Por que os países guardam barris de petróleo, até embaixo da terra

Nos Estados Unidos, por exemplo, há reservas subterrâneas que permitem o país a ficar sem importar petróleo por 275 dias

Para enfrentar a alta do preço do barril do petróleo provocada pelos ataques a várias instalações petroleiras na Arábia Saudita, os países podem utilizar as chamadas reservas estratégicas, ou aumentar a produção de cru.

Formada principalmente por estados europeus e americanos, a Agência Internacional de Energia (AIE) obriga seus membros a terem reservas equivalentes a pelo menos 90 dias de importações líquidas de petróleo, calculadas em referência ao ano anterior.

O cumprimento dessa obrigação é supervisionado diretamente pelo estado, ou empresas privadas.

Em junho de 2019, as reservas francesas correspondiam, por exemplo, a 111 dias de importações líquidas, segundo a agência.

Na segunda-feira, a AIE indicou que estava “supervisionando de perto a situação na Arábia Saudita” e afirmou que, “no momento, os mercados estão bem abastecidos com várias reservas comerciais”.

Fora da AIE, a China, primeiro país importador de petróleo e grande consumidor de energia, tem reservas petroleiras estratégicas equivalentes a 40, ou 50 dias de importações líquidas, de acordo com um número divulgado em março passado pela imprensa oficial chinesa.

Disposição em mobilizar reservas

O presidente americano Donald Trump anunciou no Twitter que colocou as reservas a disposição, após o ataque. “Autorizei o uso do petróleo da Strategic Petroleum Reserve (SPR), se for necessário, em uma quantidade ainda a ser definida”.

As reservas estratégicas americanas (chamadas SPR) estão depositadas em quatro plantas subterrâneas na costa do golfo do Texas e de Louisiana.

Em 13 de setembro, eram de 645 milhões de barris, segundo a Administração de Informação Energética dos Estados Unidos (EIA). Esta quantidade representa em torno de 275 dias de importações petroleiras líquidas dos Estados Unidos em 2018.

Os Estados Unidos puseram parte de suas reservas à venda três vezes em sua história: em 1991, quando lançaram uma operação militar após a invasão do Kuwait por parte do Iraque; em 2005, durante o furacão Katrina; e em 2011, durante a guerra civil na Líbia.

A Arábia Saudita também prometeu mobilizar suas importantes reservas, em caso de crise petroleira. O país tem em reserva “níveis significativos de petróleo e de produtos petroleiros” que equivalem a “cerca de 35 dias de exportações do país”, indica em uma nota o analista Amarpreet Singh, da Barclays.

Quando se usarão as reservas?

“Até que os danos [às instalações sauditas] sejam detalhados, será difícil avaliar exatamente a possibilidade” de recorrer às reservas estratégicas, afirma o diretor da consultoria Rapidan Energy, Bob McNally, citado pela agência Bloomberg.

A agência de classificação de risco Standard and Poor’s disse na segunda-feira que prevê uma redução da produção saudita em três milhões de barris ao dia durante um mês.

O país produziu uma média de 9,77 milhões de barris ao dia em agosto e exportou sete milhões de barris ao dia em média, completou a S&P.

Até o momento, “a administração [Trump] busca tranquilizar os mercados, assegurando que os Estados Unidos e seus sócios dentro da AIE estão dispostos a agir”, completou McNally.

Outra opção é aumentar a produção

Liderada por Riad, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) tinha em agosto capacidades excedentes de 3,21 milhões de barris ao dia, afirma a AIE, acrescentando que a maioria (2,27 mbd) está na Arábia Saudita.

“O ataque [do sábado] põe em xeque a confiabilidade dos abastecimentos da Arábia Saudita, que tem a maior parte das capacidades de produção excedente do planeta”, comentou Amarpreet Singh.

Os outros membros do cartel com capacidades não utilizadas (principalmente Kuwait e Emirados Árabes Unidos) podem suprir a falta de petróleo saudita, mas não há garantia de que a produção desses países seja suficiente para isso.

Outra incógnita é a capacidade – ou a vontade – da Rússia, o segundo exportador mundial de petróleo, de aumentar sua produção. Para isso, seria necessário que a Rússia, que não é membro da Opep, renunciasse a seu acordo em vigor com o cartel para reduzir a produção.

Primeiro país produtor de petróleo, os Estados Unidos também poderiam aumentar sua própria oferta, em particular a de xisto.

Essa opção tem seus limites, porém, já que seu petróleo é leve e não pode substituir os petróleos pesados do Oriente Médio. Além disso, as infraestruturas e os portos americanos já estão saturados.