. A própria sobrevivência do teto dos gastos, que foi a grande reforma aprovada pelo governo Temer até este momento, depende da reforma da Previdência. Sem ela, é bastante provável que se vá furar o teto.

Qual o papel de 2018?
Com o calendário eleitoral, o tempo vira inimigo. Mas espero que os mercados, em seu relativo otimismo, esteja certo. Ter um segundo mergulho seria muito custoso para a economia e para a própria eleição, que fica mais volátil e incerta.