Station F: a revanche digital francesa

Raquel Beer, de Paris

A capital do amor, a capital da moda, a capital da gastronomia. São muitos os motivos que fazem Paris ser lembrada pelos estrangeiros, mas para o bilionário francês Xavier Niel, um tópico importante está faltando à lista, e ele parece que não vai medir esforços para acrescentá-lo: Paris, a capital europeia do empreendedorismo digital. O bilionário por trás da Free, empresa de telecom da moda, abriu um fundo de investimentos para financiar empresas novatas e criou uma escola de programação gratuita. A próxima, e talvez mais ambiciosa, etapa de seu plano, é a abertura do Station F, o maior campus de startups do mundo, que a partir de 1º de abril de 2017 acolherá mais 1.000 empresas, francesas e estrangeiras, em sua sede em Paris.

O local escolhido como base do empreendimento é uma antiga estação chamada Halle Freyssinet, construída em 1929 e localizada no 13º arrondissement, área pouco turística da cidade. O terreno de 34.000 metros quadrados – equivalente à área da Torre Eiffel deitada – pertencia à prefeitura de Paris, que cogitava demolir o prédio quando Niel fez sua proposta. As reformas começaram em 2014, sob o comando do escritório francês Wilmotte and Associates, que criou um novo design sem alterar nem a fachada nem a estrutura de concreto do prédio, exigências feitas pela prefeitura por se tratar de um edifício histórico.

O enorme espaço da antiga estação será dividido em três áreas. A principal delas, localizada bem no centro do imóvel, é restrita às 1.000 startups de tecnologia e seus 3.000 empreendedores do mundo inteiro. As estações de trabalho ficarão nas laterais do grande salão, sem divisórias. No meio, um corredor percorrerá todo o prédio para ressaltar a sua dimensão. Na entrada principal contêineres viraram salas de reunião modernosas com paredes de vidro, e há também salas de conferência, onde pessoas com autorização para participar dos eventos podem entrar. Do outro lado, um café e um restaurante com quatro cozinhas abertos 24 horas por dia, sete dias por semana, e capacidade para 1.000 pessoas, serão abertos à qualquer um que queira visitar o empreendimento.

O prédio está na etapa final das reformas – ainda é decorado por pó e equipamentos de construção, mas as cadeiras e mesas envoltas por plástico lembram que em menos de dois meses a maior iniciativa de empreendedorismo da França vai começar.

Dentro do “maior campus de startups do mundo”, os selecionados terão acesso a programas de incubação, mas também a fundos de investimento e a uma grande rede de mentores. No ano que vem, ainda será inaugurado um centro de alojamento com 600 vagas para os participantes, localizado a 10 minutos do Station F. “A ideia é reunir todo o ecossistema de empreendedorismo sob o mesmo teto para facilitar e estimular o trabalho desses jovens empresários. Seremos muito mais do que apenas uma incubadora”, disse a EXAME Hoje Roxanne Varza, a americana que dirige a Station F.

É a proximidade que as startups têm dos fundos de investimento e a ênfase na abordagem de se criar uma comunidade, evidenciada pelos alojamentos em construção, que fazem com que o empreendimento se diferencie de outras incubadoras do mundo, como os campus para startups do Google, que abriu uma unidade em São Paulo no ano passado.

Varza entrou na empreitada em 2014, após receber o convite de Niel para comandar a equipe enquanto supervisionava os projetos de empreendedorismo da Microsoft na França. Ela é bem direta quando diz que um dos aspectos mais importantes da iniciativa é mudar a imagem do mercado de startups francês, que ainda é considerado muito voltado ao mercado interno, e pouco aberto a novidades (no fim das contas, uma síntese dos problemas que acometem a economia do país). “Nós não seremos mais um projeto franco-francês. Queremos reunir empreendedores do mundo inteiro e dar à Paris o caráter internacional que de cidades como São Francisco e Londres”, diz Varza.
Hora de acelerar

São dez os diferentes programas de incubação que serão promovidos no empreendimento, um deles promovido pela própria Station F, e os outros nove coordenados por empresas, instituições e organizações parceiras. Entre os nomes dos participantes já anunciados, está a francesa Vente-Privée, empresa de e-commerce fashion, a escola francesa de negócios e administração HEC, onde estudam os maiores empresários e políticos do país, e o Facebook, que lançará ali a sua primeira incubadora. Todos os parceiros ficarão no projeto por pelo menos um ano.

Os programas são independentes e visam tipos diferentes de empresas. O do Facebook, por exemplo, dura seis meses e terá vagas para 10 a 15 startups que trabalhem com dados. Os selecionados terão acesso a experts, mentores, engenheiros e todos os recursos e ferramentas da gigante americana. Já a Vente-Privée procura projetos que aliem tecnologia ao mercado da moda, e a escola HEC vai transferir para o campus a sua incubadora que já existe, mas que fica fora de Paris.

