Resultado externo é bom em termos de transações, diz BC

Na parte de capitais, ele enfatizou que também houve um ingresso acima do que estava sendo projetado

Brasília – O chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Tulio Maciel, salientou nesta terça-feira, 26, que o resultado de dezembro ficou favorável tanto em termos de conta corrente quanto em fluxo de capitais.

Ele lembrou que o déficit das transações do último mês de 2015 ficou “bem abaixo” do previsto, com impacto de todas as contas que compõem o balanço de pagamentos, em especial a balança comercial.

“O déficit de conta corrente de 2015 foi um ajuste muito expressivo em termos anuais”, disse.

Na parte de capitais, ele enfatizou que também houve um ingresso acima do que estava sendo projetado.

A projeção do BC para o Investimento Direto no País (IDP) era de US$ 6,1 bilhões no último mês do ano e foi de US$ 15,2 bilhões.

Fator positivo

O representante do BC defendeu que, diante de um quadro de incertezas externas e internas, a realização de um ajuste de contas externas deve ser avaliado como um fato positivo.

Com o déficit de US$ 2,460 bilhões no último mês de 2015, o resultado anual apresentou déficit de US$ 58,942 bilhões.

“O resultado ficou abaixo da nossa última estimativa de US$ 62 bilhões e também abaixo da (estimativa) do mercado”, disse, citando o Relatório de Mercado Focus. “Foi um ajuste muito expressivo em termos anuais”, reforçou.

O técnico fez questão de dizer que poucas vezes nos registros do BC houve ajuste anual “dessa relevância”, cerca de quatro ou cinco vezes.

Ele disse que, todas as vezes em que houve resultados mais acentuados em anos anteriores, também houve mudança de câmbio e de conjuntura, como em 2015. Além disso, ele citou o impacto de mudanças estruturais.

“Em termos estruturais, é importantíssimo ter em conta o regime de câmbio flutuante. O câmbio é a primeira linha de defesa das contas externas, e isso efetivamente ocorreu em 2015”, citou.

O segundo ponto mencionado por Maciel foi a composição do passivo do País.

“Nos anos 80 e 90, esse passivo era formado por dívida e empréstimos. Isso mudou.

A maior parte agora é IDP e, em termos de resultado, em momentos de crise adversa, havia na conta de juros o principal gargalo do balanço de pagamentos e isso criava um ciclo vicioso”, argumentou.

Hoje, continuou o técnico, como a maior parte do passivo é de investidores, a contraparte dessa conta são lucros e dividendos, que forma uma despesa pró-cíclica.

“Em termos de bonança, cresce e em momentos adversos, se retrai, que é o que observamos em 2015”, disse, comentando que os investidores são quase que como “sócios” do País.

O terceiro aspecto pontuado pelo chefe de Departamento é o fato de o País continuar a ter um mercado robusto, com quase 200 milhões de consumidores e oportunidades de investimentos em vários setores. “Não há concentração”, resumiu.

Reservas

E finalmente, ele citou o “volume de reservas internacionais elevado” como mais um ponto de seu raciocínio.

“Esses são aspectos estruturais. No caso dos conjunturais estão a variação de câmbio de 42% em média no ano, o que torna o custo bem mais elevado e impacta diversas contas”, disse.

Outro item citado por ele entre os conjunturais é a questão da atividade econômica, com menor dinamismo em 2015.

“Este é o segundo fator que afeta a demanda por bens e serviços no exterior.”

Balança

Tulio Maciel avaliou que, diante da conjuntura econômica e da variação cambial, as importações (-25,3%) apresentaram recuo mais intenso que as exportações (-15,2%) em 2015.

Com esse desempenho, a balança comercial ficou positiva em US$ 17,670 bilhões.

Maciel lembrou, no entanto, que a pesquisa do BC é diferente da apresentada pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

“O BC capta algumas transações que não são passam pelo MDIC, como importação de energia de Itaipu. Há outras pequenas diferenças também”, explicou.

Maciel relatou ainda que as importações, em preço, recuaram 11%, mas entre as exportações, o preço caiu 8%.

Ele ponderou, no entanto, que a queda no valor dos produtos brasileiros vendidos no mercado internacional foi compensada pela expansão do volume, que avançou 8%.

