Problema complexo, solução errada: Maduro aumenta preço da gasolina

Governo da Venezuela aumenta o preço da gasolina em postos na fronteira com a Colômbia nesta terça-feira

Contra os problemas complexos há sempre uma solução simples com potencial para piorar ainda mais a situação. O governo da Venezuela vai aumentar o preço da gasolina em postos na fronteira com a Colômbia. A medida, que será implementada nesta terça-feira, é uma resposta ao contrabando de combustível realizado pelo país vizinho. “Vou deixar mais cara a gasolina na fronteira colombiana. Já nos roubaram o suficiente”, afirmou o presidente venezuelano Nicolás Maduro, nas redes sociais.

O aumento nas fronteiras é considerado umas das únicas medidas que o governo venezuelano pode fazer para “retaliar” as ações de outros países sobre seu território.

A gasolina é um produto fortemente subsidiado pelo governo. Com uma inflação de mais de 800.000% ao ano, 0,01 centavo de dólar pode comprar mais do que um barril de gasolina. Numa comparação publicada pelo jornal Folha de São Paulo, o valor pago por um café poderia comprar 3.000 litros do combustível, que pode encher 60 vezes o tanque de um tanque de um carro médio.

Maduro, que teme um novo Caracazo – quando, em 1989, a população venezuelana se revoltou contra o governo por conta do aumento no preço da gasolina – prometeu um novo esquema de preços para hidrocarbonetos e um subsídio direto a venezuelanos portadores do cartão nacional, uma identidade que dá acesso a programas sociais (e que permite um controle da oposição por parte do governo).

A Venezuela não está perdendo somente gasolina para a Colômbia, mas também sua população. Estima-se que mais de 600.000 venezuelanos tenham entrado no país vizinho, o que mais recebeu migrantes em busca de emprego e de melhores condições de vida no continente.

O governo colombiano tem, junto com outros países sul-americanos, negociado planos e acordos para lidar a crise migratória. Na semana passada, líderes do Brasil, Equador, Colômbia e Peru se reuniram para discutir o êxodo de mais de 2,3 milhões de pessoas da Venezuela. Enquanto os acordos não saem do papel, os países tentam, individualmente, lidar com a chegada dos migrantes.

No mês passado, o Equador iniciou um corredor humanitário, para que os venezuelanos entrassem no país e conseguissem migrar para outros territórios. O governo brasileiro prometeu entrega de senhas para aqueles que migrassem temporariamente (poderiam, assim, passar o dia no Brasil para comprar alimentos e remédios, e voltar para a Venezuela).

Ontem, a ONG Human Rights Watch divulgou relatório cobrando dos países sul-americanos a adoção de um regime comum de proteção aos venezuelanos. Enquanto o governo de Maduro promete medidas para conter a crise, as pessoas deixam o país, e vivem uma outra crise: a da falta de política migratória no continente.