Rogoff e a cruzada contra o papel-moeda

The Curse of Cash
Autor: Kenneth Rogoff
Editora: Princeton University Press. Páginas: 296

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David Cohen

O novo livro do americano Kenneth Rogoff, um professor de Harvard que já foi economista-chefe do FMI, não é leitura fácil para leigos, mas tem tudo para agradar os motoristas do Uber em São Paulo. No início de outubro, grupos de motoristas iniciaram um movimento de pressão para que a empresa dificulte a aceitação de dinheiro para pagar as corridas. Segundo eles, até setembro, quando o Uber aceitava pagamento apenas por meios eletrônicos, havia muito menos assaltos aos carros.

Este é um dos argumentos principais de The Curse of Cash (A maldição do dinheiro), uma invectiva contra o papel-moeda, especialmente as notas grandes. Segundo Rogoff, o dinheiro facilita assaltos, a evasão de impostos, o pagamento a imigrantes ilegais, o tráfico de seres humanos (para trabalho escravo ou prostituição), o comércio ilegal de drogas, a venda de armas…

A ideia de acabar com o dinheiro vivo porque ele serve a crimes e contravenções soa um pouco como a piada do marido que, tendo descoberto que a mulher o traía com o vizinho no sofá da sala, decide vender o sofá. Mas Rogoff apresenta várias contas e estimativas e argumenta que, de modo geral, sua pesquisa sugere que a economia legal precisa de apenas uma fração modesta de todo o dinheiro em circulação. E que, mesmo que o baque nas atividades ilegais seja pequeno, vale a pena.
Para dar conta das atividades corriqueiras, ele sugere uma solução intermediária: eliminar as notas grandes e manter, durante um período indeterminado, as notas menores, até mais tarde substituí-las por moedas. Para que o plano desse certo, afirma, seria necessário um programa de inclusão bancária e um certo afrouxamento de regras (eliminando impostos para alguns serviços informais, como os de um passeador de cachorros ou de uma babá ocasional).

Rogoff afirma que a primeira reação à sua proposta costuma ser de menosprezar sua importância. Contra essa tendência, ele aponta que os benefícios mais do que compensam as desvantagens.

A economia informal dos Estados Unidos é estimada em 7,1% do PIB, algo como 1,3 trilhão de dólares. Na Europa, o valor é mais ou menos o dobro – isso sem contar as atividades criminosas. Se apenas uma parcela disso viesse para a formalidade, traria uma receita de impostos na casa dos 70 bilhões de dólares, afirma.

Um dos exemplos que ele cita para corroborar seus cálculos é um estudo sobre a nota fiscal paulista, apresentado por Joana Naritomi, professora assistente da London School of Economics. Segundo seu trabalho, o governo paulista recuperou estimados 22% de receita de impostos em quatro anos.
Os juros abaixo de zero
A ideia de Rogoff não é nova. Ele próprio a propôs num artigo de 20 anos atrás. O que o fez voltar ao tema foi a situação atual dos países ricos, às voltas há anos com taxas de juros próximas de zero numa tentativa de estimular a economia.

Embora diga que a facilidade de estipular uma taxa de juros negativa seja apenas uma das consequências de eliminar (ou limitar) o uso do dinheiro, Rogoff usa metade do livro para tratar do assunto. Faz sentido. Esta é a questão financeira do momento, com o Japão e alguns países europeus flertando com políticas deflacionárias.

O papel-moeda é um freio para as tentativas de estabelecer taxas de juros negativas – as pessoas podem simplesmente decidir guardá-lo e manter seu poder de compra. O papel-moeda nada mais é do que um título de juro zero, pagável ao portador.

Não que isso tenha impedido os governos de adotar políticas que, na prática, colocam os juros reais no nível abaixo de zero. Rogoff explica os mecanismos do Quantitative Easing (flexibilização quantitativa) e do foreward guidance (orientação para o futuro). No primeiro caso, o banco central emite dívidas de curto prazo para comprar títulos do governo de longo prazo, para forçar seus juros para baixo e assim influenciar toda a cadeia de juros da economia; no segundo caso, o governo atingiu o limite de queda dos juros no presente, mas pode prometer que os manterá baixos no futuro, ou que demorará mais para elevá-los, o que também funciona para estabelecer expectativas e incentivar investimentos.

