O tubarão solto de Wall Street

Black Edge: Inside Information, Dirty Money, and the
Quest to Bring Down the Most Wanted Man on Wall Street
Autor: Sheelah Kolhatkar
Editora: Random House. 368 págs.

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David Cohen

Em dois filmes dirigidos por Oliver Stone, Wall Street e Wall Street 2, Gordon Gekko (interpretado por Michael Douglas) é um grande investidor inescrupuloso. No primeiro filme, Gekko é condenado a oito anos de prisão por se servir de informações privilegiadas. Agora imagine que o roteiro fosse um pouquinho diferente: em vez de colaborar com a polícia e gravar uma conversa incriminatória com Gekko, o corretor que ele usou para obter as informações ilegais, Bud (Charlie Sheen), se recusasse a denunciá-lo, e o máximo que as autoridades conseguissem fosse um acordo em que Gekko admitisse que não supervisionou seus funcionários como deveria.

Esse roteiro modificado teria muito menos força como a catarse cinematográfica contra os exageros de Wall Street, mas estaria bem próximo da história real de Steven Cohen (nenhum parentesco com o autor desta resenha), de acordo com Sheelah Kolhatkar, autora do livro Black Edge: Inside Information, Dirty Money, and the Quest to Bring Down the Most Wanted Man on Wall Street (Vantagem negra: informação privilegiada, dinheiro sujo e a missão de derrubar o homem mais procurado de Wall Street, numa tradução livre).

No caso de Cohen, nem o FBI (a polícia federal) nem a SEC (a agência reguladora do mercado financeiro, equivalente americano da CVM) conseguiram montar um caso convincente – mesmo depois de oito anos de investigações. Tiveram que se contentar com um processo contra a firma de Cohen, a SAC, que levou a uma multa recorde de 1,8 bilhão de dólares — gigantesca para um negócio qualquer, pequena para o montante de recursos que ele geria — e à suspensão de suas atividades. Como resultado do acordo para encerrar o processo, em janeiro de 2016, Cohen foi proibido de gerir recursos alheios por dois anos. A SAC foi fechada e ele inaugurou a Point 72 Asset Management, que gere cerca de 11 bilhões de dólares de sua fortuna pessoal.

É amplamente especulado que em janeiro do ano que vem, quando finda a sua quarentena, Cohen volte a operar com verbas de investidores. É também amplamente esperado que não lhe faltem verbas para gerir. Mais do que a história detetivesca de alguém que sobreviveu à operação de caça montada pelas autoridades americanas, o livro de Sheelah é um mergulho nas entranhas dos fundos de investimentos, especialmente os hedge funds. Cohen foi a grande estrela desse tipo de fundos durante vários anos, em suas diversas fases. Sua história é uma aula sobre o funcionamento dos mercados financeiros.

A farra dos hedge funds

A história dos hedge funds, ou fundos de proteção, remonta à década de 40, mas sua atual versão tem início no final dos anos 80 — tratava-se, a princípio, de um serviço fornecido por pequenas firmas, dirigido a garantir retornos modestos porém seguros para grandes fortunas. A proteção consistia em manter um equilíbrio de apostas em ações, com posições vendidas (short, na terminologia em inglês), que preveem queda do valor das ações, e compradas (long), que preveem aumento. Em geral, as apostas vendidas são feitas com empréstimos: a ação é reservada, vendida no mercado e, uma vez que o preço dela caia, recomprada para ser devolvida ao dono original.

Mas esta é uma atividade de risco, porque se o preço subir, em vez de cair, o investidor pode ter de aportar muito mais dinheiro do que já tinha comprometido. Como a maioria dos fundos operava com grande alavancagem (um nível de empréstimos bem maior do que seu caixa), os reguladores restringiram as operações de hedge a investidores mais “sofisticados”. Lá pelos anos 2000, os fundos hedge perderam o sentido original de proteger o patrimônio com estratégias equilibradas e passaram a significar firmas de investimentos pouco reguladas. Passaram a se caracterizar, então, pelas estratégias ousadas para obter retornos extraordinários.

Em 2006, a remuneração de 54 milhões de dólares do CEO do banco de investimentos Goldman Sachs, Lloyd Blankfein, provocou uma onda de protestos. Pois naquele mesmo ano, aponta Sheelah, o gestor de hedge fund que menos ganhou dinheiro, entre os 20 principais fundos do país, levou para casa 240 milhões de dólares. Cohen, o quinto da lista naquele ano, embolsou 900 milhões de dólares. Cohen não era apenas um dos mais bem-sucedidos do ramo. Ele era um ícone. Foi descrito pelo The Wall Street Journal como “o rei dos hedge funds”. Entrou na lista da revista Time das 100 pessoas mais influentes do mundo. Fez, em pouco tempo, uma fortuna que hoje é calculada em 13 bilhões de dólares (a trigésima maior dos Estados Unidos, segundo a revista Forbes).