“Em volume, soja em grão cresceu 20%, o milho cresceu 42% e minério avançou 7,6%. O preço do ferro recuou bastante, mas volume exportado cresceu. Na parte de manufaturados tivemos avião e etanol como destaque nas exportações”, relatou.

Viagens internacionais

O chefe do Departamento Econômico do BC avaliou que a conta de viagens internacionais afetou significativamente a conta de serviços no ano passado.

Ele ponderou que essas contas apresentavam déficits crescentes, mas que, em 2015, a trajetória mudou.

“A conta mais emblemática é a de viagens, que encerrou com déficit de US$ 11,5 bilhões. Houve recuo de 39% na comparação com 2014”, calculou.

“O dólar impacta de uma forma direta na conta de viagens internacionais. A renda do brasileiro crescendo menos também impacta as viagens para o exterior”, explicou.

Maciel disse ainda que em 2015 foi a primeira vez que esse déficit mostrou recuo na série do BC.

“Em 2015, as viagens internacionais tiveram um ajuste forte. Em 2016, deve continuar a cair, mas não na mesma proporção do ano passado”, disse.

Ele ponderou que as receitas com estrangeiros no Brasil caíram 15% entre 2014 e 2015, mas observou que isso era esperado em função da Copa do Mundo, que atraiu muitos estrangeiros para o Brasil.

Segundo ele, “pode ser que com desvalorização do cambio (alta do dólar frente o real), seja mais atrativo visitar o Brasil”.

Nos cálculos de Maciel, na comparação entre dezembro de 2014 e dezembro de 2015, a receita de estrangeiros no Brasil cresceu 10%.

Serviços

A maior quantidade de IDP no ano passado foi direcionada ao setor de Serviços. Em 2015, o IDP foi de US$ 75,075 bilhões, mas a contabilização para o setor produtivo somou US$ 57,907 bilhões.

Desse montante menor, 49,1% foram alocados na área de Serviços. Apesar disso, a participação do segmento que tem maior fatia no PIB do País registrou queda em relação a 2014, quando foi de 59,5% do montante investido no setor produtivo.

Dentro de Serviços, o segmento de comércio (exceto veículos) teve participação de 9,4% e telecomunicações, de 7,9%. Já eletricidade, gás e outras utilidades teve fatia de 6,8%.

A participação da indústria no IDP destinado ao setor produtivo aumentou de 30,2% em 2014 para 36,2% no ano passado, com destaque para veículos automotores, reboques e carrocerias.

No setor de Agricultura, Pecuária e Extrativa Mineral, a participação aumentou de 10% para 14,4% de um ano para o outro.

Tulio Maciel, salientou que o dado de IDP é muito irregular e que não é possível identificar o que levou ao ingresso inesperado pelo mercado financeiro e pela instituição de US$ 15,211 bilhões em dezembro de 2015.

Para ele, o Brasil segue como um país de oportunidade e a valorização do dólar também tende a deixar o país mais barato.

Gasto com juros

Na abertura da renda primária, dentro do balanço de pagamentos, nota-se que houve certa estabilidade das despesas com juros, mas queda de praticamente um terço da remessa de lucros e dividendos de 2014 para 2015.

“A conta de juros no ano ficou praticamente estável, mas a redução na conta de lucros foi forte”, disse Maciel.

De acordo com dados do BC, em 2014, os gastos com juros foram de US$ 21,340 bilhões e passaram para US$ 21,913 bilhões no ano passado. Já as remessas caíram de US$ 31,187 bilhões para US$ 20,793 bilhões, no mesmo período, refletindo a recessão econômica e a alta do dólar.

O técnico também ressaltou, dentro do quadro de investimentos diretos no País, que houve uma queda “bem mais expressiva” de operações intercompanhia do que na participação de capital de 2014 para 2015.

Em 2014, o saldo das operações entre empresas foi de US$ 38,977 bilhões e, no ano passado, de US$ 18,653 bilhões.

Já no caso da participação no capital, o saldo passou no período de US$ 57,918 bilhões para US$ 56,421 bilhões.

Maciel explicou que 2014 foi um grande ano de captações e que, com boa parte das empresas atuava no setor de commodities, 2015 não foi favorável para essas empresas, o que contribuiu para o resultado.