Pobreza, desemprego e divisão deterioram Gaza

Israel declarou a região como ''entidade inimiga'', proibiu as exportações e permitiu apenas a entrada de bens humanitários

Gaza – Pobreza, desemprego e divisão imperam na Faixa de Gaza cinco anos após a ascensão do movimento radical islamita Hamas e o consequente endurecimento do bloqueio israelense ao território, uma situação sem aparentes indícios de melhora.

Na noite de 14 de junho de 2007, os homens do Hamas venceram as forças leais ao presidente palestino e líder do Fatah, Mahmoud Abbas, após uma semana de sangrentos confrontos de rua que deixaram mais de 100 mortos.

A batalha marcou o apogeu da divisão entre as duas principais facções palestinas (que as intermináveis negociações de reconciliação não conseguiram ainda resolver) e levou Israel a apertar ainda mais o cerco que tinha instaurado à Faixa de Gaza um ano antes, após a captura do hoje livre soldado Gilad Shalit.

Israel declarou Gaza como ”entidade inimiga”, proibiu as exportações e permitiu apenas a entrada de bens humanitários, o que – com o aval do Egito do então líder Hosni Mubarak – provocou um golpe mortal à indústria e ao comércio da Faixa, onde vivem 1,6 milhão de pessoas, 80% das quais depende da ajuda humanitária.

Após as críticas internacionais ao ataque das Forças Armadas israelenses contra o comboio humanitário conhecido como Flotilha da Liberdade – fato que culminou com a morte de oito ativistas turcos e um turco-americano -, Israel reduziu as restrições a Gaza, o que promoveu relativas melhoras, mas o território permanece bloqueado à livre exportação e à movimentação de pessoas.

”O bloqueio danificou o tecido social da população palestina e a sociedade se dividiu em dois grupos: os que apoiam o Hamas e os que apoiam o Fatah. E ambos se odeiam”, lamenta Yazid Hwaihi, líder máximo local do Fatah.


Como a Cisjordânia é controlada pelo governo do Fatah, há dois governos palestinos que duelam e reivindicam igualmente a própria legitimidade, num cisma ideológico que se soma ao territorial.

”A divisão entre Gaza e Cisjordânia danificou três coisas básicas: a economia, as relações sociais e a situação política. Também afetou nosso projeto de estabelecer um Estado palestino independente nos territórios que Israel ocupa desde 1967”, acrescenta Hwaihi.

Nas ruas, impera a sensação de que o enfrentamento interno e o bloqueio transformaram a vida em uma tarefa a cada dia mais difícil. Entre as principais preocupações, destacam-se o alto desemprego (em torno de 40%) e os frequentes blecautes de energia (entre 8 e 18 horas).

”Ainda me pergunto por que estão divididos. O que ganham com isso? A divisão afetou negativamente todos os aspectos econômicos e sociais da vida”, diz Abu Ahmed Awaja, taxista de 54 anos. ”Infelizmente, os líderes tanto do Fatah como do Hamas só buscam seus interesses particulares, enquanto o povo acaba sempre pagando pelos erros dos líderes”.

Abu Ibrahim, um vendedor de bicicletas, se soma às críticas ao governo do Hamas. ”Nossa vida se paralisou política, social e economicamente desde o primeiro dia em que o Hamas tomou Gaza. Nos enganaram com slogans para servir seus próprios interesses às custas do sofrimento do povo. Se o Hamas não tivesse assumido o poder, acho que não teríamos presenciado todo este sofrimento”.


Já para o taxista Abdullah Abu Samrah, de 29 anos, o aspecto religioso do Hamas beneficia a Faixa de Gaza. ”Somos muçulmanos e o islã é a solução. Nosso povo confia no Hamas porque ele aplica o islã frente à corrupção e a anarquia. Veja os países árabes que tentaram regimes liberais e seculares, o que aconteceu com eles? Se corromperam e agiram contra a democracia”.

O porta-voz do Hamas em Gaza, Fawzi Barhoum, insiste que o cisma interpalestino é ”uma etapa temporária na história do povo”. ”O Hamas se viu obrigado a tomar o controle de Gaza para corrigir uma situação de corrupção, anarquia e caos que tinha enterrado a democracia. Acho que, cinco anos depois, o povo palestino quer unidade, assim como o Hamas”.

Em seus cinco anos no poder, o Hamas foi progressivamente impondo medidas de vestimenta e moral (não se pode consumir ou introduzir álcool, por exemplo) e cobra impostos dos produtos que entram do Egito por túneis clandestinos considerados vias alternativas ao bloqueio israelense.