O Trump de 29 que arruinou os EUA

Carlo Cauti

“É preciso salvar os empregos americanos, em perigo por causa de muitos Países estrangeiros que vendem seus produtos nos Estados Unidos, minando assim o bem-estar dos honestos trabalhadores americanos”. Levante a mão quem acha que essa frase foi pronunciada por Donald Trump em 2017. Errado. A autoria não é do 45º inquilino da Casa Branca: estamos em 1929, pouco depois da quebra da Bolsa de Valores de Nova York, no começo da Grande Depressão. Era isso que o senador republicano Reed Smoot, presidente da Comissão de Finanças do Senado, defendia em seus comícios.

Empresário do Utah, patriota declarado, missionário mórmon (autoproclamado “profeta”) mas sem o mínimo escrúpulo nos negócios, Smoot tinha interesses em inúmeros setores econômicos, entre os quais a agricultura, mineração, mercado financeiro e empreiteiras. Em particular, os setores do açúcar e da lã eram os pilares de sua fortuna, graças a numerosas indústrias instaladas no Utah. Economista amador, o senador tinha o granítico convencimento que a principal causa do crash de Wall Street tivesse sido o excesso de importações estrangeiras em relação à capacidade de consumo dos EUA. Por esse motivo os preços teriam desabado, provocando a falência de muitas empresas americanas, causando desemprego em massa e levando à famosa “Terça-feira negra”. Na época, essa doutrina era conhecida como “superprodução” ou “subconsumo”. Hoje poderia ser facilmente traduzida no vocabulário trumpista como “concorrência desleal” da China ou do México.

Segundo Smoot, o segredo para a América voltar a crescer e reconquistar seus empregos e seu bem-estar se resumia a uma só palavra: protecionismo. Aumentar os impostos alfandegários ou até proibir a importação de determinados produtos, para reduzir o volume de mercadorias no mercado americano, fazer as fabricas abrirem de novo, contratar gente, estimular os consumos internos e assim colocar de novo a economia nos trilhos. Uma receita que o senador republicano ilustrou a um Congresso e a uma nação prostrados pela crise. E que, após 88 anos, é incrivelmente parecida com o plano econômico de Trump.

Além disso, para Smoot as barreiras tarifárias seriam também uma forma de compensação das milhões de mortes provocadas pela Primeira Guerra Mundial, que teriam reduzido o consumo dos EUA e do mundo. “O mundo”, escreveu Smoot “está pagando por sua destruição implacável da vida e das propriedades e por sua incapacidade de ajustar o poder de compra com a capacidade produtiva da revolução industrial que ocorreu na década após a guerra”.

A proposta do senador do Utah apontava claramente contra as recomendações feitas pela Conferência Econômica Mundial da Liga das Nações, antepassada da Organização das Nações Unidas (ONU) que se reuniu em Genebra em 1927. Em seu relatório final, a Conferência concluía que: “chegou o momento de pôr fim às tarifas alfandegárias e avançar na direção oposta”.

Não é muito diferente do que diz hoje a Organização Mundial do Comércio (OMC), completamente ignorada por Trump. E assim como Trump também Smoot não se importava minimamente com a opinião da Liga das Nações, organismo no qual os EUA sequer tinham ingressado justamente por causa do voto contrário do Senado dominado pelos seus partidários republicanos.

Uma repulsa para qualquer influência internacional que derivava de sua declarada xenofobia. Nada de surpreendente para alguém que nunca saiu dos Estados Unidos durante toda a sua vida, tirando os 10 meses passados em Liverpool como missionário da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, e que tinha-se auto-imposto a missão de “manter a nação limpa de influências estrangeiras insidiosas”.

E fez-se a lei 

E assim, graças ao apoio do influente deputado Willis C. Hawley, depois meses de duros debates e negociações com os congressistas, em junho de 1930 o senador do Utah conseguiu a aprovação do famoso Smoot-Hawley Tariff Act . Além dos políticos republicanos, que votaram maciçamente a favor do protecionismo, os poucos que entendiam alguma coisa do assunto se mostraram muito pouco entusiastas com as idéias de Smoot.

Ao contrário, a intelectualidade americana, e até boa parte dos grandes industriais, como Henry Ford, fizeram uma forte oposição à medida. Entretanto, a lei foi imediatamente sancionada pelo presidente Herbert Hoover, apesar do apelo escrito por mais de mil economistas americanos para que o mandatário não a assinasse. O próprio presidente Hoover, republicano, tinha fortes dúvidas sobre o ato, que ele mesmo chegou a condenar como uma lei “perigosa, excessiva e odiosa”. Pouco antes da aprovação do Smoot-Hawley Act, Hoover tinha recebido notas de protesto de 23 Países, parceiros comerciais dos EUA, que ameaçaram ações de retaliação no caso a lei fosse sancionada. Foram todas ignoradas. Hoover acabou cedendo às pressões de seu partido e das ruas.

