O primeiro tiro da guerra comercial de Trump

A disposição guerreira de Trump – e a demissão do assessor que lhe continha o ímpeto protecionista – são maus presságios para a economia mundial

Em setembro do ano passado, contemplava-se com angústia o risco de uma guerra nuclear dos Estados Unidos com a Coreia do Norte – dado o tom das ameaças do presidente americano, Donald Trump, ante os seguidos testes de ogivas feitos pelo regime do ditador Kim Jong Un.

Agora, contempla-se o risco de uma guerra comercial dos Estados Unidos com praticamente o mundo inteiro. Menos mal. Guerras comerciais são menos sangrentas.

Pronto. Esta aí o máximo de elogio possível à iniciativa de Trump de elevar tarifas alfandegárias para o aço (25%) e o alumínio (10%): trata-se de algo não tão ruim, considerando-se a escala das ações que ele aventa tomar (pelo Twiitter, este seu extravagante canal diplomático).

A medida, adotada na tarde de hoje, quinta-feira, não chega a ser surpreendente. Consistência não é uma das maiores qualidades de Trump – muito mais afeito a tomar decisões intempestivas, das quais volta e meia volta atrás. Mas este tema é uma exceção. Desde os anos 1980 ele bate na tecla de que os Estados Unidos precisam de uma política comercial mais protecionista.

“Eu venho dizendo isso há 25 anos”, ele declarou esta semana. “Estão tirando vantagem do nosso país.”

Há aí um tanto de convicção equivocada de como a economia funciona, mas também um tanto de apego a uma causa que lhe permitiu angariar a simpatia de uma ampla fatia dos trabalhadores americanos, a despeito de sua vida de playboy multimilionário do ramo da construção – e que em última instância lhe permitiu chegar à Casa Branca.

Em 1987, ele declarou: “muita gente está cansada de ver outros países depenando os Estados Unidos”. Naquela época, referia-se principalmente ao Japão, cujas empresas começaram a conquistar em escala mundial um mercado que antes era americano.

Trump chegou a pagar um anúncio em vários jornais em que dizia: “não há nada de errado com a política de defesa contra estrangeiros dos EUA que um pouco de espinha dorsal não possa curar”. Sua visão sempre foi de que os governantes eram flexíveis demais, a ponto de deixar os estrangeiros se aproveitar do país.

Esta seria sua plataforma na corrida presidencial em 1988, mas ele logo decidiu não concorrer. De qualquer forma, teve seu primeiro gostinho de como o tema do déficit comercial era eficiente para lhe angariar simpatias dos trabalhadores.

Para Trump, o déficit comercial faz parte de um argumento mais amplo, segundo o qual os Estados Unidos garantem a defesa de países que dão muito pouco em troca. O Japão é um caso desses: sua constituição no pós-guerra previne contra o militarismo, e a presença militar americana serve como proteção ao país. A Europa é outro, com os investimentos americanos na aliança do Atlântico Norte (Otan).

Nos anos 1990, quando novamente considerou uma candidatura a presidente, sua campanha se baseava no déficit comercial do país. Nesse aspecto, Trump se assemelha ao típico candidato do Partido Reformista: entre 1996 e 2004, seus candidatos (Pat Buchanan, Ross Perot e Ralph Nader) todos diziam que nem democratas nem republicanos teriam coragem de acabar com o déficit comercial que, em suas palavras, estava devastando os trabalhadores americanos.

Na campanha de 2000, quando Trump tentou ser nomeado candidato do Partido Reformista, disse que negociaria pessoalmente os tratados com o Japão que “depena os Estados Unidos”, com a Alemanha, “que quer dominar o mundo economicamente”, e com a França, “que precisa aprender a ter respeito”.

A desproteção do protecionismo

Se politicamente a posição de Trump quando ao déficit comercial lhe trouxe tantas vantagens, economicamente ela se baseia numa miopia desmentida por vários estudos internacionais: a ideia de que o comércio é um jogo de soma zero, em que um ganha e outro perde.

Nos primórdios da disciplina de economia, Adam Smith e David Ricardo já enalteciam o comércio como um fator de criação de riquezas para ambos os lados.

