Um boicote feito pela China? Um plano que pode dar errado

O governo chinês está relutante em iniciar um boicote aos EUA; a população gosta das marcas americanas e as empresas multinacionais são parceiras do governo

Taicang, China – Se a China apelar para um boicote de mercadorias dos EUA, trabalhadores chineses como David Xu podem estar em apuros.

Xu é um dos milhares de moradores desta cidade portuária que recebe seu pagamento pelo trabalho em empresas americanas. Ele trabalha como técnico no centro de produção e distribuição da Procter & Gamble, um dos maiores da empresa no país. Do outro lado da cidade, a Nike abriu um grande centro de distribuição, o seu maior na Ásia.

Ao todo, mais de 40 outras empresas americanas fundaram lojas e centros aqui, fabricando produtos químicos, isqueiros e uma ampla gama de outros produtos para um mercado chinês ansioso por mercadorias americanas.

“Não há uma revolta profunda em relação às empresas americanas. O impacto desse conflito comercial não deveria ser grande. Afinal, as empresas americanas trazem tantas conveniências para a vida do povo chinês”, disse Xu, que trabalhou para a Procter & Gamble por 13 anos.

Alguns meios de comunicação estatais chineses sugeriram sombriamente que Pequim poderia mobilizar suas centenas de milhões de consumidores caso Washington continuasse com sua recente ameaça de taxação, iniciando uma guerra total do comércio. No Weibo, a versão chinesa do Twitter, existem chamadas esporádicas para boicotar os iPhones da Apple. Pequim já fez isto antes, habilmente punindo produtos e empresas japoneses, sul-coreanos e filipinos por conta de disputas políticas.

Um plano de boicote aos americanos poderia ser muito mais difícil.

Apesar de a concorrência entre smartphones fabricados na China estar aumentando, os iPhones continuam a ser populares. Os desenvolvedores de shoppings, ávidos por um toque de classe, clamam por lojas Starbucks. A Nike domina o mercado de roupas esportivas no país. A Chevrolet é uma das marcas de carro mais populares do país.

E notavelmente, muitos desses produtos são feitos por trabalhadores chineses. As fábricas na China montam iPhones, costuram roupas e calçados da Nike e montam Chevrolets e Fords. Não está claro quantos empregos são criados, mas a câmara de comércio dos EUA na China disse que mais de um terço das suas empresas têm mais de mil funcionários no país.

“A China precisa dos EUA e os EUA precisam da China. Estamos economicamente atrelados”, disse Max Baucus, ex-embaixador dos Estados Unidos no país asiático.

Os EUA também forneceram grande parte do investimento que sustenta o crescimento econômico chinês. Entre 1990 e 2017, os americanos injetaram mais de US$ 250 bilhões na China, de acordo com um relatório do Rhodium Group e do Comitê Nacional das Relações EUA-China.

“As multinacionais americanas têm uma participação relevante na história do desenvolvimento chinês, fornecendo investimentos, tecnologia, marcas. Eles cultivam uma boa relação entre si”, disse Erlend Ek, gerente de pesquisa de políticas comerciais da China Policy, empresa de consultoria baseada em Pequim.

Há uma outra razão para que Pequim esteja relutante em tentar de fato um boicote: as multinacionais americanas estão ajudando o governo chinês em alguns projetos importantes. A IBM e o Walmart, por exemplo, estão colaborando com a empresa de comércio eletrônico JD.com e com a Universidade de Tsinghua para melhorar a segurança alimentar na China, uma prioridade para Pequim.

Isso não quer dizer que a ideia esteja fora de cogitação.

O Global Times, tabloide nacionalista controlado pelo Diário do Povo, o jornal oficial do Partido Comunista, avisou que poderia ser travada uma “guerra popular” contra os Estados Unidos. Nas redes sociais chinesas, a frase “A China não tem medo!” tornou-se uma hashtag popular; o Diário Popular ilustra a frase com uma imagem de chineses e americanos usando luvas de boxe.

“O patriotismo e o coletivismo do povo chinês provavelmente terão um papel relevante. E os slogans para boicotar os carros americanos e outras grandes commodities podem ganhar força através da internet chinesa e gerar uma reação”, dizia o jornal em um editorial de março.

Ainda assim, a China tem outras maneiras de contra-atacar sem precisar envolver os consumidores.

O país propôs tarifas de represália que atingiriam empresas como a Boeing. Pode dizer aos seus governos locais que parem de comprar tecnologia da IBM ou da Microsoft. Também pode arruinar planos de negócios com regulamentações que os complicariam.

Tu Xinquan, reitor do Instituto de estudos da OMC na Universidade de Negócios e Economia Internacional em Pequim, advertiu que a possibilidade de um boicote dos bens americanos por parte dos consumidores “não pode ser descartado”.

“Mas talvez, uma vez que a batalha comece, é possível que nem seja preciso que as pessoas pratiquem o boicote, já que as medidas do governo podem ser suficientemente poderosas”, disse Tu.

Só a perspectiva de um boicote de consumidores já preocupa alguns executivos dos EUA. Apesar de todas frustrações que incluem regulamentos não transparentes, a fraca força da lei e as demandas para entregar tecnologia a autoridades ou parceiros chineses, o fascínio quanto à capacidade de acessar quase 1,4 bilhões de consumidores com a ajuda de uma enorme força de trabalho ainda tem apelo.

Os consumidores na China podem ser uma força potente. Em 2012, nacionalistas chineses destruíram lojas e concessionárias de veículos japoneses, além de boicotarem os carros desse país devido a uma disputa territorial, afetando as vendas por anos. Em 2016, vendedores on-line pararam de vender mangas secas das Filipinas, depois que um tribunal da ONU decidiu em favor de Manila em outra disputa territorial.

No ano passado, o conglomerado sul-coreano Lotte foi forçado a encerrar mais de 80 lojas na China depois que o governo sul-coreano forneceu terras para um sistema de defesa antimísseis dos EUA, ao qual Pequim se opôs veementemente.

Mais recentemente, nacionalistas chineses cercearam as contas de redes sociais de empresas ocidentais que colocaram Taiwan, uma ilha autônoma que Pequim considera uma região separatista, e o Tibete como países.

William Zarit, presidente da câmara de comércio dos Estados Unidos na China, disse que um boicote “é um dos muitos métodos que os chineses têm em seu arsenal”.

“Por causa da estrutura do governo e do poder político do partido, eles podem pedir um boicote e obter um resultado muito bom. E isso me preocupa”, disse Zarit.

Analistas dizem que Pequim está ciente da importância das empresas americanas para a economia chinesa. Ernan Cui, analista de consumo da empresa de pesquisa Gavekal Dragonomics, disse que um boicote poderia ter muitas vítimas.

“Devido à integração das economias, tudo o que a China fizer em relação aos EUA vai acabar machucando sua própria economia”, completou Cui.