O programa promovido pela própria Station F, chamado Founder’s Program, foca empresas que exibam uma curva de desenvolvimento acentuada. O processo de inscrição aconteceu de dezembro a 5 de fevereiro, só nas primeiras 24 horas centenas de candidaturas foram recebidas. A primeira fase da seleção será feita pela equipe do projeto, hoje com 15 pessoas, e depois eles receberão ajuda de um grupo de 100 empreendedores bem-sucedidos de 21 países diferentes. O Brasil é representado no grupo pelo francês Thibaud Lecuyer, fundador da varejista de moda Dafiti. Os nomes das 100 a 250 startups selecionadas serão divulgados em março.

O plano de Niel

O Station F foi totalmente financiado pela NJJ, holding que também pertence a Xavier Niel e investiu 250 milhões de euros para fazer o plano sair do papel. A equipe do projeto diz que todo o valor cobrado dos empreendedores será utilizado para custear os serviços e a manutenção do prédio. Segundo eles, Niel não criou o projeto para ganhar dinheiro.
Analistas, contudo, parecem céticos à hipótese de que o magnata francês que ocupa o posto de 129ª pessoa mais rica do mundo e a sétima mais rica de França, com uma fortuna de 9,7 bilhões de dólares, desembolsaria um valor tão alto para bancar uma ação altruísta ao mercado de seu país.

As suspeitas aumentam pelo fato de Niel ser uma figura polêmica na França. Vindo de uma família de baixa renda, o empresário que só completou o ensino médio foi dono de um serviço de telessexo nos anos 1990. Em 2004, era sócio de uma rede de casas de striptease, mas foi detido após a polícia descobrir que um de seus estabelecimentos era fachada para prostituição. Ele não poupa ataques à elite francesa e cala os seus críticos com o seu tino para negócios e suas ações para estimular o mercado de empreendedorismo.

Em 2010, Niel fundou junto com o empreendedor Jeremie Berrebi o fundo de investimentos Kima Ventures, com o objetivo de investir em jovens startups ao redor do mundo. Hoje o Kima é considerado um dos fundos mais ativos do planeta, com uma média de investimento em duas startups por semana. Três anos depois, ele abriu no norte de Paris a 42, uma escola onde jovens podem aprender programação gratuitamente. Ali, não há professor, apenas “organizadores amigáveis”, nem aulas, mas sim “projetos em grupo”. No início do ano, a organização CodinGame, que promove competições de programação, a considerou a “melhor escola de programação do mundo”. Em setembro do ano passado, uma unidade da escola foi aberta no Vale do Silício.

A Station F seria, portanto, o elo que faltava entre os jovens programadores da 42 e as startups promissoras em que o Kima Ventures investe. Este último inclusive será um dos três fundos presentes no Station F, juntamente com o Ventech, fundo de capital de risco com presença na França e na China, e o Daphni, fundo francês criado por Marie Ekeland, ex-Elaia Partners. “Esses três projetos são tocados de maneira independente. O fundo de Niel conhecerá tão bem o fluxo de negócios das nossas startups quanto os outros dois, nós não passaremos informações privilegiadas a eles”, disse Varza. “Quanto à 42, talvez no futuro possamos pensar em algum programa para trazer os jovens programadores às nossas startups, mas isso ainda não está nos planos”.

Há quem também questione se o empresário francês não estaria tocando esses projetos para agradar o governo francês e receber em troca vantagens no mercado de telecom, mas a sua equipe também nega. “Essa seria a agenda política mais cara do mundo, não faz sentido”, disse Varza.

A França ganha momentum

Além dos projetos capitaneados por Niel, outros fatores políticos e econômicos fazem com que desde o ano passado a França esteja se tornando um lugar mais estimulante para os empreendedores. Em 2016, a cidade se posicionou como o terceiro centro tecnológico mais significante da Europa em número de startups e de investimento, atrás de Londres e Berlim. Paris ficou em primeiro lugar em termos de número de startups que receberam investimento, mas não em termos de volume de investimento.

O governo francês também começou a se mobilizar. Está em sua segunda edição o programa French Tech Ticket, uma competição em que startups do mundo inteiro podem se inscrever e as 70 selecionadas entram em incubadoras do país e ganham um financiamento de 45.000 euros. Além disso, em janeiro o governo anunciou também a criação de um visto especial para empreendedores, engenheiros e investidores, que poderão ficar quatro anos no país se trabalharem para uma empresa ou uma startup com escritório na França.

Muito do momentum vivido pelo país se deve a acontecimentos políticos recentes. Os níveis recordes de investimento na França no último semestre do ano passado mostram como o Brexit e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos podem levar empresários a procurar outros mercados para apostar.

As eleições francesas, contudo, acontecem em maio deste ano, e a líder da extrema-direita, Marine Le Penn, anunciou a sua candidatura oficialmente no início do mês. Le Penn quer tirar a França da União Europeia e dificultar a vida de imigrantes. A diretora do Station F, no entanto, não parece preocupada: “É claro que se ela for eleita as coisas vão mudar, mas estou otimista. Os outros candidatos são fortes e já contribuíram bastante no passado com o empreendedorismo no país. Vai dar tudo certo”. A má notícia, para ela, é que os empreendedores do Vale do Silício pensavam exatamente igual um ano atrás.