Produtores se suicidam na Índia em meio à queda do algodão

Cerca de 12 produtores de algodão se matam por dia devido à queda dos preços na Índia, e os números estão aumentando

Mumbai – Shobha Singh Bais esperou que seu marido Govind terminasse de comer os vegetais com pão pita no dia 15 de janeiro para que ela pudesse jantar, conforme o hábito no povoado de Hivar, onde moravam, e em muitos outros na Índia.

Quando Govind terminou, o produtor de algodão de 55 anos disse calmamente à esposa que tinha ingerido veneno de rato. Shobha saiu correndo de casa, em busca de seu filho Chandan, 30, que possui um armazém de tabaco nas imediações.

Quando os dois voltaram, Govind espumava pela boca. Ele morreu em um tuk tuk que corria para levá-lo ao hospital, a 12 quilômetros dali.

Em um país onde ocorre até um de cada três suicídios no mundo, cerca de 12 produtores se matam por dia em Maharashtra, o segundo maior estado, e os números estão aumentando, de acordo com dados do grupo de lobby da agricultura.

O excesso da oferta de algodão em todo o mundo fez com que os preços despencassem e piorou a pobreza na zona rural da Índia. Govind estava dois anos atrasado com empréstimos bancários, teve que replantar sua safra no ano passado devido às chuvas tardias e estava enfrentando o custo de 100.000 rúpias (US$ 1.620) para que um dos seus filhos se casasse.

“Meu marido estava muito tenso nos seus últimos dias de vida”, disse Shobha, 47, sentada no chão de terra à porta da sua casa e limpando trigo para o jantar.

Embora os produtores indianos enfrentem dificuldades financeiras com frequência, os menores preços domésticos em três anos para o algodão e os custos mais altos de mão de obra e pesticida provavelmente vão piorar a situação em 2015, disse Kishor Tiwari, presidente do Vidarbha Jan Andolan Samiti, o grupo de lobby dos produtores.

Empréstimos não pagos

Uma quantidade cada vez maior de produtores não consegue pagar os empréstimos. Muitos não têm um terreno grande o suficiente para servir de garantia e recorrem a agiotas que cobram uma taxa cinco ou seis vezes maior do que a do banco.

De acordo com Samiti, 4.200 produtores se suicidaram no ano passado em Maharashtra, estado do oeste que é o maior produtor de algodão depois de Gujarat e registra a maior quantidade de tais mortes na Índia.

Se o governo confirmar esse número, ele será o maior desde 2007. Maharashtra inclui a cidade de Mumbai e é o lar de cerca de 112 milhões de pessoas, quase três vezes mais do que a Califórnia.

Para os produtores de algodão, o panorama é sombrio. As reservas mundiais devem mais do que dobrar e atingir o recorde de 109 milhões de fardos em quatro anos, em parte porque a China, o maior comprador, está consumindo menos, de acordo com dados do Departamento da Agricultura dos EUA.

Os preços do algodão na ICE Futures U.S., em Nova York, caíram 28 por cento nos últimos 12 meses e atingiram o menor valor em cinco anos, 57,05 centavos por libra, no dia 23 de janeiro.

O governo do primeiro-ministro indiano Narendra Modi, que chegou ao poder em maio com a promessa de assegurar que os preços de todas as safras continuassem 50 por cento acima do custo de produção, não fez muito para aliviar os problemas dos produtores, disse Tiwari.

Caro demais

As exportações indianas de algodão poderiam cair até 58 por cento neste ano, embora a colheita esteja prestes a bater um recorde com 40 milhões de fardos, estima a Associação de Algodão da Índia.

O governo deveria proibir as importações de algodão e subsidiar as remessas para o exterior para aliviar o excesso da oferta doméstica, disse Shirish Shah, sócio da Bhaidas Cursondas, uma exportadora com sede em Mumbai.

Os preços deveriam ser de pelo menos 6.000 rúpias por 100 quilos para que fossem econômicos para um produtor, disse Santosh Naitham, coordenador do Samiti no estado de Maharashtra. Recentemente, os operadores compraram algodão por cerca de 4.000 rúpias.

Modi implementou a política de oferecer uma compensação pela morte dos produtores. O governo inscreveu cerca de 115 milhões de titulares de contas bancárias para transferir diretamente tais subsídios. Muitas famílias produtoras não têm nada para depositar.

“É mais um encargo que temos agora”, disse ele, enquanto brincava com seu filho de 14 meses. “Quero educar meu filho para que ele vá embora daqui. Mas se não ganhamos nada com nossas plantações, como vamos sequer educá-lo?”.