URSS: sonho e pesadelo

O Fim do Homem Soviético
Autora: Svetlana Aleksiévitch
Companhia das Letras. 596 páginas

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Joel Pinheiro da Fonseca

Em 2017 fará um século da revolução russa. Muito ainda será escrito sobre ela, mas o público brasileiro pode começar já a aprender mais sobre a União Soviética com o clássico de 2013 da escritora ucraniana vencedora do Nobel Svetlana Aleksiévitch, O Fim do Homem Soviético, publicado em português no fim de 2016.

Mais do que a sequência de fatos e nomes, Svetlana está interessada na história da alma russa. O que representou o socialismo soviético e qual o efeito que sua queda repentina teve na psicologia da população. O livro é basicamente uma coleção de relatos — conversas gravadas da autora com diversos interlocutores ao longo das duas décadas que se seguiram ao fim da URSS — de pessoas que viveram os dois lados dessa transição.

De longe, os relatos mais marcantes se referem ao stalinismo. A enormidade do regime de terror e paranoia criado por Josef Stalin, e o grau de violação física e psicológica que ele perpetrou, estão acima do que as palavras podem descrever. O silêncio e a simplicidade com que algumas das vítimas relatam o que foram aqueles anos — pessoas que passaram longos períodos nos gulags, algumas ainda crianças — falam mais alto do que qualquer tentativa de condenação com tintas pesadas.

Do zelo revolucionário em si — também ele capaz de atos hediondos — temos pouca experiência relatada no livro. Os anos de chumbo do stalinismo eram marcados pela covardia e pela suspeita generalizadas. Um vizinho invejoso, um colega de trabalho ressentido, um amigo; era deles que partiam as denúncias anônimas (fez piada com o Partido, tem um parente morando no exterior, etc.) que resultavam em anos nos campos de trabalho forçado, onde a fome, a tortura e a doença eram a regra. As pessoas que voltavam eram diferentes das que foram; homens e mulheres quebrados, mutilados em sua essência.

Do líder Nikita Kruschiev em diante, o pior do totalitarismo foi deixado de lado, embora estar nas boas graças do Partido ainda definisse o status e o sustento da pessoa na sociedade, e mesmo ir para a prisão. Nesses anos, o que mais marcava era a pobreza material e a falta de liberdade de expressão. Gerações cresceram tendo como principal meio de convívio e discussão as conversas na cozinha, ambiente não vigiado. O absoluto cinismo manteve vivo por décadas um sistema no qual a população não mais acreditava e cujos líderes tinham plena consciência desse fato.

Com a perestroika, ou abertura — que inicialmente concentrou grandes esperanças de todos —, era inevitável que o sistema colapsasse. Mas ninguém estava preparado para o que viria a seguir. Muitos sonhavam com um socialismo mais humano e transparente, e se viram jogados no capitalismo mais selvagem e sem nenhum norte moral.

Os anos de privação e cinismo não prepararam o povo russo para a vida no mercado. O movimento inicial foi de absoluto deslumbre com toda e qualquer quinquilharia do mercado global — calças jeans, Mc Donald’s — e de um verdadeiro saque, por parte de ex-membros da nomenklatura, de todas as propriedades que antes eram estatais, gerando bilionários da noite para o dia.

Por isso, mesmo pessoas torturadas pelo stalinismo olham para trás com nostalgia. Não havia o que comer, parentes eram mortos pelo regime, crimes indizíveis eram cometidos, mas ao menos vivia-se em nome de algo.

A URSS venceu a Segunda Guerra; a nova Rússia é apenas a perdedora da Guerra Fria. A falta de um propósito maior e de orgulho nacional é mais do que muitos podem suportar, ainda que saibam que os propósitos anteriores eram quimeras baseadas em mentiras.

Não é de se espantar, portanto, que os sonhos do totalitarismo voltaram. Que Stalin seja celebrado por parcelas crescentes da população, bem como o sonho da volta do tsar. Vladimir Putin tem utilizado esses dois sentimentos em seu favor.

No final das contas, nada é simples. O socialismo foi um erro e um crime, mas não há como não compreender o lado de quem sente falta de um mundo mais simples, em que as escolas ensinavam que todos os homens eram irmãos, no qual as pessoas iam aos estádios para assistir poetas e circulavam livros ilegais com a certeza de que eles poderiam mudar o mundo. Valores até mais nobres são cultivados também no mundo capitalista e democrático, mas parece que quando ele é transplantado o que fala mais alto é o apelo consumista, sua faceta menos importante.

Ter uma ordem econômica que permita a criação de valor é fundamental, mas não é tudo. As pessoas precisam ter algo pelo que viver. Se esse ideal estará em um sistema social, numa raça ou etnia (outro fato notável apontado no livro é o ressurgimento quase que automático do ódio étnico que se seguiu ao fim do socialismo), na religião ou em valores individuais que não reivindicam a imposição coletiva por meio da força, é uma questão que será resolvida no campo da filosofia, da arte e da comunicação.