O Pão de Açúcar sem um Diniz no comando

A primeira doceira Pão de Açúcar foi criada por um Diniz, o pai Valentim. A rede varejista cresceu, quase faliu e se recuperou na mão de outro Diniz, o filho Abílio. O desafio de manter o grupo na liderança do comércio varejista brasileiro, porém, não será comandado pela terceira geração da família. O homem de confiança de Abílio para assumir a presidência do Grupo Pão de Açúcar é Augusto Marques da Cruz Filho, vice-presidente administrativo e financeiro com oito anos de empresa. Ana Maria Diniz, filha de Abílio e, até então, apontada como sua sucessora natural, ainda não estaria pronta, pelo menos na visão do mercado, para assumir a rede varejista que emprega mais de 50 mil pessoas, faturou 3.859 de dólares em 2001 e registrou um lucro líquido de 111 milhões, segundo o anuário MELHORES & MAIORES, de EXAME.

“Eu acho que a companhia está se tornando agora muito mais sólida, dependendo muito menos de uma pessoa só e mais de um grupo de pessoas”, afirmou o presidente do grupo Pão de Açúcar, Abilio Diniz. A troca será feita até o final do primeiro trimestre de 2003, de acordo com comunicado divulgado pelo Pão de Açúcar.

“O Augusto é experiente e inspira mais confiança que os filhos”, diz uma analista de um importante banco estrangeiro. “O mercado deve reagir bem à mudança. Ele é o que tem mais capacidade.” Será que a saída da família Diniz da presidência deixa o Pão de Açúcar mais vulnerável? “Não, ela é positiva porque dá uma cara mais profissional ao grupo”, diz a analista. “Mostra que a empresa não se limita à família.” Para Elismar Álvares, da Fundação Dom Cabral, a saída da dinastia Diniz tem de ser vista com naturalidade: “Às vezes os tempos não coincidem. Seria ótimo se a empresa familiar sempre tivesse um herdeiro preparado para assumir. Nem sempre existe um nome pronto e amadurecido”. Nada mais esperado, portanto, que procurar um executivo capaz de continuar o trabalho que já foi feito.

No entender dos especialistas ouvidos pelo Portal EXAME, Abilio Diniz também fez a escolha certa ao adotar uma solução caseira (dentro da empresa) para a sucessão. “A decisão de promover alguém da casa é mais do que positiva”, diz a analista de mercado. “O Abilio não se sentiu pressionado a contratar um CEO a peso de ouro para dar credibilidade à mudança.” Trazer um executivo renomado é indicado quando se desejam mudanças radicais na empresa, o que não ocorre no Grupo Pão de Açúcar, líder de mercado. “A idéia é apenas dar continuidade ao trabalho que o Abilio fez à frente do grupo”, diz Elismar Álvares.

Homem de confiança de Abílio e uma espécie de estrela do comitê executivo do Pão de Açúcar, Augusto Marques Cruz Cruz, 49 anos, chegou em 1994, vindo do grupo Bunge. Ele foi um dos executivos que permaneceram depois de uma reestruturação que resultou na saída de oito diretores do alto escalão no ano passado. Seu nome, embora não aparecesse como favorito, sempre foi cotado para a sucessão na presidência ao lado dos filhos de Abilio. Até mesmo Ana Maria Diniz reconhecia publicamente o valor do executivo braço direito do pai: “Costumo brincar que não sei como vivíamos sem o Augusto aqui”, disse à revista EXAME em 2001.

Augusto também é um executivo meticuloso e detalhista, capaz de discutir e mostrar na ponta do lápis por que tomou uma decisão e não outra. Foi ele quem comandou a estratégia que resultou na excepcional evolução tecnológica do Pão de Açúcar e que faz da empresa um varejista de classe mundial. Augusto foi capaz de aliar aos benchmarks internacionais e aos sistemas de computador adquiridos de terceiros alguns ingredientes específicos da gestão do Pão de Açúcar. “Não seria exagero afirmar que foi essa estratégia de resposta rápida ao mercado que tornou possível ao Pão de Açúcar galgar posições e ultrapassar rivais como o Carrefour”, afirma um analista.

À frente do conselho

Abilio Diniz deixa a presidência do Pão de Açúcar, mas não se afasta do papel de guru dos rumos da companhia. Ele passará a comandar o conselho de administração, que define as estratégias de atuação do grupo. O conselho é composto por 11 membros, todos acionistas. Outra decisão correta, afirma Elismar Álvares. De acordo com a especialista da Fundação Dom Cabral, mais importante que comandar a gestão no dia-a-dia, é criar meios para que os membros da família tomem as decisões estratégicas de sua empresa: “Eles decidem e escolhem o melhor gestor para colocar em prática. Competência e habilidade em gestão nem sempre são genéticas”. Parece ser esse o recado de Abilio.