Ofensiva contra subornos ajudaria crescimento da China

Economistas preveem que a ofensiva anticorrupção de Xi Jinping ampliará o crescimento chinês em 0,1% a 0,5% em 2020

Pequim – O champanhe deixou de circular em Pequim e Jörg Wuttke não poderia estar mais feliz com isso.

A ofensiva do presidente Xi Jinping sobre coisas que vão da entrega de presentes até os vinhos e jantares em excesso está nivelando o campo de jogo empresarial, disse Wuttke, presidente da Câmara Europeia de Comércio na China, em Pequim.

Mesmo com investigações antitruste visando empresas estrangeiras como a Microsoft Corp. e a Qualcomm , a campanha anticorrupção do governo está tornando um aspecto do negócio mais fácil na segunda maior economia do mundo.

“Isso leva o estresse embora”, disse Wuttke, que chefia uma câmara que tem como membros a Airbus Group NV e a Bayerische Motoren Werke AG.

“Você não fica com receio de alguém receber determinado pedido porque encontrou um champanhe melhor ou algo assim. Ainda não é Cingapura, mas é uma evolução muito positiva”.

Os economistas preveem que a ofensiva de Xi ampliará o crescimento do produto interno bruto em 0,1 ponto porcentual a 0,5 ponto porcentual em 2020, segundo a média das estimativas em uma pesquisa da Bloomberg News com 17 economistas.

Isso equivaleria a um dividendo de até US$ 70 bilhões em termos do dólar de hoje, o tamanho da economia do Sri Lanka, quando os prejuízos para os negócios causados pelas propinas diminuírem.

“As medidas anticorrupção ajudam a economia a longo prazo porque reduzem os custos empresariais”, disse Chang Jian, economista-chefe para a China do Barclays Plc em Hong Kong.

“Assim como uma reestruturação corporativa, isso traz efeitos a curto prazo mas têm benefícios no futuro”.

480 funcionários

Até aqui, a campanha de Xi para apanhar “tigres e moscas”, um jargão para os quadros de alto e de baixo escalão, alcançou mais de 480 funcionários, abrangendo todas as províncias e as maiores cidades da China.

Xi, que se tornou presidente no ano passado, está tentando diminuir uma cultura de suborno e corrupção que tem prejudicado a legitimidade do governo e comprometido o crescimento econômico.

A China ficou em 80º lugar no Índice de Percepção de Corrupção da Transparência Internacional em 2013, abaixo de países como Senegal e Tunísia. Cingapura foi classificado como o país com menos corrupção da Ásia.

As campanhas anticorrupção de Hong Kong e Cingapura na primeira metade dos anos 1970 são um precedente que mostra que elas podem ser o trampolim para acelerar a produção, segundo um relatório da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico.

As campanhas ajudaram a elevar a renda per capita dos países bem acima da média da OCDE para 2011, disse o relatório.

Impacto Xi

O impacto imediato das medidas de Xi está atingindo a receita das mesas de blackjack de Macau, das boutiques de luxo de Hong Kong e dos hotéis e restaurantes de alto padrão de todas as maiores cidades da China.

O crescimento será 0,1 ponto porcentual a 0,4 ponto porcentual mais baixo com a campanha neste ano e no próximo, segundo a média das estimativas de economistas consultados por telefone e e-mail de 11 a 22 de setembro.

Outra pesquisa mensal de setembro apontou que os economistas rebaixaram as projeções de crescimento do PIB depois que os dados mostraram que a produção industrial e o investimento estavam desacelerando.

A estimativa média para expansão no terceiro trimestre caiu de 7,4 por cento em agosto para 7,2 por cento, enquanto a projeção para 2015 teve um declínio de 7,2 por cento para 7 por cento.

Para que os ganhos econômicos decorrentes da campanha anticorrupção se materializem, Xi precisa seguir adiante com mudanças adicionais que incluem uma maior prestação de contas, mais normas jurídicas, menos espaço para decisões arbitrárias e liberalização do setor financeiro, disse Louis Kuijs, economista-chefe do Royal Bank of Scotland Group Plc para a Grande China em Hong Kong.

“As campanhas anticorrupção e contra gastos excessivos devem vir junto com mais mudanças sistêmicas”, disse Kuijs, que antes trabalhou no Banco Mundial.

“Essas mudanças sistêmicas devem levar a um crescimento um pouco melhor da produtividade e a uma alocação um pouco melhor dos recursos financeiros”.