Solução para a crise: eliminar o dinheiro vivo

Agora que os bancos centrais já não sabem mais como afundar as taxas de juros para estimular a economia, abolir dinheiro é o caminho, diz economista do Citi

São Paulo – O mundo pós-crise financeira é uma caixinha de surpresas.

Em recessões “normais”, os bancos centrais tem como principal instrumento cortar taxas de juros. Deixar os recursos parados se torna menos vantajoso, e a circulação acaba reanimando o consumo e o investimento.

Só que dos 69 bancos centrais monitorados pelo Citi, 4 já tem hoje taxas de juros negativas (Banco Central Europeu, Suécia, Suíça e Dinamarca). 

Na prática, isso significa que um investidor está “pagando” para um banco central guardar seu dinheiro, o que faz sentido para quem tem recursos demais para estocar ou colocar em bancos (que tem garantias limitadas de depósito).

Só que alguma hora, o corte de juros encontra um limite natural, e ele se chama dinheiro vivo. As notas e moedas podem ser consideradas um instrumento de troca com taxa nominal próxima de zero (não é perfeitamente zero porque há um custo de “armazenamento”).

Em outras palavras: em um cenário sem inflação e com falta de vontade de gastar e oportunidade de investir, faz mais sentido mesmo recorrer ao famoso “dinheiro no colchão”.

“Suponha que o BCE coloque uma taxa de -10%. Qualquer banco alemão poderia então pegar emprestado a -10%, mas ao invés de emprestar para terceiros a -10% mais o spread, uma alternativa atraente seria investir em fundos em euro”, diz uma nota recente do economista Willem Buiter, do Citi.

E é assim que os bancos centrais ficam com as mãos atadas e precisam recorrer a medidas monetárias mais ousadas, como o relaxamento quantitativo (o QE).

Mas o limite zero da taxa de juros é um obstáculo “indesejável e relativamente fácil de evitar do ponto de vista técnico, administrativo e econômico”, diz Buiter. Sua sugestão: colocar imposto sobre o dinheiro, ou abolir ele de vez.

A ideia é que se todo dinheiro fosse virtual e você tivesse que efetivamente pagar para deixá-lo parado, aí sim não haveria razão alguma para não gastar.

Contexto

A situação toda pode parecer um pouco alienígena para um brasileiro – que vê juros e inflação em alta em um cenário de recessão – mas faz muito sentido nas economias avançadas, que crescem de forma medíocre mesmo dominadas pelo juro zero

E Buiter não é o primeiro a falar nisso. Há quase um ano, o economista Kenneth Rogoff, de Harvard, publicou no Financial Times um artigo com o seguinte título: “O dinheiro vivo é inadequado para um mundo de muito crime e pouca inflação”.

Buiter aborda (e rebate) algumas resistências à ideia. Uma delas é que seria uma mudança drástica demais: de acordo com estimativas, 85% das transações de consumo mundiais ainda são feitas em dinheiro vivo. Outra é que a transição embute o risco de fim da privacidade, além de perda da capacidade do governo de “gerar receita” imprimindo dinheiro. 

A ideia pode parecer meio maluca, mas as próprias taxas de juros negativas também eram vistas como uma impossibilidade até pouco tempo atrás. Em 1932, 3 anos após a eclosão da crise, o presidente americano Franklin D. Roosevelt recomendava: “esse país precisa e pede por experimentação ousada e persistente. Pegue um método e tente. Se falhar, admita francamente e tente outro. Mas acima de tudo: tente alguma coisa.”