O suco virou a salvação das vinícolas

A pequena Flores da Cunha, na Serra Gaúcha, ostenta há anos o título de maior produtora de vinhos do Brasil. A cidade produz cerca de 84 milhões de litros de vinho por ano – o suficiente para cada um de seus 27 000 habitantes tomar 10 litros por dia. É motivo de orgulho, mas os florenses estão dispostos a mudar essa história. A prioridade é fazer de Flores da Cunha a maior produtora de sucos de uva do país.

A cooperativa de vinícolas Nova Aliança, principal produtora de vinhos da cidade, inaugurou, em 2013, uma fábrica de 22 000 metros quadrados na cidade voltada exclusivamente para a produção de suco de uva. Com a nova unidade, a cooperativa, que até 2011 comercializava uma média de 4 milhões de litros de suco por ano, produziu 18 milhões de litros em 2015.

A Nova Aliança é precursora de um fenômeno. Em 2010, os brasileiros tomavam 37 milhões de litros de suco de uva. Em 2015, 117 milhões – três vezes a mais. A explosão aconteceu depois que uma série de estudos científicos mostrou que o suco pode fazer milagres para a saúde. Resultado: de uma hora para a outra, estava cheio de gente querendo tomar suco.

Para as vinícolas, foi uma benção. Apesar de o Brasil fabricar vinho desde o século 19, ter uma vinícola por aqui nunca foi um grande negócio. Nos últimos cinco anos, as vendas caíram 5%. O detalhe é que, enquanto em países tradicionais como França e Itália as uvas viníferas não são boas para suco, no Brasil as uvas mais populares usadas pelas vinícolas são ideais para ser consumidas in natura.

Ou seja: na média, o suco de uva brasileiro é muito melhor que o vinho brasileiro. Hoje, 1 litro de suco integral custa, na média, 5,70 reais. De vinho, 4,80 – isso depois de fermentado e, em alguns casos, envelhecido. Enquanto isso, o mercado de néctar de uva, que leva apenas 50% de suco da fruta e é dominado por marcas como a Del Valle, da companhia de bebidas Coca-Cola, diminuiu 41% em cinco anos.

“As pessoas estão mudando o hábito de consumo, hoje elas prezam pela saúde. As pesquisas dizem que os benefícios do suco de uva integral são os mesmos do vinho, isso impulsionou muito o mercado”, afirma Dirceu Scottá, presidente da Ibravin.

Para a Nova Aliança a demanda veio em boa hora. “O lucro que tínhamos com o vinho estava próximo do zero, as vendas estavam estagnadas. Com o suco integral, a nossa margem de lucro está em torno de 10% e as vendas só crescem”, diz Alceu Dalle Molle, presidente da Nova Aliança. Em 2015, 60% do faturamento da cooperativa, de 135 milhões de reais, veio do suco de uva.

A produção de sucos de uva no Brasil já passou outro suco que, até pouco tempo, era onipresente: o de laranja. Em 1999 a produção de suco de laranja correspondia a 48% dos sucos integrais comercializados no Brasil, percentual que caiu para 16% no ano passado. O suco de uva representa agora 37% do mercado nacional.

O risco, claro, é que o excesso de oferta derrube os preços e leve todo mundo junto para o vermelho. “A tendência é o mercado continuar crescendo por mais alguns anos. Mas muita oferta pode saturar o mercado e aí só sobrevive quem tiver boa qualidade e uma produção grande”, diz Daniel Salton, presidente da Vinícola Salton, que não entrou na moda dos sucos.

A solução é não depender apenas do suco de uva, que tem sua safra anual entre os meses de janeiro e março. A Nova Aliança já estuda produzir outros sucos integrais nos demais meses do ano. A vinícola paranaense Famiglia Zanlorenzi, que há 73 anos produz os vinhos Campo Largo, a previsão é que a receita com a venda de sucos de uva ultrapasse a de vinhos. Esse crescimento animou a empresa a lançar outras bebidas que combinam sucos como o de limão, couve, uva e maçã.

“A gente percebeu que a demanda que estava crescendo não era necessariamente por suco de uva e sim por sucos naturais e saudáveis”, explica Teodósio Piedrahita, diretor comercial da empresa. A era do suco, aparentemente, está só começando nas vinícolas brasileiras.

(Letícia Toledo)