“Se não fizermos nada, o país vai implodir”, diz Luciano Huck

Para o apresentador de TV, a agenda econômica está correta, mas o Brasil precisa de mais do que crescimento do PIB. Depende de serviços e proteção social

São Paulo – Apesar de o apresentador Luciano Huck dizer que seu papel político se restringe a incentivar e participar de movimentos cívicos, o discurso em prol de um país melhor, proferido na tarde desta segunda-feira (9), durante o Exame Fórum, teve tom de campanha política. Conhecido pelos programas de auditório na TV aberta, o profissional de mídia passou os últimos 20 anos viajando de Norte a Sul do Brasil, conhecendo histórias de pessoas simples e pobres, muito diferentes de sua realidade de elite brasileira.

“A desigualdade é gritante. Se não fizermos nada, o país vai implodir. Quero ser um cidadão cada vez mais ativo para que o país se torne mais eficiente, mais afetivo e menos desigual”, afirmou Huck, que foi aplaudido de pé. “Mas a gente não vai reduzir a desigualdade só conversando com brancos na avenida Brigadeiro Faria Lima (em São Paulo). Favela virou paisagem e não pode.”

Foi por “estar com dedo no pulso do Brasil” que ele percebeu que tinha dois caminhos: “podia fingir que não era comigo e ficar no aquário do Projac como um peixinho bem alimentado ou poderia me jogar no oceano”. Ele escolheu a segunda opção. Mas em vez de se associar a partidos políticos, como chegou a ser aventado no período pré-eleitoral no ano passado, preferiu apoiar movimentos cívicos.

“Quem tem o poder de mexer no ponteiro da desigualdade é o Estado, mas não quis me aproximar mais, não estou em partido. Preferi me juntar ao Eduardo Mofarrej para prepararmos novas lideranças. Hoje, temos 17 lideranças que foram formadas pelo Renova e foram eleitos. Agora, no ciclo municipal, temos 31 mil inscritos. Isso é ouro puro”, disse.

Outro projeto que Huck apoia é o Agora, um hub de novas práticas políticas. “Dali vai nascer um projeto de país. Existem coisas que não precisamos reinventar a roda. Posso elencar vários programas de educação da sociedade civil e de iniciativas do governo no Ceará e no Espírito Santo nessa área. O que precisamos é organizar aquilo que deu certo.”

Mas em outros pontos mudanças são necessárias. Huck diz que a elite brasileira pode contribuir com as soluções de país, mas é passiva e acha que “as respostas vêm com geração espontânea”. “A agenda econômica desse governo é correta, as pessoas não estão torcendo contra, querem que avance. Se melhorar, ótimo. Mas a questão é que a enormidade do país que não depende só disso, de crescimento do Produto Interno Bruto. Depende de serviços e de proteção social.”

Mesmo a população ribeirinha, que não passa fome, se sente pobre, pois pela TV e pelo rádio descobriram que existem coisas que nunca vão conseguir comprar e sonhos que não vão conquistar.

“Visitei uma família subindo o rio Juruá, no Norte do país. Quando perguntei a uma criança chamada Eliana o que ela quer ser quando crescer, ela disse ‘juíza’. Hoje, ela não tem qualquer condição de conseguir, e é nosso papel construir um projeto de país para que o sonho dela se torne viável.”

Eliana e a família moram no coração da Amazônia, que nas últimas semanas entrou para o noticiário por causa da extensão das queimadas. Para Huck, a solução não é complexa – é possível transformar a floresta em um pólo de inovação, com um projeto sustentável, algo que ele chamou de “Amazônia 4.0”. “O mundo inteiro tem interesse em consumir a floresta, e nós continuamos produzindo motocicleta e geladeira que são compradas por Santa Catarina. Não que eu tenha algo contra a Zona Franca de Manaus, mas podemos ir além disso.”

Mas como mudar tudo isso em um momento que o país está polarizado? Esse é o grande desafio, segundo Huck. Para ele, as pessoas precisam deixar o discurso belicista de lado, já que não vai levar a lugar algum.

“A solução também não é sair daqui. O jeito é conversar e construir.” Isso é necessário para que os netos do pipoqueiro Pelé, de 76 anos, que mora em Lagoa da Prata, interior de Minas Gerais, tenham mais oportunidades que ele. Neto de escravos, ele trabalhou por 70 anos e nunca teve dinheiro para colocar porta na casa. “Não, Pelé não é miserável. Existem pessoas em situação ainda pior”, lembra