Populismo amigável

Livro defende que uma forma mais branda de populismo pode ser a saída para evitar o surgimento de lideranças ainda mais radicais

The Road to Somewhere: The Populist Revolt and the Future of Politics (“A estrada para algum lugar: a revolta populista e o future da política”, numa tradução livre)

Autor: David Goodhart

Editora: Hurst

256 páginas

Preço: US$ 18,36

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Desde que Trump foi eleito em novembro de 2016, não faltam livros para descrever, narrar, comentar e nos alertar para o fenômeno do populismo. Alguns deles já foram resenhados por mim em EXAME Hoje. Em geral, os livros contam a mesma narrativa básica (e provavelmente verdadeira), mudando algum aspecto da consideração ou do ponto de vista. A divisão ideológica, os vencedores e perdedores da globalização (vencedores: elites dos países ricos e pobres dos países pobres; perdedores: trabalhadores dos países ricos), a desindustrialização, etc. Todos esses temas se tornaram correntes agora que o mundo resolveu não seguir o caminho que as elites liberais traçaram para ele.

David Goodhart, escritor britânico, é mais um a integrar essa lista, com seu livro The Road to Somewhere: The Populist Revolt and the Future of Politics (“A estrada para algum lugar: a revolta populista e o future da política”, numa tradução livre), publicado no ano passado. O título “Road to Somewhere” se refere aos dois tipos ideais de cidadãos (ingleses; o livro é focado em seu país) que explicam, segundo ele, as divergências que cindiram a nação e resultaram no resultado traumático do Brexit.

Há os “Anywheres”, ingleses cosmopolitas, individualistas, com valores liberais, que estão à vontade em “qualquer lugar” e não se identificam com o pedaço de chão em que calharam de nascer – são também altamente escolarizados e moram nas proximidades dos grandes centros urbanos, especialmente Londres. E há os “Somewheres”, as pessoas que têm um forte sentido de comunidade e pertencimento à sua região e à sua cultura, e costumam ser mais pobres e menos escolarizados. De todas as diferenças de visão de mundo que perpassam esses dois grupos, a que tem mais consequências práticas – e que provavelmente foi a mais decisiva no Brexit – diz respeito à aceitação ou rejeição de imigrantes.

Até aí, nada de muito novo. O que diferencia Goodhart é em sua atitude de não apenas buscar compreender ambos os lados, mas de praticamente tomar o lado dos “Somewheres”. Não que ele seja um xenófobo e sonhe com uma Inglaterra fechada em si mesma; mas ele considera que a população menos escolarizada e que saiu perdendo com a globalização (e que enfrenta mais problemas com imigrantes) tem alguns pontos válidos. Além disso, um populismo com nuance e moderação pode ser o único antídoto viável para sua versão mais radical, com discursos de ódio e propostas desumanas.

Ao contrário do que insistem as elites liberais, afirma Goodhart, a imigração não traz apenas coisas boas. Redução dos salários, conflitos culturais e queda no grau de confiança mútua dentro da sociedade são algumas consequências negativas. A globalização aumentou a desigualdade e isso é um problema que ninguém deveria negar, sob pena de ser visto como um inimigo pelo grosso da população de seu próprio país. Assim, ele propõe um “liberalismo enraizado” (“rooted liberalism”).

Em sua proposta, o investimento do Estado em educação iria um pouco menos para estudos puramente acadêmicos (domínio dos “Anywheres”) e um pouco mais para cursos e disciplinas úteis a quem quer trabalhar ou aprimorar suas habilidades: melhor ensino técnico para quem não vai para a universidade, por exemplo. Ele também não é contra a imigração, mas defende um sistema em que o trabalhador imigrante fique de forma apenas temporária, sem poder fixar residência e adquirir cidadania no país.

Na sua tentativa de criar um “populismo decente”, Goodhart demonstra muita maturidade, pois não se deixa levar pela guerra ideológica. Exemplifica em sua análise dos dois perfis básicos a teoria defendida por Jonathan Haidt em The Righteous Mind, livro resenhado em EXAME Hoje: nosso pensamento (ou, melhor, nosso sentimento) moral tem várias fontes, e o credo liberal se fecha a algumas delas, o que lhe dá, para muitos, a aparência de uma mentalidade superficial.

Ao mesmo tempo, fica a dúvida: o mundo marginalmente menos interconectado que resultaria de medidas populistas será também um mundo marcado por antagonismos nacionais maiores, que por sua vez demandarão mais restrições à globalização. Será que esse é um caminho que estamos fadados a trilhar, ou ainda vale a pena empurrar na direção contrária? Falta também uma consideração mais atenta a outra mudança econômica, talvez mais importante que a imigração e internacionalização do trabalho, que é a robotização. Por acaso teremos que pensar num “ludismo moderado” para impedir as máquinas de nos jogarem no desemprego?

No Brasil, nossos dilemas e desafios são outros. A imigração é marginal, não somos um país economicamente muito globalizado e nossos trabalhadores saíram ganhando das trocas com o resto do mundo (a nova classe C). Nossa cultura é inclusiva e até se orgulha de absorver influências de fora. Ainda assim, nosso desejo de crescer e se conectar depende da disposição dos outros países, como a Inglaterra. Assim, o futuro que se discute e se decide lá na Europa e nos Estados Unidos também é importante para nós.