Recessões deixam cicatrizes permanentes, diz estudo

Estudo de três pesos-pesados do mundo econômico mostra que recessões jogam sombras sobre o futuro da economia mesmo depois de superadas

São Paulo – Depois de um 2014 estagnado, a economia brasileira caminha para fechar 2015 com contração de 3,5%, de acordo com o último Boletim Focus.

O PIB vai cair mais 2,3% em 2016, segundo as mesmas estimativas, e este período de recessão continuará fazendo ecos mesmo depois que vier a recuperação.

É o que sugere um novo estudo publicado na semana passada pelo Escritório Nacional de Pesquisa Econômica dos Estados Unidos.

Os autores são pesos-pesados do mundo econômico: Olivier Blanchard, até recentemente economista-chefe do FMI (Fundo Monetário Internacional), Eugenio Cerutti, do departamento de pesquisa do fundo, e Lawrence Summers, ex-secretário do Tesouro americano e chefe do Conselho Econômico Nacional no início do administração Obama.

Eles analisaram 122 recessões nos últimos 50 anos em 23 países, ajustando para alguns fatores – como booms desproporcionais antes pré-contração e o fato de que os países tem crescido menos em geral desde os anos 60.

A conclusão: “uma proporção alta de recessões, cerca de dois terços, é seguida de produção mais baixa relativa à tendência pré-recessão mesmo depois da economia ter se recuperado”. O efeito é pior quando as recessões são associadas a choques como aumento do preço do petróleo e crises financeiras.

É possível que isso aconteça em parte por causalidade reversa: na medida em que os agentes vão percebendo que as previsões de crescimento eram irreais, reagem diminuindo consumo e investimento e agravando a própria recessão.

Mas também pode acontecer a chamada “histerese”, hipótese que surgiu nos anos 80 e pegou emprestado da física o termo que descreve o fenômeno de materiais que conservam certas propriedades mesmo sem o estímulo que as gerou.  

A sombra que a recessão lança sobre o futuro tem vários mecanismos: o corte em pesquisa e desenvolvimento leva a menos inovação e acúmulo de capital posteriormente, por exemplo. No mercado de trabalho, estudos mostram os efeitos de longo prazo sobre indivíduos demitidos e que não encontram realocação rápida.

No ano passado, um trabalho de Laurence M. Ball analisou os efeitos da recessão global de 2008 e 2009 sobre 23 países da OCDE.

Ele viu que a perda de PIB potencial ia de quase zero em países como Austrália e Suíça até mais de 30% na Grécia, Irlanda e Hungria. Levando em conta o tamanho das economias, a média era de 8,4%.