O que é empreender no Brasil?

Apesar das adversidades, país possui forte vocação para o empreendedorismo. Grandes empresas têm um papel fundamental no processo de aceleração de startups

O Brasil é um país paradoxal. Se por um lado temos inúmeros problemas sociais, como baixa escolaridade e taxas altas de desemprego, por outro, há um contingente cada vez maior de profissionais dispostos a empreender. Mas, diferentemente do que acontece em outros polos tradicionais de inovação, por aqui é a necessidade que tem estimulado o surgimento de empreendedores dos mais variados tipos, espalhados pelos quatro cantos do país, em busca de novos horizontes em suas carreiras.

“Temos um ecossistema empreendedor em evidente fortalecimento, com aumento no número de aceleradoras, incubadoras e de grandes empresas interessadas no setor”, afirma Maximiliano Carlomagno, sócio-fundador da consultoria Innoscience. Para ele, existem dois perfis de empreendedores no Brasil: os jovens, estimulados a empreender quando saem da faculdade; e os profissionais mais maduros, como executivos que decidiram abrir um negócio próprio. “O segundo grupo costuma ter mais conhecimento técnico e, em muitos casos, já tem algum capital.”

Veja o caso da MAP Technology, empresa fundada há quase 30 anos pelo engenheiro amazonense Manuel Augusto Pinto Cardoso, 56. Cardoso foi um dos pioneiros da automação industrial no país, ainda nos anos 1980. Mas, nos últimos tempos, tem dedicado boa parte do seu tempo ao desenvolvimento do aplicativo Giulia, que permite a comunicação em tempo real entre pessoas com deficiência auditiva que usam a Língua Brasileira de Sinais e aquelas sem qualquer conhecimento em Libras.

“A necessidade é a mãe da criatividade. Somente no Brasil, são cerca de 9,5 milhões de surdos”, afirma Cardoso. “A dificuldade de comunicação é um fator de exclusão muito grande, até mesmo dentro da própria família”, explica. Ele desenvolveu um equipamento de “leitura” dos movimentos realizados na comunicação por Libras por meio de sensores instalados nos celulares. Com o equipamento preso ao pulso, o aplicativo identifica os sinais e traduz as mensagens para o português em tempo real.

“Quando apresentei o produto, havia um grande interesse. Mas eu sabia que o custo estava fora da realidade da grande maioria das pessoas. Viabilizá-lo passou, então, a ser o novo desafio do projeto. Graças à parceria com a Endeavor e o Braskem Labs, pudemos dar escala ao produto e alcançar um número maior de pessoas”, diz Cardoso, que já ofereceu o app gratuitamente para mais de 3 000 deficientes auditivos e que, hoje, tem também uma parceria comercial com a operadora TIM.

O app Giulia da MAP Technology, que permite a comunicação entre pessoas com deficiência auditiva e quem não tem conhecimento em Libras, ganhou escala com parcerias

O app Giulia da MAP Technology, que permite a comunicação entre pessoas com deficiência auditiva e quem não tem conhecimento em Libras, ganhou escala com parcerias (Montagem/Divulgação)

O papel de grandes empresas

A busca por inovação também tem feito com que grandes companhias privadas invistam em programas ligados ao empreendedorismo – um apoio fundamental, já que hoje existem poucos recursos disponíveis em universidades ou em institutos de pesquisa. De acordo com Patrick Teyssonneyre, diretor de inovação da Braskem, as grandes empresas têm um papel importante no processo de aceleração de startups em todo o mundo. “Mesmo nos Estados Unidos, a maior parte do fomento ao empreendedorismo está na iniciativa privada, com firmas de venture capital e investidores-anjo”, explica o executivo.

“As empresas são superestruturadas em termos de processos, práticas e estratégias. Ao terem contato com profissionais mais experientes, os empreendedores podem se beneficiar dessa massa de conhecimento”, afirma. Mais do que injetar dinheiro nos projetos, o papel principal desses negócios é oferecer conhecimentos complementares aos dos empreendedores e, assim, ajudar no desenvolvimento de novas tecnologias, na criação de novos negócios e no acesso a novos mercados.