Prévia do PIB mostra que otimismo ainda não resultou em crescimento

IBC-Br aponta avanço de 0,89% da economia em 2019, crescimento mais baixo do que os registrados nos últimos dois anos. E 2020 deve ser ano de moderação

São Paulo – O início do governo do presidente Jair Bolsonaro foi marcado por otimismo. A equipe econômica do ministro da Economia, Paulo Guedes, era celebrada pelo mercado. O presidente, por sua vez, dava algumas amostras que poderia sair dos discursos extremados e seguir o caminho do centro. Não à toa, naquele mês, o crescimento econômico esperado para 2020 era de 2,5%. Um ano depois, veio a confirmação da realidade.

O IBC-Br, calculado pelo Banco Central e considerado uma espécie de prévia do resultado do PIB, apresentou crescimento de apenas 0,89%. O resultado de dezembro foi de queda de 0,27%, em comparação ao mês de novembro (que, aliás, teve resultado revisado de crescimento de 0,18% para queda de 0,11%). Entre os principais motivos para essa queda mensal estão a redução de 0,7% na produção industrial, de 0,1% no varejo e de 0,4% em serviços.

Esses dados negativos já eram esperados pelo mercado e eles servem com uma espécie de choque de realidade para 2020. Assim como aconteceu no início do ano passado, havia bancos e consultorias apostando em crescimento de 2,5% a 3%. O coronavírus, que já matou por volta de 1.500 pessoas, foi o primeiro baque para a redução. Agora, a confirmação de que a economia sequer seguiu uma tendência de alta mês a mês.

“Isso mostra que o mercado precisa ter moderação. Quem estava esperando uma retomada forte em 2020, está precisando revisar os números para baixo”, diz Sérgio Vale, economista-chefe da consultoria MB Associados. Vale crê em um crescimento de 2% para 2020, enquanto o Boletim Focus tem uma mediana de 2,3%. Para 2019, o Focus espera um resultado de 1,12% (ante 2,5% em janeiro de 2019 e 1,17% há um mês).

Mas há motivos para otimismo?

O Brasil está entrando no terceiro ano com crescimento de cerca de 1%. Trata-se de um resultado irrelevante para um país desenvolvido e péssimo para um emergente, como é o caso. Porém, alguns resultados mostram que um certo otimismo é até explicável.

 

Na comparação trimestral ano a ano, o quarto trimestre do ano passado não foi dos piores: alta de 1,4% em relação ao mesmo período de 2018. É exatamente o dobro do valor registrado entre julho e setembro. “Ainda é baixo, mas estamos caminhando para uma média melhor do que em 2019”, diz Vale.

A consultoria 4E também acredita que os resultados mostram uma tendência positiva. “Para 2020, a expectativa é de que a atividade econômica acelere, tendo em vista a melhora da confiança de consumidores e empresários via avanços na agenda de reformas e do impacto positivo advindo do afrouxamento monetário”, afirmou em nota para os clientes.

De novo, no entanto, é preciso moderação. Em janeiro, o Índice de Confiança do Consumidor (ICC), medido pela Fundação Getulio Vargas, recuou 1,2 ponto e ficou nos 90,4 pontos (em uma escala de zero a 200). Ou seja, os consumidores ainda estão pessimistas. Os pontos que mais influenciaram a queda foram a intenção de comprar bens duráveis nos próximos meses e a percepção sobre a situação financeira da família.

Em evento da Amcham, realizado nesta sexta 14, o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros aponta que outros pontos para otimismo são a queda da taxa Selic ao mínimo histórico (4,25%) e o fato de problemas fiscais estarem no caminho de setem resolvidos com uma política econômica que olha o longo prazo.

“Temos uma taxa de juros que, às vezes, me faz até querer me beliscar pela manhã. Temos uma recuperação econômica com problemas fiscais, assim como temos problemas no mercado de trabalho, mas serão resolvidos”, afirma Mendonça de Barros.

Na avaliação do economista, a recuperação lenta é esperada, já que o país passou pela sua pior crise da história. “Não dá para esperar outra coisa. O que importa é que já saímos do ciclo destrutivo da crise e há esperança pela frente”, diz.

E assim o otimismo segue, mas é bom deixar o alerta ligado. Outro bom exemplo é a taxa de desocupação. No quarto trimestre, a taxa registrou 11% de pessoas desocupadas, ante 11,8% no trimestre anterior. Ao mesmo tempo, a taxa de informalidade alcançou o maior nível desde 2016: 41,1%. A cada 1,8 milhão de pessoas que retomaram as atividades no ano passado, 1 milhão foram na condição de informais.

Ou seja, menos segurança na renda dos brasileiros, assim como menos impostos para o governo que segue em situação fiscal complicada. Que o otimismo de 2020 se concretize em dezembro.