O que vem primeiro, crescimento ou produtividade?

O debate pode ter consequências cruciais na formulação de políticas econômicas

Discussões como a de quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha, costumam ser uma baita perda de tempo. Mas, no caso da produtividade, o debate pode ter consequências cruciais na formulação de políticas econômicas.

O ovo e a galinha, no caso, são o crescimento e a produtividade. A visão clássica é que a segunda determina o primeiro. É o que defende, com ênfase perto de absoluta, o economista Paul Krugman, colunista de EXAME: para explicar o crescimento, diz ele, “produtividade não é tudo, mas no longo prazo é quase tudo”.

No final de julho, no entanto, o economista J. W. Mason, professor assistente do John Jay College, desafiou essa noção em um artigo para o Instituto Roosevelt, uma organização que dissemina ideias progressistas. Seu argumento é que não é a produtividade que explica o crescimento, mas o crescimento que faz a produtividade aumentar.

Não é uma simples questão de em qual ponto começar a desenhar o círculo. Com base na tese neoclássica, o governo americano considera que a economia se recuperou da recessão e está crescendo tão rapidamente quanto possível. A maior evidência disso é que a taxa de desemprego no país está em apenas 4,3%, a mais baixa desde 2001.

Essa taxa implica, segundo os adeptos desta visão, que o país está utilizando praticamente todo o trabalho de que dispõe, e supõe-se que esteja também usando todo o capital e recursos que pode. Dar mais anabolizantes para os agentes econômicos seria contraproducente.

Graças a esse raciocínio, o Fed (o banco central americano) aumentou sua taxa de juros quatro vezes desde o final de 2015, pondo fim à injeção maciça de capital para reanimar a economia.

Ao colocar em dúvida a versão de que o ovo veio primeiro, ou, no caso, que a produtividade leva ao crescimento, Mason defende que o governo mantenha as políticas de incentivo à produção, com os juros baixíssimos. Seu maior argumento é que a produção em 2016, que seria o ano da saída da recessão, ficou 10% abaixo da previsão feita em 2006, antes da crise, e não há sinais de que o país retome os níveis de crescimento da década passada.

Nem ovo, nem galinha

Mason não está sozinho nessa posição. Alguns economistas liberais (que lá eles chamam de conservadores) dizem que a estagnação da produtividade nos últimos anos foi provocada pela insuficiência de investimentos em máquinas e programas.

Também há apoio à tese entre economistas mais ligados às empresas. Marco Annunziata, economista-chefe da GE, disse ao New York Times que muitas tecnologias novas estão sendo inventadas, como a impressora 3D, e geram ganhos de produtividade onde são adotadas.

O problema, portanto, não seria a falta de invenções, e sim o ritmo lento de sua disseminação. E esse ritmo é lento porque o capital não está sendo aplicado como deveria – ou seja, a falta de crescimento impede a adoção de inovações… que levariam a mais crescimento.

Aqui no Brasil, onde a produtividade tem um longo histórico de apatia, essa explicação também faz sentido. Afinal, quando estivemos perto do pleno emprego, a produtividade das empresas caiu, em vez de subir. Segundo um estudo apresentado este ano pelo banco Credit Suisse, entre 2011 e 2016 ela caiu 1,1%.

Costuma-se apontar os culpados de sempre para a baixa produtividade brasileira: educação deficiente que leva a uma força de trabalho menos apta do que seria desejável; impostos; burocracia; infra-estrutura precária; e por aí vai.

Mas o Brasil não era melhor do que é hoje até a década de 1970, e teve ganhos de produtividade no período (em grande parte, pela industrialização que o país viveu). Quer dizer, o movimento de crescer gerou aumento de produtividade, e não o oposto.

Porém, um recente estudo da Fundação Getúlio Vargas (O Brasil em comparações Internacionais de produtividade: uma análise setorial) é convincente em apontar que o Brasil ganharia muito mais equiparando-se aos níveis internacionais de produtividade em cada setor do que alocando mais trabalhadores nos setores mais produtivos – até porque a distribuição da economia entre indústria, agronegócio e serviços não é tão diferente da média de países desenvolvidos.

De acordo com economistas clássicos, as inovações – máquinas novas, sistemas de gestão diferentes – surgem de modo imprevisto, e provocam pequenos (ou grandes) saltos na produtividade: faz-se mais com menos gente. Os computadores, por exemplo, foram amplamente adotados e cerca de 20 anos depois seu impacto na produtividade já era significativo.

Mas Mason argumenta que as inovações estão sempre surgindo. Sua adoção é que é desigual.

Tome-se a robotização e a inteligência artificial, por exemplo. Todo mundo sabe que esses fenômenos têm o poder de potencializar a produtividade. A China vive hoje um processo de acelerada adoção de robôs nas fábricas.

E o Brasil? Aqui, os empresários reconhecem que a mecanização traria ganhos. Mas ela não é uma prioridade. Há outras medidas que poderiam ter impacto maior, acreditam os empresários.

Segundo Mason, a adoção de inovações que favoreçam a produtividade só vai ocorrer em larga escala quando os salários forem altos o suficiente para forçar as empresas a fazer esta opção.

Aqui, ao que parece, nem as galinhas estão pondo ovos, nem os ovo estão sendo chocados para dar origem a galinhas.