Porque o Brasil perdeu a Intel para a Costa Rica

No primeiro ano de funcionamento da fábrica de chips da Intel na Costa Rica, o PIB do país cresceu 6,2%. No segundo, 8,3%. A empresa investiu 500 milhões de dólares no empreendimento em 1997 e, em 1998, já faturou 1,5 bilhão de dólares com exportação. No ano seguinte faturou 2,5 bilhões – cerca de 40% das exportações do país.

Modesto produtor de bananas e café, o país trocou um déficit comercial de 497 milhões de dólares em 1997 por um superávit de 632 milhões de dólares em 1999 – seu primeiro excedente em 50 anos. “Há 50 anos dependíamos de café e bananas, diz Eduardo Lizano, presidente do Banco Central.”Hoje dependemos da Intel.”

Lizano sabe bem o que diz. Após o sucesso inicial, a retração mundial do mercado telecom também atingiu a Costa Rica. Em 2000, as exportações da Intel caíram para 1,6 bilhão de dólares, induzindo a expansão do PIB a retrair-se para 1,7%. Em 2001, o país cresceu apenas 0,3%. Em compensação, os 3,5 milhões de costa-riquenhos – uma população que cabe na cidade de Belo Horizonte – trocaram a república de bananas por um título de sócio do clube da alta tecnologia. Atrás da Intel, vieram seus fornecedores: Acer, Microsoft, Motorola, DSC, EMC Technology e Photocircuits. Hoje, o país é um protagonista do mercado global de eletrônica.

O Brasil perdeu essa fábrica por desleixo. Em 1995, a Intel começou a procurar países para instalar uma planta de montagem e testes de processadores Pentium. Argentina, Brasil, Chile, México, China, Índia, Indonésia, Coréia, México, Porto Rico, Cingapura, Taiwan e Tailândia estavam na mira. A Costa Rica não era sequer considerada. Mas a agência de desenvolvimento do país, a decidida Coalición Costaricense de Iniciativas para el Desarrollo (Cinde), soube das intenções da Intel, enviou representantes à sua sede, na Califórnia, e colocou-se na lista.

Todo país destinatário de investimentos da Intel é minuciosamente avaliado. Segundo a economista Debora Spar, do Banco Mundial, os critérios da empresa são: condições políticas e econômicas estáveis, recursos humanos em número suficiente, custo estrutural razoável (salários, impostos, tarifas de exportação e facilidades para remessas de lucros) e bom ambiente para investimentos estrangeiros. Também contam ponto as condições de logística, os transportes entre a fábrica e o aeroporto, uma alfândega desburocratizada e um processamento rápido de licenças e autorizações (de quatro a seis meses).

Baseada nessa avaliação, em 1996 a lista de 14 países caiu para sete. A empresa decidiu, então, privilegiar a América Latina, para diversificar sua produção global, concentrando-se em quatro candidatos: Brasil, México, Chile e Costa Rica. Em fevereiro de 1996, executivos da Intel começaram a visitar esses países, entrevistando autoridades, advogados, empresas de consultoria e executivos de filiais de companhias americanas. Em março, Chuck Pawlak, vice-presidente de International Site Selection da Intel, esteve em Brasília. No Ministério da Indústria e Comércio Pawlak anunciou a hipótese de investir até 1 bilhão de dólares, mostrou as necessidades da empresa e sondou a disposição do governo brasileiro.

“Eu trabalhava com a ministra Dorothéa Werneck, da Indústria e Comércio”, diz a secretária de informática Wanda Scartezzini. Ficamos 48 horas à disposição deles. Conversamos sobre a estrutura tributária brasileira e os incentivos para a informática. A conversa foi boa. A ministra queria muito atrair a fábrica para o Brasil. O país estava, então, em plena lua-de-mel com a estabilização econômica gerada pelo Plano Real. Milhões de dólares de empresas estrangeiras entravam no país a cada mês.

Com o ministro Israel Vargas, da Ciência e Tecnologia, entretanto, a conversa foi mais lacônica. Segundo o ministro, o Brasil teria grandes vantagens para oferecer à Intel. A Gazeta Mercantil, noticiou o encontro de Vargas com os executivos da Intel, em 7 de março, com uma reportagem que termina com a seguinte frase: “Não temos de fazer nenhum esforço de barganha — diz o ministro, otimista”. O ministro da Fazenda, Pedro Malan sequer dispôs-se a receber a delegação.

