Pinheiros, o largo da Batata

Prefeitura e empresários tentam recuperar centro comercial do bairro

A Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), criada por imigrantes japoneses produtores de batata, instalou-se em Pinheiros na década de 20. O bairro recebia assim mais uma confirmação de sua inequívoca vocação comercial — fundado como aldeamento indígena ainda no século 16, Pinheiros sempre se destacou como entreposto de circulação de mercadorias e acesso à região central. Nos anos 80, a CAC chegou a ser uma das 50 maiores empresas do Brasil. Mas em 1994, atolada em dívidas, faliu. Seu fim foi o golpe de misericórdia numa das mais tradicionais áreas do bairro, o largo da Batata. De próspero centro de compras, transformou-se num local poluído e barulhento, sufocado por um terminal de ônibus. Lojas tradicionais deram lugar a ambulantes ilegais, casas de show clandestinas e prostíbulos.

Alguns anos antes de falir, a CAC pretendia erguer um shopping center em seu terreno no largo. Do sonho resta apenas uma estrutura metálica abandonada. Mas, em breve, se tudo correr como o planejado, esse mesmo local será motivo de orgulho para o bairro de Pinheiros. Nele surgirão um centro cultural e uma moderna torre de escritórios. Diante dos dois edifícios haverá uma agradável esplanada cortada pela avenida Brigadeiro Faria Lima, remodelada com uma suave curva. O projeto, concebido pelo arquiteto Tito Livio Frascino, deve começar a ser executado em fevereiro do ano que vem.

A revitalização do largo da Batata já esteve nos planos de outras administrações municipais, mas sempre faltava dinheiro para ir adiante. A atual prefeitura vai utilizar recursos da Operação Urbana Faria Lima, obtidos com a cobrança de taxas de quem construiu além do potencial de seu terreno na região. O início das obras está previsto para fevereiro de 2003, quando todo o processo de desapropriações deverá estar concluído. A expectativa é que a revitalização do largo da Batata esteja terminada até setembro de 2004. A prefeitura vai investir 80 milhões de reais no projeto. Metade disso será gasto com as desapropriações.

A degradação do local tornou-se mais visível por causa do contraste com a prosperidade do entorno — dois terços dos 62 000 habitantes de Pinheiros pertencem às classes A e B. Nos últimos anos, com o prolongamento da Faria Lima, a região ganhou modernos edifícios residenciais e empresariais. “O largo acabou virando uma área isolada, excluída da atualização da Faria Lima e da Pedroso de Morais”, afirma a arquiteta Marta Maria Lagreca de Sales, superintendente de desenvolvimento da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb).

O primeiro passo da reforma será transferir o atual terminal de ônibus do largo da Batata para a rua Capri, próxima da marginal Pinheiros. Quando o largo estiver livre do terminal, corredores de ônibus, como a rua Cardeal Arcoverde, ganharão calçadões para estimular o comércio. O piso será próprio para a circulação controlada de carros ao lado dos pedestres. O objetivo é permitir um acesso mais fácil à região — seja para visitas, seja para o abastecimento de lojas. “Isso vai evitar o surgimento de áreas mortas à noite, como acontece em algumas ruas do Centro”, diz Marta.

A prefeitura vai desapropriar uma parte do antigo terreno da CAC, onde erguerá o centro cultural. Ele terá três andares, com um café no topo, e contará com um auditório para 500 pessoas. Na outra porção do terreno serão construídas a torre comercial de 18 pavimentos e uma praça de serviços com dois cinemas e cerca de 20 lojas. Esses dois empreendimentos foram entregues à iniciativa privada. A notícia foi muito bem recebida pelos atuais proprietários do local, representados pela Bolsa de Imóveis de São Paulo. “A prefeitura nos procurou para a desapropriação, mas sugerimos um acordo, praticamente concluído, para construir o edifício e a praça”, afirma Eduardo Belotti Filho, diretor da Bolsa de Imóveis. A intenção é fazer uma construção de alto padrão, nos moldes do Centro Empresarial Nações Unidas, na marginal Pinheiros. “O largo da Batata é muito favorecido geograficamente, fica perto de tudo”, afirma Belotti. “Agora também vai ficar atraente.”

Quem espera com ansiedade a revitalização são os comerciantes das redondezas. “A situação vai melhorar espantosamente, pois o comércio clandestino tende a desaparecer”, afirma Fernando José de Paula e Silva, proprietário da Frioqueijo, distribuidora de produtos alimentícios que fica na rua Fernão Dias, a poucos metros do largo. O estabelecimento é um dos que resistiram à decadência do bairro: funciona há 50 anos lá. “Os comerciantes mais antigos estão otimistas, mas os próximos dois anos devem ser complicados por causa das obras”, diz Paula e Silva, vice-superintendente da Associação Comercial de São Paulo em Pinheiros. Nascido e criado no bairro, onde ainda mora, ele ajudou a montar um grupo para organizar o processo de desapropriações e evitar a especulação imobiliária. “Depois disso, vamos estudar como permitir que os pedestres façam compras aqui durante o período de obras.”

Teodoro Sampaio

A rua Teodoro Sampaio, que desemboca no largo da Batata, também já viveu dias melhores. Diante da sofisticação dos shoppings e da concorrente Gabriel Monteiro da Silva, nos Jardins, a Teodoro estava perdendo consumidores de móveis e artigos de decoração, sua especialidade. “Antigamente, conseguíamos deixar as lojas abertas até as 22 horas”, diz Giorgio Nicoli, empresário do setor moveleiro há 32 anos e diretor da Associação Comercial de São Paulo. “Hoje poucas chegam às 21 horas.” Nicoli possui lojas na Teodoro há cerca de 15 anos, mas seu contato com a rua aumentou após ter adquirido o Casa & Móvel Shopping, que fica no local. Ao assumir a gestão do novo negócio, em julho, ele começou a pensar em como melhorar a apresentação da rua, com calçadas malconservadas e muita poluição visual. “Encomendei um diagnóstico da situação e um plano para mudá-la”, diz. Esse documento foi entregue aos lojistas, que se organizaram numa associação para levar a idéia adiante e ratear os custos. A prefeitura foi contatada e se dispôs a facilitar o andamento das obras.

O projeto, da arquiteta Flávia Ralston, prevê três etapas: troca do calçamento e instalação de luminárias direcionadas aos pedestres, decoração das paredes laterais dos edifícios com painéis de artistas plásticos e, finalmente, eliminação da fiação aérea e implantação de um projeto paisagístico. Para a terceira parte, mais cara, os organizadores esperam contar com parcerias que ajudem no financiamento. Além da má aparência, a falta de segurança afugenta possíveis consumidores da Teodoro. Por isso, o projeto também inclui a contratação de vigilantes particulares.

Uma das idéias é transformar a Teodoro numa opção de lazer aos domingos. “Fecharíamos a rua para os carros, e ela se tornaria um local agradável para vir com a família e planejar a decoração do lar”, diz Nicoli. Inicialmente, as mudanças vão se concentrar nos quarteirões que ficam entre a rua Fradique Coutinho e a praça Benedito Calixto. Dos cerca de 130 moveleiros da área, metade freqüenta as reuniões. A mobilização já está fazendo efeito nos quarteirões vizinhos. “Lojistas de outras ruas, como a Cardeal Arcoverde, já estão nos procurando”, afirma Nicoli. “Nossa intenção é que a iniciativa se multiplique.” A expectativa é que a calçada já seja substituída entre dezembro e janeiro. As outras mudanças serão feitas paulatinamente. “É um processo que deve durar anos.”