Pobreza também é um fenômeno psicológico, diz professor

"Quem não é pobre pode pensar em resultados de longo prazo porque suas necessidades imediatas já estão supridas; as pessoas pobres, não", diz Elliot Berkman

São Paulo – Pela primeira vez na história, a parcela de pessoas que vivem em extrema pobreza no mundo ficou abaixo dos 10%, de acordo com o Banco Mundial.

Mais de 1 bilhão de pessoas saíram da pobreza extrema desde 1990. A meta da ONU (Organização das Nações Unidas) é erradicar o problema até 2030.

As armas para isso são bem conhecidas: crescimento econômico com distribuição de renda e programas sociais com garantia de acesso a serviços básicos.

Ao invés da suposta oposição entre "dar o peixe" ou "ensinar a pescar", os últimos estudos têm pensado a pobreza como um fenômeno de várias dimensões – inclusive a psicológica.

Não significa dizer que os pobres são culpados pela pobreza, e sim que ela molda o cérebro com certos incentivos difíceis de entender por quem nunca passou por ela.

Alguns exemplos: o que significa pensar no futuro quando você não sabe se terá o que comer amanhã? Qual é o valor do chamado autocontrole quando suas recompensas são incertas? Dá para fazer boas decisões com fome?

"Quem não é pobre tem o luxo de pensar em resultados de longo prazo porque suas necessidades imediatas já estão supridas; as pessoas pobres, não", diz o professor de psicologia americano Elliot Berkman.

Como diretor do Laboratório de Neurociência Social e Afetiva da Universidade do Oregon, ele estuda como o cérebro é parte da armadilha da pobreza e pode prejudicar até quem já conseguiu escapar dela.

Por e-mail, Berkman respondeu a algumas perguntas de EXAME.com. Veja a seguir:

EXAME.com – Quais são as diferenças na estrutura psicológica de pessoas pobres e não pobres?

Elliot Berkman – Não são diferenças na estrutura, e sim nos fatores salientes para quem é pobre ou não pobre e que contam nas suas decisões.

Quem não é pobre tem o luxo de pensar em resultados de longo prazo porque suas necessidades imediatas já estão supridas; as pessoas pobres não tem esse luxo, ou pelo menos não no mesmo grau.

EXAME.com – Por que é difícil para um indivíduo na pobreza praticar o auto-controle? 

Berkman – Isso depende da sua definição de autocontrole. Uma definição comum entre psicólogos é escolher o longo prazo em detrimento do curto.

Um exemplo disso é ver o que uma pessoa faz com 5 dólares – ela gasta agora ou guarda para depois? Se alguém está faminto e gasta isso para comer agora, é correto chamar isso de falta de auto-controle? É essencialmente o que muitas sociedades fazem.

EXAME.com – Você diz que a pobreza faz as pessoas viverem sempre no "agora". Isso não é algo positivo?

Berkman – Entre pessoas de classe média ou alta, existe uma idealização da ideia de "viver no momento" baseado em práticas de atenção e consciência.

Mas este foco no presente deve ser voluntário e não forçado; caracterizado por uma abertura à experiência e não por uma luta constante para sobreviver ao dia.

E mesmo entre quem tem recursos suficientes para não precisar pensar na próxima refeição, o foco no presente não é sempre a melhor ideia. Algumas horas você precisa pensar no futuro e antecipar obstáculos.

EXAME.com – Você pode dar alguns exemplos de barreiras psicológicas que se fazem presentes mesmo quando as pessoas conseguem escapar da pobreza?

Berkman – Muitas são relacionadas ao aprendizado. Uma criança que cresceu pobre pode não saber como guardar dinheiro ou se planejar para o futuro.

Não é algo que se aprenda na escola. Se os pais não te ensinarem a criar uma conta de popupança para a faculdade, não há porque esperar que alguém saiba como fazer isso.

Atletas profissionais nos Estados Unidos são um bom exemplo: muitos cresceram pobres, e mesmo sendo espertos de forma geral, muitos acabam torrando quantias enormes de dinheiro simplesmente porque não sabem economizar e se planejar.

EXAME.com – Isso tem relação com o conceito de "exaustão cognitiva", a ideia de que as preocupações graves da pobreza consomem os recursos mentais e levam a decisões ruins, como mostram alguns estudos importantes?

Berkman – Talvez. A "exaustão cognitiva" ou "esgotamento do ego" é sempre demonstrada em laboratório e geralmente não é comparando pessoas pobres ou não pobres.

O esgotamento do ego pode ter mais a ver com manter algum equilíbrio entre "trabalho" e "diversão", ou com pessoas sentindo que já satisfizeram o experimentador e perderam a motivação de trabalhar duro.

Em contraste, pessoas pobres frequentemente tem muita motivação para trabalhar duro e ter vários empregos. É que elas colocam o foco na sobrevivência no momento presente ao invés do sucesso de longo prazo.

EXAME.com – O que pode ser feito, de uma perspectiva de política pública, para ajudar as pessoas pobres a superarem estes obstáculos?

Berkman – A resposta mais óbvia seria garantir que ninguém precise se preocupar se vai sobreviver até o final do dia, o que significa garantir para todos comida, abrigo e talvez até uma renda mínima.

Libertar as pessoas da preocupação da sobrevivência diária é a melhor forma de garantir que eles foquem no futuro.

Educação sobre orientação futura também é um bom plano: literalmente, ensinar as pessoas a pensar e planejar para o futuro já seria um grande avanço.