Por que o dólar a 4 reais preocupa

Você deve se preocupar com a alta do câmbio, mas é por causa da pressão sobre os preços do varejo, especialmente os alimentos

Finalmente aconteceu. O dólar atingiu a importante barreira psicológica dos 4 reais. Durante alguns momentos na tarde da quinta-feira, um real comprava apenas 25 centavos da moeda americana. Esse movimento se reverteu parcialmente no fim do dia e o dólar fechou cotado a 3,99 reais.

As edições desta noite dos telejornais vão enfatizar esse fato, assim como as primeiras páginas de amanhã dos principais jornais do país. Apesar de todo o estrondo jornalístico, o fato de o dólar ter atingido quatro reais tem pouco significado e não deve perdurar por muito tempo.

Essa afirmação está apoiada em dois fatos. O primeiro é que a alta do dólar é principalmente provocada pela especulação. No próximo dia 17 de outubro vão vencer mais de 7,5 bilhões de reais em papéis cambiais. Esses títulos estão, em sua maioria, nas carteiras dos fundos de investimento e nas tesourarias dos bancos.

Quanto maior a cotação do dólar no dia 17, mais dinheiro os bancos e fundos vão receber. Por isso, é bom para as instituições financeiras que o dólar suba. Se for possível elevar os preços comprando dólares em um mercado quase sem liquidez, bom para quem tem esses títulos.

O segundo motivo pelo qual a alta do dólar não vai durar é o forte superávit da balança comercial, que começou a surpreender o mercado há cerca de seis semanas. No início de agosto, a expectativa era de que as exportações iriam superar as importações em 5 bilhões de dólares. No fim de agosto, essa expectativa já havia pulado para 7 bilhões de dólares, e continuou subindo nas semanas seguintes. Por isso, não é difícil encontrar economistas que dizem esperar um superávit de 8 ou até 9 bilhões de dólares ainda este ano.

E a regra é clara: quanto mais dólares entrarem no país, menor será o seu preço. Assim, passado o segundo turno das eleições e os principais vencimentos, não é absurdo supor que o dólar vai voltar a um patamar mais comportado, digamos entre 3,00 e 3,50 reais.

Assim, não adianta criticar a posição do presidente do Banco Central, Armínio Fraga, de não atuar maciçamente no mercado vendendo dólares para conter essa alta. Essa atitude poderia drenar preciosas reservas do Banco Central, sem necessariamente deter a alta do dólar.

O que o BC fez na quarta e na quinta-feira foi oferecer títulos cambiais para adiar a rolagem do dia 17. Na tarde da quinta, o BC anunciou um leilão para trocar 400 milhões em papéis que vão vencer na semana que vem. O resultado da venda deve ser anunciado nesta sexta-feira e vai se somar aos 600 milhões de títulos vendidos na véspera. Se bem-sucedida, a rolagem vai reduzir em um bilhão o total de dívida a vencer no dia 17, aliviando a pressão sobre o dólar e fazendo a tensão desta semana minguar.

Então a alta do dólar não deve preocupar ninguém? Ao contrário: a alta do dólar é uma ameaça, mas não por estar indicando uma deterioração do cenário e uma semelhança do Brasil com a Argentina. O que deve preocupar é a pressão sobre os preços do varejo, especialmente os alimentos. Itens como o preço do pãozinho e o do óleo de soja podem subir muito, pressionando a inflação no varejo, que tem ficado bem-comportada nos últimos oito anos.