Peso argentino cai 41,9% após fim das restrições cambiais

Em outros bancos e casas de câmbio do centro financeiro de Buenos Aires, a moeda americana era vendida hoje em torno de 14 pesos por unidade

Buenos Aires – O fim das restrições para as operações em moeda estrangeira na Argentina decidido ontem pelo novo governo do país provocou nesta quinta-feira uma forte desvalorização de quase 42% do peso argentino em relação ao dólar.

A moeda americana fechou cotada a cerca de 14 pesos um dia depois de o governo presidido por Mauricio Macri acabar com o chamado “cepo” ao dólar, uma série de restrições aplicada desde 2011.

O fim desse bloqueio fez com que o preço do dólar no Banco de la Nación saltasse dos 9,83 pesos registrados no fechamento de ontem para 13,95 no de hoje, o que significa uma desvalorização de 41,9%.

Em outros bancos e casas de câmbio do centro financeiro de Buenos Aires, a moeda americana era vendida hoje em torno de 14 pesos por unidade.

O valor alcançado nesta quinta-feira se aproxima ao do denominado “dólar contado com liquidação”, uma taxa de câmbio utilizada entre grandes operadores e que economistas e até o ministro de Fazenda, Alfonso Prat-Gay, apontaram como o mercado mais representativo para o preço do dólar.

Esse dólar tinha fechado na quarta-feira cotado a 14,32 pesos, mas hoje caiu para 13,85 pesos.

Já no mercado ilegal, que floresceu após a imposição das restrições no mercado formal, o chamado “dólar blue” caiu hoje nove centavos, para 14,48 pesos, apenas 3% a mais que o preço oficial, quando até ontem a diferença era próxima de 48%.

O fim do “cepo” foi anunciado pelo governo de Mauricio Macri na quarta-feira quando os mercados já tinham fechado, e hoje casas de câmbio e bancos tentavam se adequar às novas condições.

Os bancos demoraram algumas horas para preparar seus sistemas para vender divisas, tanto nas agências como pela internet, sem uma autorização do Fisco, como era exigido até ontem.

“Hoje ainda não é um dia normal porque o mercado não funciona com fluência, mas nos próximos dias vai se normalizar”, comentou o economista Martín Redrado, ex-presidente do Banco Central.

Embora Redrado tenha classificado o fim das restrições como “positivo”, advertiu que deve ser analisado como isso se refletirá nos preços, em um momento no qual a Argentina tem uma taxa de inflação anual próxima de 25%.

Neste sentido, Hugo Moyano, líder da Confederação Geral do Trabalho, alertou também nesta quinta que a central sindical não permitirá que o fim das restrições afete o “poder aquisitivo do salário” dos trabalhadores.

Para Gabriel Torres, vice-presidente da agência de classificação de risco Moody’s na Argentina, a decisão do governo “provavelmente reduzirá as distorções do mercado”.

“Isto deveria fazer com que as exportações sejam mais competitivas e atrair mais investimentos estrangeiros para a Argentina”, afirmou Torres.

O presidente da Bolsa de Comércio de Buenos Aires, Adelmo Gabbi, comemorou hoje o fim das restrições, uma das grandes promessas de campanha de Macri, que assumiu a presidência há uma semana.

Gabbi disse que “há muitos anos que se esperava a normalização da economia, para que a Argentina seja um país elegível no mundo para investir”.

“Este governo não tem culpa de ter de desvalorizar (a moeda). Todos sabíamos que o dólar a 9,7 pesos não tinha o verdadeiro valor, mas todos falávamos em um preço muito superior”, afirmou Gabbi.