Segundo Rogoff, no entanto, ambas as medidas têm seus limites. Seria preferível que o banco central tivesse a liberdade para determinar taxas de juros negativas quando a economia estivesse à beira da recessão. Mas para isso seria necessário tirar das pessoas a possibilidade de recorrer ao dinheiro vivo – caso contrário, haveria o risco de uma onda de saques que implodiria o sistema financeiro (até porque há muito mais dinheiro no sistema do que os bancos têm papel-moeda).

A transição para uma sociedade sem dinheiro ainda é um processo muito distante para países emergentes, opina Rogoff. Primeiro, porque eles “não estão nem perto do limite zero nas taxas de juros; muitos estão trabalhando duro para manter as taxas de inflação em um dígito, e a maioria é obrigada a pagar prêmios pelo risco de seus títulos”. Em segundo lugar, porque para as economias em desenvolvimento “não está nada claro que as medidas para reduzir o tamanho da economia informal pela redução do uso do dinheiro representem um benefício”.

Ainda assim, o fim do dinheiro teria um impacto nos problemas de corrupção, como os “do assombroso escândalo recente de petróleo e construção no Brasil”.
Nem todo mundo gostou da ideia…
Para uma proposta tão contrária a um costume tão arraigado na sociedade, era de se esperar que as ideias de Rogoff passassem longe do consenso. Mesmo assim, a oposição a elas demonstrou uma virulência surpreendente.

“O cerne da teoria dos juros do austríaco Eugen von Böhm-Bawerk é que um bem no presente, via de regra, vale mais do que um bem no futuro”, escreveu James Grant, editor do Grant’s Interest Rate Observer (Observatório Grant das taxas de juros), em artigo no The Wall Street Journal. “No mundo virado de cabeça para baixo do senhor Rogoff, taxas de juros negativas seriam uma recompensa à impetuosidade e um custo para a prudência.”

Grant sugere ironicamente que “o modo como os poupadores e pensionistas americanos receberiam a adoção de taxas negativas poderia ser o frutífero tópico do próximo livro do senhor Rogoff, porque não aparece em nenhum lugar deste”. Segundo ele, quando se elimina “a camuflagem técnica”, o que se tem é uma proposta política. “O autor quer que o governo controle o seu dinheiro. É simples assim.”

No site da revista Forbes, o editor de política econômica, John Tamny, não foi mais suave. “Rogoff tem um entendimento invertido. Ele não percebe que as recessões são saudáveis. Elas sinalizam que as forças do mercado estão revertendo o mau uso do trabalho, investimentos ruins e companhias preguiçosas que seguram o crescimento”.

Em um final, digamos, pouco amigável, Tamny afirma que “os amigos e colegas de Rogoff revelariam uma grande compaixão” se não o deixassem ir a público com suas observações, “que não fazem bem à sua reputação e nem à dos economistas”.

Rogoff já estava preparado para esse tipo de reação – que encontrou em seu primeiro artigo sobre o tema, duas décadas atrás. Por isso tratou de levantar e tentar responder, em seu livro, todas as objeções que lhe dirigiram.

Isso torna o livro ao mesmo tempo rico de informações (desde as origens do dinheiro até as atribulações de bancos centrais) e um pouco enfadonho – além de um tom acima do desejável na linguagem técnica.

Rogoff aponta que os países escandinavos, Suécia à frente, já estão seguindo no caminho de diminuir o dinheiro vivo em circulação – inclusive com distribuição de maquininhas para os sem-teto aceitarem dinheiro de cartão. Mas não tem medo de dizer que não tem resposta para várias incógnitas no caminho de uma sociedade sem dinheiro (ou com menos dinheiro).

Ele diz confiar que as grandes questões da privacidade dos cidadãos e da tentação de os governos desvalorizarem a moeda para diminuir suas dívidas poderão ser controladas. Mas, no fundo, admite que a gente teria que pagar para ver.