Os próprios americanos tiveram uma experiência dramática dos nefastos efeitos do protecionismo. Durante a depressão dos anos 1930, o governo creu que a origem dos problemas estava no déficit comercial que evadia divisas do país para o exterior. As medidas protecionistas acabaram gerando uma reação externa que, segundo estudiosos, acentuou e prolongou a crise americana.

Pior do que isso: o protecionismo do período ajudou a alimentar sentimentos nacionalistas que favoreceram a subida ao poder dos fascistas, na Itália, e dos nazistas, na Alemanha.

Nos dias de hoje, a conta é mais simples. Barreiras de proteção podem de fato ajudar uma parcela dos trabalhadores americanos. Afinal de contas, se o preço de um produto que vem de fora fica mais alto, as indústrias nacionais competem com vantagem – e preservam os empregos de seus funcionários.

Há dois problemas com essa posição. O primeiro os brasileiros conhecem bem. Uma indústria altamente protegida acaba se tornando cronicamente ineficiente, e em algum momento a bolha de segurança ilusória estoura. O melhor exemplo nacional foi a proteção à indústria da informática, nos anos 1980.

O segundo problema é que a proteção de alguns trabalhadores resulta em prejuízo para um número muito maior de trabalhadores. No caso americano, há cerca de 140.000 pessoas trabalhando na indústria do aço, e 6,5 milhões de pessoas em indústrias que usam o aço.

Com as tarifas extras, é de se esperar que o preço do aço suba. E os produtos feitos com ele acabarão subindo, também. Carros, por exemplo. Isso tornará os automóveis americanos menos competitivos – e poderá colocar em risco o emprego de uma parcela muito maior de trabalhadores americanos do que aquela que Trump busca proteger.

As vozes do contra

É por esses motivos que a medida anunciada por Trump teve tantos adversários, não só nos países ameaçados pela medida, mas no próprio Partido Republicano, que lhe serve de apoio no Congresso.

Até o canal preferido do presidente, a Fox News, repleta de comentaristas pró-Trump, foi crítica: “O presidente deu o primeiro tiro de uma guerra comercial que vai piorar as relações dos Estados Unidos com seus aliados, prejudicar nossa segurança nacional, enfraquecer nossa economia e tirar dinheiro das carteiras dos consumidores”, afirmou, em noticiário.

Na quarta-feira, 107 congressistas republicanos enviaram-lhe uma carta pedindo que pelo menos retirasse de sua medida os países aliados, concentrando-se em parceiros comerciais que usam práticas escusas, como a China.

O pedido surtiu algum efeito. O texto final divulgado por Trump um dia depois (que provocou um frenesi na Casa Branca para elaborar um texto aceitável) abre a possibilidade de aliados dos Estados Unidos requererem isenções das tarifas.

Mas o espectro de uma guerra comercial está aí.

Para o Brasil, a medida de Trump não é tão prejudicial. Em parte, como disse o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, porque “infelïzmente” a maior parte do aço que o Brasil exporta para o país é commodity.

“Cerca de 30% das exportações de aço do Brasil têm como destino os Estados Unidos, mas a maior parte deste total é composta por produtos semiacabados”, disse Barbara Matos, vice-presidente sênior da área de crédito da agência de análise de risco Moody’s, ao jornal Valor. “As exportações de aço plano e de aço longo não representam mais de que 22% do volumes totais.”

Há até empresas que podem se beneficiar da medida. Mais de 40% da receita da Gerdau vem deu suas operações nos Estados Unidos.

O problema maior seria a reação, principalmente da Europa. A União Europeia ameaçou retaliar com uma “resposta firme e proporcional”, de acordo com a comissária da UE para comércio, Cecilia Malmstrom.

É aí que mora o perigo. Na lista de produtos aventados para uma possível retaliação estão vários que o Brasil também exporta (suco de laranja, sapatos de couro, tabaco etc.), e as leis de comércio internacional exigem que a UE aplique a mesma tarifa para todos os países.

Sem contar que os europeus também querem se proteger de uma “invasão de aço”, ou seja, podem taxar os produtos que iriam para o mercado americano para impedir que eles desembarquem no mercado europeu.

Segundo um tweet do presidente Trump, “quando um país está perdendo bilhões de dólares no comércio com virtualmente todos os países com que faz negócios, as guerras comerciais são boas, e fáceis de ganhar.”

