Tudo que você deve saber sobre crise da Grécia em 12 tuítes

Como a Grécia chegou até aqui, quem tem culpa nessa história toda, o que o referendo de domingo vai decidir e o que isso significa para o futuro da Europa

São Paulo – É difícil não ser superlativo ao falar da Grécia.

Bancos estão fechados na terra que criou o primeiro sistema financeiro do mundo. A racionalidade foi escanteada ao definir o destino do povo que inventou a filosofia. E em pleno berço da democracia, um referendo convocado por um governo eleito pode se provar uma decisão completamente irresponsável.

No domingo, os gregos irão votar se aceitam mais austeridade em troca de um novo resgate financeiro. Por enquanto, nada está claro: nem a pergunta, nem qual é o plano que está na mesa e nem o que acontece no dia seguinte.

Até vencedores do prêmio Nobel estão divididos sobre como votar; o povo grego, também. A grosso modo, o “sim” significaria a queda do governo atual, mas estenderia a dor da austeridade, com mais necessidade de financiamento e um novo impasse no curtíssimo prazo.

“Se os gregos aceitarem estes termos, é difícil ver como não estarão de volta nessa posição em poucos meses”, diz Simon Tilford, vice-diretor do Centro para Reforma Europeia.

Dizer “não” a um acordo pode significar que quando (e se) os bancos gregos reabrirem, talvez não tragam mais euros e sim o antigo dracma, ou qualquer título ou moeda a ser definido.

Isso pode causar uma queda de 40% no poder de compra dos gregos, lembra Joseph Weisenthal, editor de Mercados da Bloomberg:

Os gregos querem o euro, mas não querem mais austeridade – e ficou claro que a Europa não aceitará as duas coisas. O erro do partido de esquerda Syriza, eleito em janeiro, foi dizer (ou acreditar) que isso era possível. 

Pré-2012

É fato que os gregos sempre gastaram mais do que podiam. Só que antes do euro, eles compensavam a política fiscal frouxa com mais inflação, o que fazia a dívida perder valor relativo (ou entravam em crise e davam o calote).

Quando a Grécia adotou o euro em 2001, isso já não era uma opção – e o mercado se animou. As taxas de juros despencaram e o país foi inundado de dinheiro – tanto dos fundos da UE quanto de investidores privados, o que gerou um boom econômico.

Veja a tabela postada por James Mackintosh, editor do Financial Times, que traz a média de expansão da economia por 4 trimestres acumulados com base em 1999: 

Em 2009, a crise que estourou nos EUA derrubou o PIB e a saúde financeira até de governos que estavam com superávit. Ao mesmo tempo, o novo governo grego apontou que administrações anteriores haviam abusado da “contabilidade criativa” e que o déficit do país era muito maior do que qualquer um imaginava.

A partir daí, o mundo começou a duvidar de que a Grécia seria capaz de pagar suas dívidas. Em 2010, um resgate foi arquitetado por três instituições: o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Banco Central Europeu (BCE) e a Comissão Europeia, formada pelos ministros de Finanças dos países do bloco.

É esta a chamada “troica”, até hoje do outro lado da mesa nas negociações. Só que a maior parte do dinheiro do resgate acabou indo para pagar bancos franceses e alemães, como lembra Steve Keen, professor da Universidade Kingston, na Inglaterra:

Atualmente, muitos economistas dizem que teria sido melhor decretar um calote em 2010 e recapitalizar diretamente os bancos mais expostos à dívida grega. Só que na época, o mercado estava mais turbulento, e o resgate comprou tempo para amenizar o problema sem que eles precisassem absorver muitas perdas.

Pós-2012

Em 2012, um novo resgate foi necessário. Simultaneamente, o presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, conseguiu reverter a crise de confiança nos títulos europeus ao dizer que faria “o que fosse necessário” para salvar o euro.

Isso permitiu que os bancos trocassem a dívida grega por outros títulos, diminuindo sua exposição. As tabelas postadas pelo jornalista Juhani Huopainem explicam a relativa “calma” dos mercados diante do impasse atual:

Enquanto isso, a Grécia era pressionada pela troica a levar adiante cortes em gastos e pensões (bastante generosas até para padrões europeus) e tentava melhorar seu problema histórico de baixa arrecadação, evasão fiscal e corrupção.

