O que é o dinheiro

Filipe Serrano 

Dinheiro: Uma biografia não autorizada
Autor: Felix Martin. Editora: Portfolio-Penguin. 384 páginas

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A explicação sobre a origem do dinheiro costuma ser contada da seguinte maneira. Nas sociedades primitivas, o comércio era baseado apenas no escambo, em que se trocava uma mercadoria por outra. Em algum momento, esse sistema ficou inviável, e as pessoas começaram a usar objetos físicos para representar valores envolvidos nas trocas. No livro Dinheiro: Uma biografia não autorizada, o gestor de fundos e economista britânico Felix Martin contesta esse entendimento. Para Martin, a origem do dinheiro não tem relação com nenhum objeto físico ou com a inconveniência do escambo. O dinheiro surgiu, na verdade, como uma maneira de representar os créditos ou os débitos que um indivíduo mantinha com o outro, independentemente se a representação do dinheiro for física ou digital. Em entrevista a Exame Hoje, Martin afirma que a concepção equivocada sobre o dinheiro impede que as pessoas tenham uma real dimensão da importância dos sistemas monetários e financeiros sobre o cotidiano, e do papel de cada agente econômico, como os bancos, na economia. Para ele, a falta de uma maior fiscalização sobre o mercado financeiro é justamente uma das causas da crise de 2008, e é preciso reformar o sistema bancário para que o risco tomado pelos bancos em operações financeiras arriscadas não recaiam sobre o governo novamente como no passado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

 

Qual é a importância de saber as origens do dinheiro para entender o complexo sistema financeiro atual?
A real razão para mim é porque a maioria das pessoas acaba pegando, ao longo de sua educação, uma versão muito simplificada e ortodoxa da história da origem do dinheiro e como os bancos funcionam – que é a história de que o dinheiro surgiu como um meio de troca para substituir o escambo, e de que os bancos são instituições emprestam o dinheiro dos correntistas e ganham dinheiro com os juros. Mas esse entendimento simplificado deixa de fora aspectos muito importantes e que têm a ver com a crise financeira de 2008. A não ser que você aprenda como os sistemas monetário e financeiro realmente funcionam, você não vai entender como aquela crise aconteceu, o que ela significou e como evitá-la no futuro. Você também não se questiona sobre as reformas que podem ser feitas em relação à política monetária.

Que aspectos importantes são esses?
O ponto crucial é entender que o dinheiro é apenas um sistema de crédito e débito. Ele não é mais do que um vasto registro dos pagamentos feitos e recebidos entre diferentes pessoas na economia. E os bancos são responsáveis nesse sistema por controlar esse registro. Além disso – e ainda mais importante –, os bancos também têm a habilidade e a responsabilidade de criar dinheiro. Isso pode parecer mágica para uma parte das pessoas, mas não é. É perfeitamente normal. E de muitas maneiras é uma maneira muito sensata de organizar a economia. Mas, claro, essa é uma responsabilidade muito grande e ela só foi dada aos bancos em troca de eles se submeterem a uma série de regras. Essas regras têm a intenção de fazer a criação de dinheiro ser útil para a sociedade como um todo e para toda a economia. Portanto, eu acredito que a pergunta-chave que a sociedade, em cada país, deveria estar fazendo todos os dias é se os bancos estão cumprindo essa responsabilidade corretamente.

O senhor acredita que os bancos não estão cumprindo bem este papel?
A crise financeira de 2008 demonstrou que eles não estavam. A habilidade de criar dinheiro é obviamente muito, muito lucrativa. E, ao longo da história, os bancos sempre tentam criar mais dinheiro do que as autoridades soberanas pensam que seja ideal, e tentam achar uma forma de contornar as regras. Antes da crise, uma grande forma de contornar as regras, em uma escala monumental, era o sistema ficou conhecido como “shadow banking”. Era quase um sistema bancário secundário e alternativo, ao lado do sistema oficial regulamentado, e que não tinham as mesmas garantias das autoridades financeiras. Porém, quando a crise estourou, todas as obrigações financeiras tinham que ser registradas de volta nos balanços do sistema monetário oficial. E isso acabou sendo subsidiado pelos governos nacionais soberanos. Ou seja, os bancos tomaram um grande risco com operações de crédito paralelas, mas, no fim quando o risco se cristalizou, foram os governos e os contribuintes que absorveram os prejuízos.

As mudanças realizadas após a crise financeira são suficientes para regulamentar esse sistema de crédito paralelo?
As coisas mudaram, mas não o suficiente a ponto de fazer uma grande diferença estrutural. Minha visão é que os últimos 20 ou 30 anos demonstraram que tentar regulamentar a indústria financeira moderna ao escrever mais e mais regras simplesmente não vai funcionar. Eu acho que a única forma de efetivamente mudar as coisas é ao mudar a estrutura do sistema bancário. Você não precisa escrever regras mais longas. Basta dizer explicitamente que o contribuinte não vai garantir esse tipo de instrumento de crédito, que é parte do sistema financeiro. E isso não está sendo feito.

Os bancos italianos têm sido apontados como uma nova fonte de preocupação para o sistema financeiro. O senhor acredita que há relação entre as duas crises?
Acredito que não. Os italianos estão vivendo uma crise bancária mais tradicional. Não tem diretamente a ver com instrumentos de crédito de shadow banking. Nos países avançados – e a Itália é um bom exemplo disso – a maioria dos empréstimos dos bancos não são destinados a empresas, mas ao setor imobiliário. Quando a economia não cresce, o valor dos imóveis e dos aluguéis tende a cair. E, portanto, a qualidade dos portfólios de empréstimos dos bancos se deteriora. O que acontece na Itália é que a economia tem tido uma recuperação muito precária desde a crise de 2008. O PIB na Itália ainda está 8,5% menor, em termos reais, do que no pico, em 2007. E isso é muito incomum. Esse não é o caso no Reino Unido. Não é o caso na Alemanha. Mas a Itália não se recuperou propriamente. E esse é um ambiente econômico muito difícil para os bancos. Eles tentaram sair dessa situação, mas eventualmente o problema reaparece.

Voltando ao tema do seu livro: qual é a importância da digitalização do sistema bancário e financeiro na história do dinheiro?
A digitalização não é uma mudança fundamental porque, na história muitos meios diferentes foram usados para representar a transferências de pagamentos – de moedas a pedaços de madeira. Hoje é o registro digital. No entanto, existem alguns aspectos interessantes nisso. Por exemplo, alguns economistas argumentam que seria bom agora simplesmente nos livrarmos do dinheiro físico e adotar apenas a moeda digital. Mas há uma diferença crucial entre a moeda física e qualquer tipo digital. E esta é uma diferença muito mais política do que econômica, porque tem a ver com a privacidade. Tem a ver com a questão se você gostaria de ser possível, mesmo que por uma questão de princípio, que uma autoridade central soubesse de todas as transações que estão sendo realizadas entre indivíduos e entre companhias. Com a moeda física, é essencialmente impossível que qualquer autoridade mantenha um registro de todas as transações. Embora isso facilite as atividades ilegais, também permite que as pessoas tenham privacidade. Apesar do fato de a moeda física pareça uma forma antiquada de representar o dinheiro, pode ser que ela ainda tenha um papel no futuro, como garantia a uma liberdade individual.

Qual é a sua opinião?
A privacidade é uma das maiores questões que nós vamos enfrentar num futuro muito próximo. Minha opinião é que deveríamos manter a moeda física. Acho importante manter uma liberdade civil, e que as pessoas possam ser permitidas a fazer transações sem o governo saber o que estão fazendo.