Mas as lições da história são claras: guerras comerciais não têm vencedores, e não são boas. Elas tendem a prejudicar as economias de todos os envolvidos e elevar as tensões.

Nesse sentido, os danos podem ser maiores do que os prejuízos dos setores envolvidos na guerra.

Cohn, a primeira vítima

Como a medida americana só deve vigorar daqui a duas semanas, e ainda não se sabe qual reação os outros países vão adotar, a guerra ainda está na fase das ameaças. (A China, por exemplo, declarou que “não quer uma guerra com os EUA, mas não ficará parada enquanto sua economia é prejudicada”).

Mas ela já provocou uma vítima. E de alto escalão. Na terça-feira, o principal assessor do presidente Trump, Gary Cohn, anunciou que renunciará ao seu posto.

E isso é uma péssima notícia para quem acredita no liberalismo. Democrata adepto do livre mercado, que fez carreira no banco de investimentos Goldman Sachs, Cohn já evitou uma série de medidas protecionistas (ou francamente insanas) do governo Trump, durante todo o ano passado.

Algumas de suas vitórias incluíram o projeto de 1,5 trilhão de dólares em corte de impostos; a preservação de direitos para gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros no ambiente de trabalho (junto com o grupo de aliados moderados de Trump, que inclui sua filha, Ivanka, e seu genro, Jared Kushner); a permanência dos Estados Unidos no Nafta, o acordo comercial com Canadá e México; e o bloqueio, durante um ano, dessas mesmas tarifas que Trump finalmente adotou.

Entre suas derrotas está a saída dos Estados Unidos do acordo de clima de Paris; sua não indicação para o posto de presidente do Federal Reserve, que ele ambicionava; e, agora, a adoção das tarifas do aço e do alumínio.

Foi a gota d’água para Cohn. Em agosto, depois de violentos protestos ultra-nacionalistas em Charlottesville, quando Trump elogiou os extremistas (disse que eram boas pessoas), incluindo simpatizantes do grupo racista Ku Klux Klan, Cohn, que é judeu, chegou a escrever uma carta de renúncia, de acordo com revelações de amigos a alguns órgãos da imprensa americana. Acabou ficando.

Desta vez, porém, sentiu que perdia terreno para Peter Navarro, um assessor nacionalista e protecionista. No ano passado, Navarro foi neutralizado e colocado sob a supervisão do próprio Cohn.

Mas agora ele está em alta, cotado para algum alto cargo no governo. São as oscilações típicas de uma Casa Branca que já perdeu, no primeiro quarto de mandato, 43% de seus funcionários (de acordo com um estudo do Instituto Brookings). Menos da metade das 12 posições mais próximas do presidente ainda são ocupadas pelas mesmas pessoas que estavam nelas quando Trump assumiu o cargo.

Durante todo o ano passado, Trump perguntava a seus assessores sobre as medidas de proteção à indústria do aço, lembrando-lhes que esta era uma promessa de campanha (e as eleições legislativas de metade do mandato serão este ano).

Cohn andou driblando o presidente, mas não conseguiu mais conter seu ímpeto. Sua saída foi anunciada com elogios: “Gary tem sido meu maior conselheiro econômico e fez um trabalho soberbo em guiar nossa agenda, ajudando a fazer reformas e um corte de impostos históricos, que libertaram a economia americana mais uma vez”, disse. “Ele é um talento raro, e eu lhe agradeço por seu dedicado serviço ao povo americano.”

A aliados, no entanto, demonstrou profunda irritação com Cohn e pespegou-lhe um dos maiores xingamentos de seu vocabulário: chamou-o de “globalista”.

Sua saída representa a quebra de um freio para o populismo de Trump.

Como Trump é Trump (um mestre do ziguezague), e Cohn é Cohn (um refém de sua ambição), não se descarta a hipótese de ele voltar ao governo, em algum outro alto cargo (há algumas semanas, ele havia sido sondado pelo presidente para o posto de chefe de equipe).

Nessas viradas de opinião do presidente Donald Trump reside hoje um dos motivos para otimismo. É possível que a guerra comercial termine mais ou menos como começou: num tweet.