O propósito declarado do Smoot-Hawley Tariff Act era assustadoramente semelhante aos objetivos que Trump está apontando hoje. Em suas primeiras linhas, o documento explicava que era “um ato para garantir a renda, regular o comércio com Países estrangeiros, incentivar as indústrias dos Estados Unidos, proteger o trabalho americano, e para outros fins…”. Após ser assinada pelo presidente, em apenas uma noite a medida permitiu o aumento de 60% das tarifas alfandegárias sobre mais de 20.00 produtos estrangeiros, chegando em alguns casos a quadruplicar os valores cobrados para poder entrar em território americano. Smoot anunciou triunfante o começo de “uma nova era de prosperidade” para os Estados Unidos. Entretanto, a lei ajudou a produzir somente um logo período de miséria, provocando de imediato o começo de uma guerra comercial com o resto do mundo.

O Canadá, principal parceiro comercial dos EUA, que sozinho representava 30% das exportações americanas, criticou duramente as novas tarifas e aplicou retaliações sobre os produtos americanos. França, Alemanha e o Império Britânico seguiram o exemplo, voltando-se para mercados alternativos ou desenvolvendo manufaturas que substituíssem os bens adquiridos anteriormente da América.

Começou assim a corrida internacional em direção de sistemas econômicos autárquicos e para levantar barreiras alfandegárias cada vez mais elevadas. Como consequência, o comercio mundial simplesmente secou. Afetando, obviamente, também os EUA. Em menos de três anos, as importações americanas caíram 66%, enquanto as exportações colapsaram 61%. O comércio global também se reduziu em um montante semelhante. Grande parte da frota de navegação do mundo foi desativada e as ordens para novos navios canceladas. Inúmeras grandes indústrias foram afetadas, como as de produção de aço, pesca, agricultura e as manufatura de todos os tipos. A taxa de desemprego americana triplicou de 8% para 25%, e a riqueza dos EUA foi reduzida para metade.

É preciso todavia salientar como no começo a Smoot-Hawley Act parecia ser um sucesso. Segundo o historiador Robert Sobel, “as folhas de pagamento das fábricas, os contratos de construção e a produção industrial aumentaram muito”. No entanto, problemas econômicos maiores surgiram rapidamente e os primeiros a serem atingidos foram os bancos mais fracos, seja nos EUA como no resto do mundo. Um deles foi o Creditanstalt, principal instituição financeira da Áustria, que decretou falência em 1931, afetando a economia de toda a Europa central, gerando ainda mais desemprego e inflação, e propiciando assim a tomada do poder de Adolf Hitler na Alemanha poucos meses depois.

O ultraprotecionismo do Smoot-Hawley Act acabou revelando-se absolutamente inútil, levando os EUA – e o mundo – a se afundar na tragédia da Grande Depressão. Embora os historiadores econômicos ainda debatam sobre a dimensão real do dano causado pelo Smoot-Hawley Act, ninguém duvida que essa medida foi um sério golpe à economia global, particularmente vulnerável naquele momento.

A tragédia era que a lei era uma solução para um problema que não existia. Em seu livro The great crash, dedicado à crise de 1929, o jornalista e escritor neozelandês Selwyn Parker mostra claramente como na verdade naquele momento histórico os Estados Unidos tinham um considerável superávit comercial, já que o crescimento das exportações de seus manufaturados foi mais rápido do que o das importações. Embora as exportações de alimentos estivessem caindo, as exportações de produtos manufaturados mais do que compensaram essa redução.

Entretanto, levaria décadas para que estas políticas ultraprotecionistas fossem completamente eliminadas. O começo do desmantelamento do sistema começou quando Franklin Delano Roosevelt se tornou presidente em 1934, sendo substituindo gradativamente por tarifas alfandegárias mais baixas ligadas a acordos comerciais bilaterais. Mas Smoot também não saiu ileso da tempestade protecionista que desencadeou. Nas eleições 1932, com a depressão que só piorava para trabalhadores e agricultores americanos, “o Grande Protecionista”, como foi apelidado pela imprensa da época, acabou perdendo seu cargo de senador, após quase 30 anos de mandato interruptos. Seu colega Hawley também não foi confirmado em seu assento pelos eleitores. No entanto, Smoot sempre se recusou a admitir seus erros. Até sua morte em 1941, ele permaneceu convencido de que sua lei tivesse apenas uma falha: que as tarifas não tivessem sido aumentadas o suficiente.