Seca no Brasil provoca disputa Rio-SP por reservatórios

As autoridades do estado de São Paulo querem utilizar a água do Jaguari, que abastece a principal fonte de água do Rio

Rio de Janeiro e São Paulo – O reservatório Jaguari, no Brasil, atingiu seu nível mais baixo na história, deixando à mostra os postes de medição, que se projetam como uma linha de dominós saindo da terra exposta.

As duas maiores cidades do país estão brigando pela pouca água que resta ali.

As autoridades do estado de São Paulo querem utilizar a água do Jaguari, que abastece a principal fonte de água do Rio de Janeiro. As autoridades do estado do Rio dizem que eles não deveriam ser prejudicados pela má gestão dos outros.

Os juízes do Supremo Tribunal Federal convocaram as partes à Brasília para uma sessão de mediação nesta semana.

O impasse em um país com mais recursos hídricos que qualquer outro no mundo anuncia novos conflitos em um momento em que o planeta se torna cada vez mais urbano.

Uma em cada três das 100 maiores cidades do mundo sofre de stress hídrico, segundo a The Nature Conservancy, uma organização sem fins lucrativos com sede nos EUA.

“O incomum disso é que são duas cidades muito grandes enfrentando o que pode ser um conflito novo e permanente a respeito da alocação de água”, disse Peter Gleick, presidente do Pacific Institute, uma organização de pesquisa de Oakland, Califórnia, EUA.

“Trata-se de um alerta de que mesmo lugares que pensamos ser ricos em água precisam aprender a fazer um melhor trabalho na gestão daquilo que ultimamente tem sido um recurso escasso. A natureza nem sempre coopera conosco”.

Embora o Rio até o momento não tenha sido tão afetado pela pior seca do país em oito décadas, esse não é o caso do estado vizinho.

Mais da metade dos paulistas disseram, em uma pesquisa do Datafolha no mês passado, que havia sofrido com a falta d’água pelo menos uma vez nos 30 dias anteriores.

R$ 3,5 bi

O governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin, e a Cia. de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, Sabesp, propuseram neste mês R$ 3,5 bilhões (US$ 1,4 bilhão) em projetos para solucionar a crise de água, incluindo um plano para ligar Jaguari à Cantareira, um complexo de reservatórios formado por quatro represas que abastece quase um terço dos 20,9 milhões de habitantes da Grande São Paulo.

O projeto “também pode ser usado para atender as exigências do Rio no futuro”, disse a Sabesp, em comentários enviados por e-mail.

Jaguari, cujos 56 quilômetros quadrados são alimentados pelo rio do mesmo nome, está localizado entre as duas cidades. Está a cerca de 90 quilômetros de São Paulo e a 300 do Rio de Janeiro.

“É bom lembrar que a represa Jaguari fica em São Paulo e foi construída com recursos de São Paulo”, disse o secretário estadual de Recursos Hídricos, Mauro Arce, a repórteres no dia 12 de novembro.

“Em todos esses anos, nunca usamos um só litro de água. O que estamos pedindo é pouco”.

A empresa pública Cia. Energética de São Paulo, a Cesp, aumentou o furor, em agosto, após reduzir os fluxos de água da represa que regula o a água que vai do reservatório Jaguari para o Paraíba do Sul, o rio que serve o Rio de Janeiro.

A empresa depois foi forçada a restaurar os fluxos de água e foi multada em R$ 5,4 milhões. A Cesp disse em uma resposta por e-mail que está recorrendo da multa.

Esse episódio é uma “cicatriz que pode ser difícil de curar”, disse o secretário estadual de Ambiente do Rio, Luis Portinho.

As autoridades do Rio estão preocupadas de que os 8.000 litros por segundo que São Paulo quer podem se transformar em muito mais e ameaçar o fornecimento para o Rio. Cerca de 11,9 milhões de pessoas vivem na região metropolitana da cidade do Rio.

Buscando alternativas

“São Paulo está enfrentando uma crise que é muito pior que a do Rio devido à falta de planejamento”, disse ele, em entrevista. “Eles têm outras alternativas”.

O projeto para ligar os reservatórios foi contestado por um promotor federal do Rio e será mediado pelo Supremo Tribunal Federal em Brasília no dia 27 de novembro.

Ainda é possível chegar a um acordo, disse Vicente Andreu, diretor da agência federal reguladora da água, conhecida como ANA.