O que SP ganharia abraçando os cartões e pagamentos via app

"Meu inimigo não é a Mastercard, meu inimigo é o dinheiro", diz presidente no Brasil da Visa, que lançou cálculo com ganhos econômicos dos meios digitais

São Paulo – O dinheiro vivo está saindo de moda e isso é boa notícia, de acordo com um estudo divulgado nesta quarta-feira (07) pela Visa.

A empresa encomendou para a Roubini ThoughtLab um cálculo do que aconteceria se toda a população de uma cidade adotasse os mesmos hábitos daqueles 10% que hoje mais usam pagamentos eletrônicos.

A conclusão é que a transição para o novo cenário teria custos, mas que seriam altamente compensados pelos ganhos com a maior rapidez, eficiência e produtividade dos novos tipos de pagamento.

“A gente não vai reinventar a roda. Ninguém quer pagar com meio eletrônico, o que as pessoas querem é tempo. O nome do jogo é conveniência para o usuário”, diz Fernando Teles, diretor-geral da Visa no Brasil.

Os benefícios econômicos líquidos para São Paulo poderiam superar 11 bilhões de dólares divididos entre US$ 7 bilhões para estabelecimentos comerciais, US$ 3 bilhões para o governo local e US$ 1 bilhão para consumidores.

A cidade cresceria 0,23 ponto percentual a mais por ano nos próximos 15 anos e ganharia 106 mil postos de emprego formais, segundo o estudo.

Hoje, São Paulo é considerada uma cidade “em amadurecimento digital”, no meio do caminho do processo de adoção dos meios de pagamento eletrônicos.

Ou seja, já não é mais tão dependente do dinheiro vivo (como as cidades africanas, por exemplo) mas também não é uma líder digital (como Estocolmo, na Suécia, ou Londres, no Reino Unido).

Brasília, a outra cidade brasileira incluída no estudo, ganharia mais de US$ 2 bilhões se atingisse o mesmo “amadurecimento digital”, com 0,27 p.p. de PIB a mais por ano e 20 mil novas vagas formais.

Custos invisíveis

A explicação da Visa para o cálculo de ganhos é que o uso de dinheiro em espécie teria um custo implícito invisível que não está sendo contabilizado pela sociedade.

Menos dinheiro em circulação significaria menos risco de roubos dos clientes, menos gasto de segurança pelo comércio e menos recursos usados pelo governo para processar estes crimes.

O poder público também seria beneficiado porque hoje perde arrecadação com transações não registradas e ainda gasta com a emissão e gerenciamento do papel moeda.

O estudo incluiu entrevistas com 3 mil consumidores e 900 empresas em seis cidades (Tóquio, Chicago, Estocolmo, São Paulo, Bangkok e Lagos) e os dados foram extrapolados para as outras 94 cidades com uso de outras fontes.

No conjunto das 100 cidades pesquisadas, o benefício líquido se toda a população adotasse os hábitos da elite mais conectada chegaria a R$ 470 bilhões por ano.

O impacto direto seria de US$ 28 bilhões para consumidores, US$ 312 bilhões para as empresas e US$ 130 bilhões para os governos.

O cálculo é que o processo catalisaria um impacto econômico total de US$ 12 trilhões até 2032, o equivalente ao PIB total da China hoje.

Desafios

O estudo aponta 61 medidas para acelerar a migração para os pagamentos eletrônicos, processo em que naturalmente a Visa é uma das mais interessadas.

A estratégia da empresa inclui projetos-piloto no Rio de Janeiro, em Mauá e em breve em 6 cidades do Nordeste para que o transporte público possa ser acessado pelo “pagamento de aproximação”. Esta já é a principal forma de pagamento do metrô de Londres, por exemplo.

Outra medida recente foi o acordo para uso de cartão de débito em serviços como Netflix e Uber, dando alternativas para a grande parcela da população que não possui cartão de crédito.

“E a gente faz tudo isso em parceria com o resto da indústria. Meu inimigo não é a Mastercard, meu inimigo é o dinheiro”, diz Teles.

O relatório reconhece que há um apego ao dinheiro físico e preocupações com privacidade que causam resistência em parte da população, mas aposta que a comodidade vai acabar prevalecendo.

Os representantes da empresa também apostam que o processo de digitalização não diminuirá o nível geral de emprego, um debate que divide os economistas.