Onde nascem as inovações do pré-sal

Centro de pesquisas da Petrobras tem 2.000 funcionários e desenvolve tecnologias para retirar o petróleo de poços ultraprofundos

O anúncio da descoberta das reservas na camada pré-sal – com seus cerca de 100 bilhões de barris estimados para a faixa que vai do Espírito Santo a Santa Catarina – gerou a expectativa de que o Brasil se torne uma das principais potências produtoras e exportadoras de petróleo. Junto com a boa notícia, porém, veio a incômoda questão: onde encontrar equipamentos para retirar o petróleo incrustado a mais de 5 000 metros abaixo da superfície, numa área jamais explorada comercialmente? Não existem no mercado tecnologias já prontas para trazer o petróleo da camada do pré-sal, e os fornecedores de equipamentos estão se adaptando aos poucos. “Nessa área não existem professores, estamos todos aprendendo ao mesmo tempo”, diz Cristiano Sombra, coordenador do Programa Tecnológico para Desenvolvimento da Produção do Pré-Sal, da Petrobras.

Enquanto a indústria ainda busca respostas para a exploração em águas ultraprofundas, algumas questões começam a ser solucionadas pelos laboratórios, como o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello, o Cenpes, da Petrobras. Localizado na Ilha do Fundão, distante cerca de 10 quilômetros da sede da estatal, no centro da capital fluminense, ele é o braço de inovação da empresa. Uma das missões do órgão no pré-sal é pensar, projetar e testar alternativas para perfuração, extração e até logística do transporte do óleo. Atualmente os geólogos e geofísicos fazem simulações tridimensionais, de resistência das rochas e de materiais que serão utilizados na exploração. Uma das perguntas já respondidas pelo time é como controlar a pressão nos poços e obter mais produtividade – com o uso de gases e água para sustentar a rocha que abriga as gotículas de óleo. O laboratório também descobriu formas de reduzir o tempo de perfuração dos poços do pré-sal de cerca de 18 meses para três meses. “Descobrimos tecnologias que evoluíram e fizeram os custos diminuir”, afirma José Miranda Formigli Filho, gerente executivo do pré-sal. “Os primeiros poços custaram 240 milhões de dólares, agora, chegamos a cerca de 80 milhões de dólares”.

Com 137 laboratórios e mais de 2.000 funcionários, o Cenpes parece um grande campus universitário, com grandes áreas verdes e espelhos d’água. A Petrobras acredita que esse ambiente estimula a criatividade e a descoberta de novas tecnologias. Os estudos do pré-sal, no entanto, vão além das paredes dos laboratórios. Geólogo há 31 anos na empresa, o próprio coordenador de desenvolvimento do pré-sal praticamente cruzou o mundo nos últimos dois anos, da Austrália à Argentina, passando por Omã e Estados Unidos, para estudar rochas semelhantes às do pré-sal. “Conhecer as propriedades dessas rochas eram os primeiros passos para compreendermos as características das rochas das águas ultraprofundas”, diz Sombra. As viagens deram resultado. Hoje, o grupo de pesquisadores acredita que já conseguiu decifrar aspectos significativos das rochas, como porosidade e resistência.

A Petrobras investiu no ano passado 1,7 bilhão de reais em sua própria área de pesquisa e desenvolvimento. Além dos grupos internos, a empresa também mantém 38 redes de pesquisas compostas por até oito universidades cada uma para ajudar na solução das questões relativas ao petróleo. O orçamento anual destinado às universidades é de 400 milhões de reais e, ao contrário do que acontece em diversas áreas, a academia não fica restrita aos aspectos teóricos do setor de petróleo e tem gerado laboratórios e projetos práticos para aproveitamento imediato na construção da cadeia do pré-sal. (Continua)


A Coordenação de Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro, por exemplo, tem áreas específicas para a realização de testes de desempenhos para o pré-sal, como o tanque oceânico capaz de reproduzir as condições de pressão no fundo do mar, até o laboratório de corrosão de soldagem, que estuda a resistência necessária para dos dutos. Em novembro, a universidade também terá o maior centro de visualização de computação da América do Sul, que fará as simulações dos controles para os poços do pré-sal.

As empresas também estão aproveitando a proximidade com as universidades. Há duas semanas, a multinacional Schlumberger, de serviços, assinou um contrato para construção de um centro de pesquisa internacional para tecnologias do pré-sal na Coppe. O centro atuará no desenvolvimento de software de geociências para o setor de exploração e produção, novas tecnologias para os desafios de produção e caracterização de reservatório no pré-sal, e a criação de um centro de excelência em processamento e interpretação geofísica, cobrindo tecnologias de 4D e medições sísmicas e eletromagnéticas. “Esse é uma das poucas áreas em que a universidade consegue antever as necessidades práticas e trabalhar próxima à indústria”, diz o professor Segen Stefen, diretor de tecnologia e inovação da Coppe.

Estima-se que os investimentos totais no setor cheguem a 190 bilhões de dólares até 2013, o que significa que o preço do barril não pode despencar nos próximos anos para compensar os gastos do pré-sal. Segundo Formigli, se o preço ficar entre 35 e 40 dólares, os investimentos já terão compensado. “Se o barril permanecer neste preço, vale o risco de exploração do pré-sal. Mas os desafios não estão apenas em trazer o petróleo e o gás à superfície, mas de transportá-los para terra. A logística é uma pergunta ainda não respondida também”, diz David Zylberstajn, ex-presidente da Associação Nacional do Petróleo (ANP) e especialista no setor. Ao que tudo indica, as perguntas que ainda virão são muito maiores do que as que foram respondidas.