Trump Tantrum: por que ele causou uma fuga dos emergentes?

“Esse choque do Trump piorou a situação do Brasil", diz ex-presidente do Banco Central. Movimento ecoa liquidação de 2013 e 2014

São Paulo – A inesperada eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos causou uma reviravolta nos mercados.

Os recursos fugiram dos emergentes e derrubaram moedas: o real foi de R$ 3,22 por dólar para R$ 3,39, chegando a encostar em R$ 3,50. O México, principal alvo de Trump, sofreu ainda mais.

O movimento já ganhou um apelido: “Trump Tantrum”, ou “a birra” com Trump, uma referência ao “Taper Tantrum” de 2013 e 2014.

O estopim naquela época foi quando Federal Reserve americano sinalizou que iria começar a diminuir (“taper”) a compra de ativos, eventualmente subindo os juros, tornando o país relativamente mais atrativo para recursos que haviam buscado retorno nos emergentes.

“O volume do que aconteceu na semana passada em emergentes foi muito maior do que o naquela época, por isso o codinome”, diz Otaviano Canuto, diretor executivo no Banco Mundial.

A declaração foi no Seminário de 40 anos da Funcex (Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior), realizado na tarde dessa sexta-feira em São Paulo.

O novo “tantrum” acontece em um 2016 que estava sendo relativamente positivo para países como o nosso. Ilan Goldfajn, presidente do Banco Central, costumava citar um “interregno benigno”.

Na primeira metade do ano, as preocupações com a China foram amenizadas, os juros seguiam baixíssimos e Brasil quanto Rússia começavam a dar sinais de vida. Até que veio Brexit e Trump.

A fuga dos emergentes é resultado tanto da incerteza geral em relação ao presidente eleito quanto dos efeitos que sua agenda pode ter sobre a economia mundial.

Trump quer desregulamentação financeira e industrial, corte de impostos (especialmente dos mais ricos) e um programa de infraestrutura que gastaria US$ 1 trilhão em 10 anos.

Obama tentou e Hillary também queria mais estímulo fiscal; a diferença é que Trump estará alinhado com um Congresso e Senado republicanos, o que facilita a aprovação.

Como o desemprego americano está baixíssimo, mais estímulo significa mais inflação – ainda mais se combinado com restrição ao comércio internacional e à imigração, outras coisas que Trump promete.

Com mais inflação e mais déficit, o Federal Reserve ganha motivos para intensificar o processo de alta dos juros. E com juros mais altos e dólar mais forte, fica mais difícil reduzir os juros por aqui.

Antes de Trump, a aposta geral do mercado era que o Banco Central brasileiro iria cortar os juros em meio ponto percentual na reunião de final de novembro. Agora, cresce a chance de um corte menor: 0,25 p.p.

Um relatório do Citi na semana passada afirmou que as ações dos emergentes ainda tem muito espaço para cair e que a liquidação não deve acabar tão cedo.

Nem tudo é ruim para o Brasil: Affonso Pastore, ex-presidente do Banco Central, notou no evento que um plano de infraestrutura pode aumentar a demanda por minério de ferro.

É uma das principais commodities que o Brasil exporta e a ação da Vale, por exemplo, subiu bastante logo após a eleição (mas já voltou a cair).

Pastore nota que a depreciação nos últimos dias foi mais alta nas moedas de países com problemas políticos, como Brasil e África do Sul, do que em exportadores de commodities, como Austrália e Canadá.

“Esse choque do Trump piorou a situação do Brasil. A expectativa de sair da crise um pouco mais depressa com um pouquinho menos de custo ficou pior. Acho que vamos sair um pouquinho mais devagar e com um pouquinho mais de custo”, diz ele.

Esse “custo” pode ser entendido como uma necessidade de aprofundar o ajuste fiscal e acelerar outras reformas na economia para tornar o país mais atrativo dentro desse cenário difícil.

É o que o ministro Henrique Meirelles tem dito recentemente: “Quanto mais rápido aprovarmos as reformas, mais rapidamente o risco do país pode cair”.

Comentários

Não é mais possível comentar nessa página.

  1. Trump vai reduzir o tamanho do Estado

    O crescimento da economia americana em 2016 vai ficar em 2,4%, e o país vai gastar 3.1% a mais de tudo o que produziu. Em outras palavras, os EUA está gastando mais do que arrecada e a dívida já está em 100% do PIB, cerca de 20 trilhões de dólares!

    A economia só não explode porque os juros estão abaixo da inflação, que deve ficar pouco menos de 2% em 2016. Assim, o custo da rolagem da dívida americana é próxima de zero. Qualquer um poderia comprar o mundo fiado se não tivesse que pagar juros.

    Graças a essa capacidade de manter juros e inflação sob controle, os EUA pode continuar empurrando a dívida com a barriga. A única preocupação seria evitar o crescimento da dívida. Aqui entra a ameaça do Trump contra China e México que vendem muito mais para os EUA do que compra. Os EUA precisa vender mais para pagar o que compra.

    Estima-se que para o Trump implementar os planos de corte de impostos e investimento em infraestrutura, ele vai gastar cerca de U$ 150b de dólares por ano e gerar apenas um crescimento adicional de 0.6% do PIB (U$ 120b). Assim, a conta não fecharia e a dívida cresceria, levando com ela o aumento da inflação e dos juros.

    Assim, quem apostou na valorização do dólar e na esperança de que no Governo Trump vai aumentar a inflação e os juros pode quebrar a cara.

    Seria mais lógico esperar do Governo Trump um corte nos custos do Estado. Ele já dizia nas eleições que vai congelar as contratações e que quer pagar a dívida. Trump deve surpreender o mundo revolucionando a administração do Estado, com o uso da automação e do corte dos desperdícios. Com o dinheiro que economizará ele poderá levar à frente seu programa de redução de impostos e investimento em infraestrutura.

    O Governo Temer poderia dar esse tipo de presente ao Brasil. O país não pode ficar refém de uma minoria de aposentados que consume boa parte dos impostos arrecadados. A Petrobras cortou dezenas de milhares de funcionários e aumentou a produção. Se o Estado brasileiro demitisse 60% dos funcionários ainda funcionária e automatizar a administração, vai melhorar a qualidade dos serviços.

    Se fizer isso deixará o seu nome para a história.

    Gil Lúcio Almeida, PhD