Por que os EUA subiram os juros e como isso nos afeta

A alta foi pequenininha, de 0,25% ao ano. Mas perto de zero todo número parece grande, não é?

São Paulo – É mais simbólico que outra coisa – mas simbolismos captam nossa imaginação e afetam decisões. O banco central dos EUA elevou sua taxa básica de juros (equivalente à Selic no Brasil) após 7 anos mantida em zero.

A alta foi pequenininha, de 0,25% ao ano. Mas perto de zero todo número parece grande, não é?

E por que essa decisão?

Antes disso, vale falar da razão dos EUA terem segurado os juros em zero por tanto tempo.

A medida tinha um propósito claro: ajudar a economia americana a recuperar o ânimo. Depois da grande crise financeira de 2008/2009, inflação e crescimento despencaram, enquanto o desemprego foi lá no alto (10%!) antes de voltar.

Lá nos EUA, a inflação (aumento médio dos preços ao consumidor) passou um tempo rondando o zero. Isso mesmo: zero. Os preços cobrados naquelas terras perigaram cair consistentemente. Mas isso não é bom, ao contrário do que alguns possam pensar. Isso seria deflação.

O problema com esse bicho é que se as pessoas acham que os preços vão cair ou não vão subir quase nada, elas tem um incentivo a adiar as compras. E mais: a receita das empresas se encolhe. Quando os preços não se mexem ou caem e a quantidade vendida diminui, as firmas têm maior dificuldade de honrar suas obrigações financeiras.

Resumindo: como a vida é muito dura para uma economia de inflação baixa ou negativa (a tal deflação), o banco central dos EUA (conhecido por Fed, abreviação de Federal Reserve, nome oficial da instituição) injetou o máximo que podia de moeda na economia.

O juro zero é uma das táticas usada para conseguir isso. Afinal, com crédito barato, as pessoas tendem a consumir mais.

Gradativamente a economia dos EUA renasce das cinzas. Ainda que a inflação made in USA siga comportadinha, parte disso se deve também aos preços do barril de petróleo, muito baixos hoje – estão agora na casa dos 40 dólares, mas já estiveram, há relativo pouco tempo, na faixa dos 100 dólares.

O desemprego americano, na esteira da recuperação do crescimento do PIB, já caiu pela metade. Flutua perto dos 5%. Com a desocupação da força de trabalho nesse patamar, os economistas meio que concordam: começa a surgir um calorzinho na inflação.

Em outras palavras, os riscos de a economia dos EUA voltar a fraquejar são mínimos. Chegou assim o momento de retirar a bebida da festa, digamos. O banco central americano troca a cerveja pelo mais prudente copo d’água, seguido de um cafezinho. Alegria é um negócio bom? Opa! Mas, em economia, causa inflação e bolhas se cultivada em excesso. É bom evitar, portanto, a dor de cabeça.

Mas não tem nada de traumático na decisão.

Os juros nos EUA vão subir a passo de tartaruga, parando para ver como a coisa vai no meio do caminhando – disse a presidente do Fed, Janet Yellen. Mês a mês, será analisado se a recuperação fincou mesmo raízes.

E o que o Brasil tem a ver com isso?

Se isso bom ou ruim para o Brasil? Talvez você tenha lido por aí que certamente é uma má notícia. Que o juro mais alto nos EUA vai fazer com que os capitais saiam daqui para lá, que os investimentos no Brasil vão cair, etc.

Essa conclusão reflete uma falta de visão do conjunto, da economia como um sistema.

Papo complicado esse?

Em bom português: o juro não subiu do “além”, sob a influência de forcas ocultas ou por maldade da Janet; o juro é consequência e não começo da história.

Pessoal, o juro só subiu porque a economia dos EUA está indo bem! E esse fato, claro, é algo bom para o Brasil e para o mundo. Então as duas coisas (prós e contras) meio que se compensam…

Ademais, gente (e só cá entre nós, hein?), nossos problemas não estão no exterior. Acho que vocês sabem onde eles estão. Não é mesmo?