Chance de subir na pirâmide é baixa e depende de raça e gênero

A chances de alguém nascido no grupo A continuar lá são 13,7 vezes maiores do que a de alguém da classe D, E ou F conseguir escalar para o topo

São Paulo – O Brasil é um país desigual não apenas na renda, mas na possibilidade que as pessoas têm de melhorar de vida.

É este o retrato que aparece nos dados de mobilidade da Síntese dos Indicadores Sociais, relatório divulgado pelo IBGE nesta sexta-feira (15).

Metade dos filhos conseguem melhorar de lugar na pirâmide em relação aos seus pais, enquanto cerca de 17% caem de posição. Um terço da população (33%) fica na mesma categoria dos pais.

Quanto mais diferente for a posição dos pais e dos filhos, mais móvel é o país, indicando que as oportunidades de ter sucesso na sociedade estão melhor distribuídas.

A boa notícia é que a situação vem melhorando. Entre as décadas de 1970 e 1990, houve grande mobilidade estrutural ao mesmo tempo em que a desigualdade social se acentuava.

Isso estava relacionado com a rápida urbanização, já que uma boa parte da população passava de um estrato baixo na pirâmide, e essencialmente rural, para outro logo acima, agora urbano.

Atualmente, aumentou a chance de migrar entre estratos mais distantes da população, ainda que ela seja baixa em comparação com outros países.

“Em um contexto internacional, o Brasil é considerado um país com elevada desigualdade de oportunidades em termos de chances relativas de mobilidade social”, diz o texto.

A maior parte dos movimentos de mobilidade continua sendo de pequena distância. Só 1 em cada 5 daqueles que conseguem sair da base da pirâmide chegam ao topo. Só que mais da metade dos filhos do grupo A continuam por lá.

Isso significa que as chances de alguém nascido no grupo A continuar no topo são 13,7 vezes maiores do que a de alguém nascer no grupo D, E ou F e conseguir escalar para o grupo A.

Grupos

Os 6 grupos usados pelo IBGE não são a mesma coisa que classes sociais. Eles são uma divisão do mercado de pessoas ocupadas, usando como critério a ocupação e a renda média do trabalho em 2014.

No estrato A, por exemplo, então cargos de gerência, dirigentes de empresa, advogados e professores de nível superior, com rendimento médio variando entre R$ 3.737 (professores e advogados) e R$ 4.681 (gerentes e dirigentes). O B reúne técnicos de nível médio (rendimento de R$ 2.457).

O C tem trabalhadores administrativos (R$ 1.564), o D tem trabalhadores de bens e serviços, reparação e manutenção (R$ 1.460), o E reúne trabalhadores dos serviços e vendedores e prestadores de serviços do comércio (R$ 982 e R$ 1.263) e o F tem trabalhadores agrícolas (R$ 628).

Raça e gênero

Além disso, as possibilidades de mobilidade estão ligadas a outros fatores. A mobilidade geral dos brancos, para cima ou para baixo, é maior do que a de pardos e pretos (68,8% contra 65,1%).

A desigualdade é mais forte na mobilidade de longa distância. O percentual das pessoas pretas ou pardas que conseguem subir muitos degraus na pirâmide, por exemplo, é metade daquele das pessoas brancas.

“Diversos estudos que analisaram as chances relativas de mobilidade entre brancos e não brancos confirmam a existência de barreiras raciais à mobilidade intergeracional no Brasil”, diz o texto.

A mobilidade geral das mulheres é maior do que a dos homens (54% contra 47%), o que também aparece na chance de subir muitos degraus na pirâmide (15,2% contra 10,2%).

A maior diferença entre os grupos é entre homens pretos ou pardos e mulheres brancas. A proporção dos homens pretos ou pardos com mobilidade ascendente de longa distância é apenas um terço daquela verificada entre mulheres brancas.

Mas “os percentuais médios de cada grupo não permitem controlar o efeito de outras características, como o nível educacional mais elevado das mulheres além da maior retenção de homens em ocupações rurais, que pode ser um fator explicativo desse resultado”, diz o IBGE.