Durante duas décadas, sua firma de investimentos deu retorno de 27% ao ano, com exceção apenas de 2008, o ano do estouro da crise mundial. A impressão geral era de que Cohen estava sempre “do lado certo” de qualquer transação financeira. Isso levou a desconfianças. Para estar sempre “do lado certo” de uma aposta, era crucial ter informações valiosas. Os hedge funds em geral fazem esforços consideráveis para obter essas informações: contratam cientistas, matemáticos e economistas, pagam pessoas para olhar prateleiras nos supermercados e relatar como estão indo as vendas, estudam imagens de satélites de estacionamentos para averiguar se estão cheios ou vazios (avaliando sinais de atividade econômica), oferecem jantares extravagantes a CEOs de empresas na tentativa de pescar alguma informação.

Qualquer informação pode ser uma vantagem na hora de investir. Um analista da empresa de Cohen chegou a categorizar os tipos de vantagem: a branca (a informação óbvia, que qualquer um pode encontrar em relatórios públicos ou em pesquisas); a cinza (aquele terreno duvidoso, como quando um diretor de empresa comenta que “as coisas estão um pouco mais devagar do que esperávamos”, dias antes de divulgar os resultados trimestrais); e a negra, aquela indiscutivelmente ilegal – que dá título ao livro. Do modo como Sheelah apresenta sua história, dificilmente algum leitor não sairá convencido de que Cohen tinha um esquema altamente elaborado para obter o terceiro tipo de vantagens, black edge, as informações negras. Não custa lembrar, no entanto, duas coisas. A primeira: ele não foi condenado, sequer processado por isso. A segunda: o autor desta resenha não tem absolutamente nenhuma relação com o investidor.

Talento, trabalho… e algo mais?

Embora a constância dos resultados suscite suspeitas, boa parte do sucesso de Cohen pode ser atribuída ao seu notável talento. Aparentemente, Cohen se destacou desde cedo. A avó se referia a ele como o “lápis mais pontiagudo da caixa”. Na infância no subúrbio de Nova York, a mãe costumava lhe dar bife, enquanto os irmãos (dois mais velhos, cinco mais novos) comiam salsicha. Quando um dos irmãos reclamou, a mãe respondeu: “algum dia o Steve vai nos sustentar a todos”. A família era pobre, mas quando Cohen foi admitido em Wharton, os pais usaram suas economias para pagar a faculdade e ele trabalhou para pagar o alojamento e os livros. Ingressou numa das duas fraternidades de alunos judeus, a Zeta Beta Tau, iniciais gregas que jocosamente muitos diziam significar Zilhões, Bilhões, Trilhões.

Logo após começar a trabalhar numa pequena empresa de investimentos, virou uma estrela na firma, ganhando de 5 a 10 milhões de dólares por ano. Ali teve sua primeira rusga com a justiça americana. Indiciado por suspeita de negociar com base em informações privilegiadas, apelou para a quinta emenda da Constituição americana (ninguém deve ser compelido a prestar testemunho contra si próprio) e o caso não foi para a frente, por falta de provas.

Líder de um grupo de corretores, Cohen também já demonstrava seu jeito especial de lidar com pessoas. Quando se divorciou, no final da década de 80, deixou para a mulher o apartamento de 500 metros quadrados, mais 1 milhão de dólares, fora o acordo de pagamento das despesas do casal de filhos. Era um acordo e tanto – ele afirmara que só tinha 17 milhões de dólares, metade empatada num negócio imobiliário. Mesmo assim, ficou irritado. E descontou nos funcionários. “Acabei de ser depenado pela minha mulher”, teria dito. “Vou recuperar tudo cortando as comissões de vocês.” Cohen já ganhava 60% dos lucros de sua divisão. Subiu sua cota em cinco pontos percentuais.

A “taxa de convicção”

Em 1992, aos 36 anos, Cohen montou sua própria empresa de investimentos, a SAC (suas iniciais). Começou com 23 milhões de dólares, cerca de 10 milhões dele mesmo. Em três anos, já tinha quase 100 milhões. Ia tão bem que cobrava uma comissão de 50% dos lucros. O usual era 20%, mas os clientes aceitavam. No final da década, já tinha 1 bilhão de dólares em sua carteira. E chegaria a 17 bilhões de dólares em 2008, metade disso capital de Cohen e seus empregados.

