Os nove mandamentos do Media Lab

Whiplash: How to Survive Our Faster Future
Autores: Joi Ito e Jeff Howe
Editora: Grand Central Publishing
320 páginas

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David Cohen

A tela sensível ao toque que domina o mundo dos tablets e smartphones; a tinta eletrônica que caracteriza o Kindle e demais aparelhos de leitura; o início das pesquisas com próteses robóticas; os primeiros protótipos de tecnologias para vestir (como óculos ou relógios); o GPS, sistema de orientação por satélites que mudou o trânsito, originou a criação de startups bilionárias e está evoluindo para um sistema de carros sem motorista…

Tudo isso surgiu no Media Lab do Massachusetts Institute of Tecnology (MIT), uma das universidades de maior prestígio dos Estados Unidos. Criado nos anos 1980 com a missão de “inventar um futuro melhor”, o Media Lab não tem decepcionado. Nenhuma dessas pequenas revoluções, no entanto, constitui o maior orgulho do diretor do Media Lab, o japonês Joi Ito. “Essas inovações são importantes”, disse ele à revista americana Wired, em março de 2015. “Mas o mais importante é que nós estamos criando uma nova maneira de pensar sobre a inovação, e um novo modo de pensar no design.”

É esta nova maneira de pensar a inovação que ele apresenta no livro Whiplash: How to Survive Our Faster Future (“Chicotada: como sobreviver a um futuro cada vez mais veloz”), escrito em parceria com Jeff Howe, professor assistente do Media Lab e criador do termo crowdsourcing ou financiamento colaborativo.

Ito é, ele próprio, um símbolo desses novos tempos que o Media Lab busca disseminar. Diretor de um laboratório acadêmico, ele entrou em duas universidades, mas não se formou em nenhuma delas. Empreendedor, ele fundou várias companhias. Entre elas, o PSINet, um dos primeiros provedores de acesso à internet no Japão. Como investidor, ajudou a financiar o lançamento da rede social Twitter e do site de fotos Flickr, dentre outras startups. Sua indicação para dirigir o Media Lab foi considerada “uma escolha pouco comum”, pela falta de títulos acadêmicos. Mas casa-se perfeitamente com o espírito da instituição. Nesse caso, pelo menos em parte, o mestre é a mensagem.

Nove pontos

Desde o final dos anos 1990 se fala na aceleração das mudanças, no valor da resiliência e da flexibilidade, na necessidade de aceitar riscos e na falência dos sistemas de controle. Cada um desses temas, aliás, tem inúmeros estudos e livros de autoajuda por trás para estabelecer a nova receita sobre como prosperar na modernidade. Ainda assim, Ito e Howe conseguem algum grau de originalidade. E alguns novos insights sobre temas já um tanto batidos. A ideia que sustenta Whiplash é uma frase do escritor americano-canadense William Gibson, de que “o futuro já está aí, ele apenas está mal distribuído”.

Por essa lógica, os exemplos pinçados da vanguarda tecnológica irão inexoravelmente se espalhar por toda a economia, por toda a sociedade. Não é um argumento irresponsável, mas tampouco irrespondível. É muito possível que o futuro – qualquer futuro – que se imagine fique restrito a bolsões, nichos, elites… ou que simplesmente desapareça. É da natureza das tendências que elas raramente se cumpram de acordo com as extrapolações iniciais. Mas os nove princípios que guiam o Media Lab merecem atenção.

1 – A emergência supera a autoridade

Emergência não é o sentido de pressa que se adquire ante uma situação inusitada. É o conceito de que a ordem emerge “de baixo”, em vez de ser imposta “de cima”. Ela acontece quando “uma multidão de pequenas coisas – neurônios, bactérias, pessoas – exibe propriedades além da habilidade de qualquer indivíduo”, dizem Ito e Howe.

O exemplo clássico é o comportamento de colônias de formigas ou abelhas. Ou o nosso cérebro – onde reações químicas simples se combinam para formar o maior dos mistérios, nossa consciência.

Ocorre que, num mundo em que a tecnologia se difundiu, as ferramentas ficaram baratas, a comunicação é liberada e a autoridade vive sob constante desafio. Esse argumento já foi minuciosamente explorado, no campo político, pelo venezuelano Moisés Naím (um ex-aluno do MIT), no livro O Fim do Poder. Ou, no campo da gestão, pela professora de liderança Barbara Kellerman, no livro The End of Leadership (“O fim da liderança”). No campo dos negócios, esse argumento é subjacente à tão decantada “inovação disruptiva”, popularizada pelo professor de Harvard Clayton Christensen. O ponto central é que o centro está perdendo terreno para as periferias. Porque a informação está na ponta, ou porque há outras formas de se conectar, hoje, que não necessariamente passam por um comando único.

