Queremos diminuir a desigualdade?

The Great Leveler: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century
Editora: Princeton University Press.
Autor: Walter Scheidel. 528 páginas.

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Joel Pinheiro da Fonseca

O tema da desigualdade é eivado de concepções equivocadas e julgamentos apressados. O primeiro e mais gritante deles é a incapacidade geral de distinguir entre desigualdade e pobreza. Pobreza se refere ao nível objetivo de renda, riqueza ou qualidade de vida: uma pessoa que não tem o que comer é pobre em qualquer situação, pouco importando se os vizinhos dela estão ou não no mesmo estado de penúria. Já desigualdade se refere ao nível relativo de renda, riqueza ou qualidade de vida. Se uma pessoa passa fome enquanto outra tem cinco carros importados na garagem, a sociedade é desigual. Se estão todos passando fome ou se são todos ricos, ela é igualitária.

Acontece que as duas coisas — pobreza e desigualdade — nem sempre caminham juntas. É possível uma sociedade ser muito desigual e, ainda assim, menos pobre do que outra que é igualitária. O Egito é mais igualitário que o Canadá (pelo coeficiente de Gini), embora o Canadá seja muito mais rico. Há uma distância maior entre pobres e ricos no Canadá do que no Egito, mas o pobre canadense vive muito melhor que o pobre egípcio. Ao longo do tempo, a mesma dissociação vale: a China tirou cerca de 300 milhões de pessoas da miséria nas últimas décadas. Foi a maior redução de extrema pobreza da história da humanidade. E, ao mesmo tempo, tornou-se um país mais desigual, pois o número e a riqueza dos mega-ricos cresceu ainda mais.

Em geral, o que as pessoas querem combater é a pobreza – falta de acesso a bens e serviços essenciais para uma vida digna. É importante que toda pessoa tenha educação, comida, saneamento, etc. Tendo isso, se o vizinho dela dirige uma Ferrari ou um Gol é menos importante. Pelo menos é assim que a maioria dos liberais pensa. Há, contudo, alguns motivos mais concretos — menos dependentes de atribuir à igualdade um valor moral mais elevado — pelos quais a desigualdade pode nos parece algo relevante.

E se um mundo muito desigual tiver um impacto ruim em nossa organização social, podendo mesmo destruí-la ou produzir grandes catástrofes? Juízos morais não entram aqui. Se a massa não aceitar viver em uma sociedade muito desigual, e uma revolução violenta for sua ferramenta para mudar o estado de coisas, então mesmo os mais ricos têm um bom motivo para tentar amenizar as diferenças.

Com efeito, grandes catástrofes são um poderoso mecanismo de redução da desigualdade. Talvez, o único. É o que argumenta Walter Scheidel, pesquisador da Universidade de Princeton, no livro The Great Leveler: Violence and the History of Inequality from the Stone Age to the Twenty-First Century (O Grande Nivelador: violência e a história da desigualdade da idade da pedra ao século 21, numa tradução livre). A tendência natural da sociedade é pelo aumento da desigualdade. E a única maneira de reverter esse processo é com algum evento traumático de grandes proporções — guerras, revoluções, colapso do Estado e epidemias.

Com muita riqueza de dados e detalhes, Scheidel percorre a história da humanidade mostrando como isso se repete. O fim do Império Romano, a peste negra, a Revolução Francesa (uma tentativa não muito bem sucedida), as revoluções comunistas (essas sim, bem-sucedidas na destruição das grandes riquezas), as guerras mundiais. O aumento paulatino da desigualdade torna mais prováveis as conflagrações violentas que podem reduzi-la. Para se ter uma ideia, o evento mais “benigno” de redução da desigualdade que o livro cita é a Grande Depressão dos anos 30.

É raro que um livro sobre esse tema evite prescrições simplistas e adote uma posição fácil perante a desigualdade. Foi o caso do economista francês Thomas Piketty, que refundou a discussão sobre o assunto com uma quantidade e qualidade de dados impressionante, mas recaiu em ideias ingênuas sobre impostos globais para corrigir o que ele via como um problema. Para Scheidel, a desigualdade é também um problema, com consequências negativas tanto econômicas quanto sociais, mas os remédios que no passado a venceram são ainda piores.

Felizmente, nós no presente já conhecemos diversos outros mecanismos para reduzir a desigualdade, não é mesmo? Educação, transferência de renda, reforma política, reforma agrária (pacífica). Nada disso. Scheidel argumenta, com boas evidências, que nenhum desses caminhos traz efeitos expressivos na redução da desigualdade. Nem é provável que tragam, pois o grau de mudança necessária seria inaceitável para os detentores do poder econômico e político.

Devemos então nos preparar para o pior? Tampouco. Scheidel reconhece que, graças a avanços tecnológicos, políticos e culturais (ideologias revolucionárias são hoje muito menos populares), o mundo ocidental talvez esteja muito menos propenso ao tipo de grande evento destruidor que reduzia a desigualdade no passado. Sendo assim, o crescimento da desigualdade – que, por maior que seja, ainda não chegou aos níveis anteriores à Primeira Guerra – deverá continuar seu caminho, e não há nada que possamos fazer. O livro pode ser chamado de pessimista: a desigualdade é ruim e continuará a aumentar. Mas também poderíamos ver nele um otimismo irreprimível: diferentemente do passado, as enormes tragédias capazes de reverter essa tendência não devem nos acometer tão cedo. Ninguém disse que a utopia é alcançável.