Cohen sempre teve um estilo pragmático e controlador. Fazia questão de observar todas as transações feitas por cada corretor. Para isso, mandou instalar um programa apelidado de “olho do céu”, que lhe permitia ver as compras feitas por qualquer funcionário antes que elas fossem executadas. Isso lhe garantia participar de qualquer negócio que julgasse lucrativo. Cohen era obsessivo com o trabalho. Não apenas ele tinha 12 monitores em sua estação de trabalho, basicamente todas as suas atividades — corte de cabelo, reuniões, massagens — eram realizadas em sua cadeira, para que ele não perdesse um único segundo das movimentações do mercado.

Mais que isso: quando viajava para Las Vegas, para visitar os pais, ou para a Universidade Brown, em que participava do conselho, ou de férias com a família, enviava antes uma equipe de consultores que alugava um quarto extra onde quer que fosse se hospedar e ali montava uma réplica de sua estação de trabalho – para que ele pudesse operar normalmente.

Com base nesse perfil, Sheelah dá a entender que, se houve informação privilegiada, seria de estranhar que Cohen não tivesse conhecimento dela. Ele desenvolveu até um sistema, em que o gerente colocava o nome da ação avaliada, o preço alvo, o tempo sugerido para atingir o potencial daquela ação e uma nota de “convicção”, um número de 1 a 10 que significava o quanto o gestor daquele papel estava seguro de sua opinião.

Essa “taxa de convicção” é um método engenhoso para avaliar o quanto se pode confiar em uma opinião. Estudos de psicologia comportamental revelam que as pessoas comumente acham que têm mais certeza do que realmente têm, e o simples fato de fazer os gerentes pensarem em seu grau de confiança já pode melhorar a qualidade da informação.

Ou então, como dá a entender Sheelah, tratava-se apenas de um método de comunicar a Cohen o valor da informação sem o expor aos detalhes de como a informação foi obtida. Dessa forma, ele estaria a salvo de complicações legais, nos casos de black edge.

Vida que segue

O caso apresentado com mais detalhes no livro é de Mathew Martoma, um funcionário da SAC que se aproximou de um renomado professor de medicina e conseguiu, através dele, informações sobre uma droga que estava sendo desenvolvida para tratar o Mal de Alzheimer. Até uma semana antes da apresentação dos resultados das experiências com a droga, Cohen tinha uma aposta bilionária na alta das ações. Quando foi divulgado que a droga era bem menos eficiente do que se esperava, Cohen não só tinha zerado sua posição de compra como ainda tinha posições de venda – apostando quase 1 bilhão de dólares na queda das ações. A relação entre Martoma e o médico, doutor Sidney Gilman, é elucidativa dos problemas do mercado em geral.

Gilman recebeu uma oferta para se tornar consultor de uma empresa que se definia como “corretora de conhecimento”. O dinheiro era bom, mais do que ele ganhava como professor, e o trabalho era apenas conversar com algumas pessoas sobre um assunto que o apaixonava: a saúde.

Parece inocente, mas há sempre a possibilidade de que alguma fronteira – alguma informação sigilosa – seja cruzada. Um estudo de 2005 revelou que 10% dos médicos dos Estados Unidos têm laços com investidores de Wall Street. É um aumento de 750% em relação a dez anos antes.

Martoma incompreensivelmente recusou-se a testemunhar contra Cohen. Seu testemunho poderia lhe valer uma sentença muito mais branda. Em vez disso, acabou condenado a nove anos de prisão.

Sem um caso sólido contra o gestor, o jeito foi desistir do processo criminal, que exigiria provar sua culpa além de qualquer dúvida razoável, e tocar um processo civil contra a empresa, no qual bastaria provar que a culpa era mais provável do que a inocência.

Apesar da multa de 1,8 bilhão de dólares e da proibição de gerir verbas alheias, a vida seguiu razoavelmente normal para Cohen. Ele vive em sua mansão com a mulher e os sete filhos (o dela, os dois dele e os quatro que tiveram juntos), continuou a adquirir obras de arte (desde o tubarão suspenso em formaldeído, de Damien Hirst, pelo qual pagou 8 milhões de dólares, até O Sonho, de Picasso, que comprou por 150 milhões de dólares), criou um curso para operadores de ações, faz inúmeras doações para entidades filantrópicas ligadas a arte e saúde.

De diferente, mesmo, apenas uma coisa: em vez dos 27% de retorno que teve em média nos últimos 20 anos, no ano passado sua firma de investimentos deu lucro de apenas 1%, muito abaixo da média dos hedge funds, que foi de 5,6%.