Apesar de muitas das reformas não terem saído do papel, a reversão de políticas foi suficiente para transformar o déficit estrutural em superávit, como mostra a tabela postada por Ilias Siakantaris, correspondente da TV grega Alpha:

A esperança era que a austeridade fiscal traria de volta um círculo virtuoso de crescimento. Só que isso não aconteceu: muito pelo contrário. A Grécia entrou em uma espiral de recessão sem precedentes na história moderna, pior até que a Grande Depressão americana, como mostra a RBS Economics:

A recessão também trouxe desemprego de 25% (o dobro entre os jovens), levou a renda dos gregos de volta para os anos 80 e causou êxodo populacional e um aumento de 36% nos suicídios desde 2011.

E sem crescimento, a relação dívida/PIB explodiu: de 110% em 2008 para 180% hoje. Ninguém acredita que a Grécia vá de fato pagar a sua dívida: alguma reestruturação é inevitável, mas ela tem sido tratada como tabu, apesar de indicada pela própria equipe técnica do FMI.

“Por que a Europa se recusa a discutir diminuir o fardo da dívida grega quando o FMI enfatizou o quão importante isso é como parte da solução?”, se pergunta Jeffrey Sachs, economista norte-americano responsável por planos bem sucedidos de estabilização na Europa oriental e América Latina.

A resposta é que não é tão difícil melhorar as condições financeiras para a Grécia, uma economia relativamente pequena. Mas a Europa teme que isso fortaleceria partidos radicais em países maiores (como o Podemos, na Espanha) também sedentos por uma renegociação diante da alta dívida e desemprego.

“Os governos existentes nesses países percebem que se eleger um governo radical na Grécia for visto como algo a ser recompensado, então votantes em outros lugares farão o mesmo”, escreve Anyl Kashiap, professor da Universidade de Chicago, em seu resumo da crise.

É por isso que Catherine Rampell, do Washington Post, se pergunta sobre o efeito que o fiasco na Grécia tem tido sobre a popularidade local dos partidos mais radicais: esta é uma das questões-chave da crise.

Cultura e história

A disputa atual também tem um elemento cultural forte. Apesar do seu histórico de irresponsabilidade fiscal, o povo grego se vê como o mais confiável e trabalhador do bloco, enquanto muitos de seus vizinhos pensam justamente o contrário.

A Alemanha é a mais admirada nesse sentido, como mostra a tabela de Conrad Hackett, demógrafo da Pew Research Center:

Outros países antes vulneráveis já perderam a paciência e querem distância dos gregos. Enquanto a Espanha se recupera, a Itália se sente injustiçada. Como colocou recentemente seu primeiro-ministro, Matteo Renzi:

“Não cortamos as pensões prematuras de italianos para que a Grécia continuasse as pagando. Não aumentamos impostos na Itália para que donos de navios na Grécia não os paguem”.

A ideia da União Europeia sempre foi de que mais integração econômica levaria a mais integração política, e que isso diminuiria a chance de um novo conflito militar. Nesse sentido, ela deu muito certo, considerando tudo que aconteceu na Europa até a Segunda Guerra Mundial. 

Mas o projeto de unificar a política monetária sem fazer o mesmo com a política fiscal encontrou barreiras que já eram previsíveis, como mostra o documento recuperado por Justin Fox, da Bloomberg:

Nos Estados Unidos ou no Brasil, por exemplo, os estados tem capacidades muito diferentes, mas o governo federal tem um peso muito maior.

Quando há uma crise no Alabama, por exemplo, ele continua recebendo suas aposentadorias normalmente, e sua dívida não é questionada. Estados ricos subsidiam os pobres e isso é visto como parte do jogo.

Além do mais, as pessoas podem se mudar de um estado para o outro em busca de melhores oportunidades, o que ajuda a equilibrar as taxas de desemprego.

Na Europa, a estrutura acima dos estados tem pouco peso econômico. As pessoas podem se mudar de um país para outro, mas isso não é tão simples – a começar pela diferença de língua. E é virtualmente impossível ter um Banco Central que vá ao mesmo tempo satisfazer países tão diferentes como Alemanha e Grécia.

No domingo, a Grécia irá selar seu destino, mas ninguém sabe realmente em que direção. Ou como colocou uma grega: “sinto que preciso escolher entre duas portas, mas que ninguém me disse o que está atrás de cada uma delas”.