Em São Paulo, o governo estadual esnobou a equipe da Intel – apesar de o Estado ter sido escolhida para abrigar a fábrica. “O governador Covas rejeitou explicitamente a concessão de incentivos fiscais à Intel”, diz o economista Roy Nelson, que estudou o caso Intel-Costa Rica para a American Graduate School of International Management, no Arizona. “Naquele momento, São Paulo nadava em investimentos estrangeiros”, diz Nelson.

“Eles não conseguiram falar nem com um secretário estadual”, diz José César Martins, na época presidente do Pólo RS, a agência de desenvolvimento do governo gaúcho, também interessado na negociação. “O Covas não deu a menor bola para a Intel.”

Enquanto isso acontecia, em abril outra equipe da Intel descia no aeroporto de San Jose, capital da Costa Rica. O diretor da Cinde a aguardava na pista. Imediatamente, o presidente da República, José Maria Figueres, e ministro do Comércio Exterior, José Rossi, receberam a delegação. Esse primeiro encontro durou duas horas e meia. Figueres comprometeu-se pessoalmente com o projeto e disse que faria tudo para tornar o país competitivo na disputa. Ali mesmo, sugeriu a criação de um programa especial de treinamento de mão-de-obra para atender à demanda da Intel e nomeou o ministro Rossi para “resolver todos problemas”.

Equipes da Intel passaram a visitar a Costa Rica toda semana. Em julho, o Chile e o Brasil foram excluídos. “O Brasil tinha muito a oferecer”, diz Spar. “Mas a Intel achou que o ambiente naquele momento não era adequado para o tipo de operação que cogitava.” “Uma soma de eventos desestimulou a ida para São Paulo”, diz Paulo Cunha, gerente da Intel no Brasil. “Houve falta de incentivos, problemas logísticos e ofertas melhores de outros países.”

Sobraram o México e a Costa Rica. Bob Perlman, vice-presidente de finanças da empresa, resistia à idéia de instalar uma fábrica da Intel na Costa Rica. Para ele seria como “pôr uma baleia na piscina”. O transporte aéreo era insuficiente, o fornecimento de energia, problemático e a ausência de técnicos graduados, um grande problema. Em compensação, o país era estável, abolira o exército e o analfabetismo. Muitos costa-riquenhos falavam inglês. A atitude favorável aos negócios vigorava tanto nos partidos de governo como nos de oposição. O próprio fato de a Costa Rica ser pequena facilitava a resolução de problemas.

Além disso, havia Figueires, apoiando o projeto. Executivos da Intel jantaram várias noites com o presidente. Numa dessas vezes, Figueres ofereceu-lhes o helicóptero presidencial, no dia seguinte, para conhecer terrenos para a fábrica. Ao chegar no hangar, às 7 horas da manhã, os americanos encontraram o próprio presidente, de mangas curtas, no comando do aparelho. Com essa disposição, nenhum problema resistiria.

Os efeitos da crise cambial mexicana de 1995 e a cultura sindical do país, estranha à Intel, pesaram para o abandono da hipótese México. O governo federal chegou a oferecer um regime de “exceção trabalhista” à Intel, mas isso, ironicamente, só contribuiu para a empresa estranhar os métodos de política pública do país.

A Costa Rica, ao contrário, fez da exceção a regra, oferecendo a todas as 190 empresas estrangeiras instaladas na sua Zona Franca o pacote de incentivos fiscais negociado com a Intel: 100% de isenção de impostos de importação e exportação, 100% de isenção em impostos municipais, 100% de isenção de impostos sobre lucros por oito anos, processamento alfandegário rápido, na fábrica, e eliminação de restrições para a remessa de capitais.

O governo também ampliou a cessão de licenças para vôos aéreos internacionais e criou programas especiais de treinamento em eletrônica no Instituto de Tecnologia de Costa Rica, em parceria com a Intel. A empresa, por sua vez, financiou a construção de duas subestações de energia para a fábrica. “A Costa Rica não se vendeu à Intel”, afirma Spar. “Não houve concessões especiais ou acordos paralelos. Eles fizeram ajustes para acomodar as necessidades da Intel, mas estenderam as medidas a outros investidores, beneficiando a economia toda.”