Rombo na conta corrente sobe a 3% do PIB após uma década

O déficit em conta corrente subiu para 8,318 bilhões de dólares em abril, ante 5,4 bilhões de dólares no mesmo mês de 2012

Brasília – O déficit em transações correntes do Brasil subiu 55 % em abril em relação ao mesmo mês do ano passado, por conta do mau desempenho da balança comercial, fazendo com que o rombo em 12 meses superasse 3 % do PIB pela primeira vez em mais de uma década.

O déficit em conta corrente subiu para 8,318 bilhões de dólares em abril, ante 5,4 bilhões de dólares no mesmo mês de 2012. Economistas consultados pela Reuters previam saldo negativo de 7,222 bilhões de dólares.

No acumulado nos 12 meses encerrados em abril, o déficit em conta corrente do país somou 69,977 bilhões de dólares, equivalente a 3,04 % do Produto Interno Bruto, no pior resultado desde julho de 2002 (3,22 %), informou nesta quarta-feira o Banco Central.

No ano até abril, o déficit em transações correntes ─ que inclui o comércio de bens e serviços e as transferências unilaterais ─ soma 33,2 bilhões de dólares, quase o dobro do déficit de 17,4 bilhões de dólares no mesmo período do ano passado.

O Banco Central procura não mostrar preocupação com o aumento do déficit, por considerar que reflete o melhor desempenho da economia brasileira, que para crescer e investir necessita da poupança externa.

“O déficit reflete essa maior dinâmica da economia (brasileira). É claro em momentos como esse você observar maior demanda por bens e serviços externos”, disse em entrevista o chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Túlio Maciel.

A balança comercial brasileira registrou no mês passado déficit de 995 milhões de dólares, no pior resultado para abril da história e diante do superávit de 880 milhões de dólares visto um ano antes.

Também contribuíram para o aumento do déficit o aumento dos gastos dos brasileiros no exterior e o pagamento de juros.

Os gastos líquidos com viagens subiram 22,5 % para 1,533 bilhão de dólares em abril, ante 1,251 bilhão de dólares em igual mês de 2012. Já os pagamentos líquidos de juros saltaram 25,7 % para 1,05 bilhão de dólares, na mesma comparação.


A remessa de lucros e dividendos –que reflete um melhor desempenho das empresas estrangeiras instaladas no país– subiu 5,1 % para 2,542 bilhões de dólares.

Financiamento

Túlio Maciel disse que a volta do déficit para o patamar de 3 % do PIB não pode ser considerado tão ruim, como em momentos passados, pois a sua estrutura mudou.

“Hoje, nas transações correntes, o principal fator em termos de fluxo não são mais os juros, os juros tem um papel bem mais modesto. Ganhou espaço ao longo desses anos a conta de lucro e dividendos”, disse Maciel, acrescentando que em momentos de crise os dividendos caem, contribuindo para reduzir o déficit.

Ele acrescentou que o déficit está sendo financiado em “condições bastante favoráveis”.

Mas uma vez mais o déficit em conta corrente não foi financiado totalmente pelo ingresso de investimentos estrangeiros diretos no país, os chamados investimentos produtivos.

Os investimentos estrangeiros diretos somaram 5,720 bilhões de dólares no mês passado. Apesar do aumento de 9,1 % em relação a abril de 2012 e de o resultado vir acima do previsto por analistas consultados pela Reuters, cuja mediana somou 5 bilhões de dólares, ele ficou bem abaixo do déficit em conta corrente no mês.

E as perspectivas para maio não são positivas. Segundo Maciel, o BC projeta um déficit em transações correntes de 5,2 bilhões de dólares neste mês e um total de investimentos estrangeiros diretos de apenas 2,8 bilhões de dólares. Até o dia 20, o IED estava em 1,5 bilhão de dólares.

Já os investimentos estrangeiros em carteira, considerados mais voláteis, saltaram 58 % para 1,77 bilhão de dólares em abril, sendo 959 milhões de dólares em ações e 815 milhões de dólares em títulos de renda fixa.

Nos 12 meses encerrados em abril, os ingressos líquidos de investimentos estrangeiros diretos somaram 64,1 bilhões dólares, equivalentes 2,79 % do PIB.