Isso ajuda a explicar a “primavera árabe”, a onda de revoluções no Oriente Médio que derrubou ou desestabilizou regimes autoritários a partir de 2010 – embora o resultado não tenha sido o que esperavam os mais otimistas, levando inclusive ao surgimento do grupo extremista islâmico Isis.

2 – Puxar é melhor que empurrar

Na mesma linha de que o poder se desloca para as pontas, a ideia é que a melhor distribuição (de energia, de verbas, de qualquer coisa) é obtida quando se entrega apenas na medida do que vai ser usado.

Também há um livro especificamente sobre esse tópico (que os dois autores recomendam, inclusive): The Power of Pull (“O poder de puxar”, numa tradução livre), de John Seely Brown, um consultor e pesquisador no campo da administração. O exemplo mais marcante do capítulo é uma história pessoal de Ito. Quando ele estava no processo de entrevistas para o cargo de diretor do Media Lab, em 2011, ocorreu o terremoto seguido de tsunami em Fukushima, no Japão, que destruiu uma usina nuclear.

Junto com uma rede de japoneses que estavam fora do país, Ito montou uma organização de auxílio ao país que conseguiu contadores Geiger, para medir a radiação nas áreas próximas ao desastre. Seis meses depois, “a equipe descobriu que muitas pessoas retiradas de suas casas foram enviadas para locais mais contaminados do que aqueles dos quais haviam saído”, diz. Os dados do governo, em grande parte coletados de helicópteros, eram menos precisos que os dos voluntários, organizados em rede.

3 – A bússola é melhor do que mapa

Num mundo em constante mudança, os mapas são de pouca valia. Uma bússola, não. Porque, por mais que você encontre novos obstáculos, sempre saberá a direção geral que precisa tomar. Pode desviar, mas saberá regressar ao caminho.

4 – O risco é melhor do que a segurança

Talvez o mais amplamente disseminado. Ito tem também uma história pessoal sobre o tema. Para decidir se investiria 600.000 dólares em um projeto dele, uma companhia encomendou um estudo de uma consultoria… que custou 3 milhões de dólares. No mundo veloz, de tecnologias popularizadas, de produção enxuta, de possibilidade de fazer protótipos baratos rapidamente, o pensamento antigo, da segurança, perde sentido em relação às apostas inteligentes. É o mundo dos investidores de risco, do venture capital. Essas apostas, porém, têm um lado pragmático que pode ser cruel. Se uma iniciativa começa a dar errado, não se deve “jogar dinheiro bom em cima de dinheiro ruim”. Ou seja, se o produto não deslanchar, desista rapidamente.

5 – Desobedecer é melhor do que cumprir

Trata-se de um elogio à cultura da ousadia do Vale do Silício. Ito gosta de dizer que “não se ganha um Prêmio Nobel por fazer aquilo que lhe foi ordenado”. Claro, o duro aqui é saber o quanto, quando e como desobedecer.

6 – A prática é mais importante que a teoria

7 – A diversidade ganha da habilidade

Um dos exemplos aqui é o Innocentive, um sistema de inovação aberta fundado em 2000 pelo laboratório Eli Lilly, que distribui problemas para uma comunidade de fora da empresa.

8 – A resiliência ganha de força

O exemplo: para conter ataques de hackers, não adianta construir muralhas. É preciso apostar em múltiplos e constantes esforços de combater os vírus de computador à medida em que são criados.

9 – Sistemas ganham de objetos

“O Google enfatizou que seu carro sem motorista é apenas um objeto. A inteligência artificial que o guia é o sistema, que precisa estar inserido perfeitamente.” Como se pode perceber, não há assim nenhum princípio exatamente novo. Mas, mesmo tão repetidos, eles sempre parecem um pouco poéticos, coisa de sonhador. Ito e Howe mostram exemplos práticos de pesquisas do Media Lab que se guiam por eles – do programa que ensina crianças a programar computadores à experiência de editar os genes de organismos como os de ratos ou mosquitos para evitar que eles transmitas doenças como a doença de Lyme ou a malária.

Talvez mais inspiradoras que os princípios, duas crenças do Media Lab dão o que pensar. A primeira é que o laboratório “só trabalha em coisas que ninguém esteja trabalhando, e se alguém começar a trabalhar nisso, nós partimos para outra”. Como diz o químico e geneticista George Church, “se você está competindo, não é interessante”. A segunda crença inspiradora é que as disciplinas, as áreas de conhecimento, são insuficientes para dar conta da realidade. O caminho da inovação está fora delas. “Nós encontramos muito espaço além ou entre as disciplinas que existem hoje”, diz Ito.