O mercado desconfia

Para governos em início de mandato, como este de Michel Temer, o jogo das expectativas pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso. E, neste quesito, o Planalto sofreu um golpe ontem. Pela primeira vez desde que a proposta orçamentária de 2017 foi apresentada, o mercado fez uma previsão pior que a do governo para o déficit público. A proposta oficial é de perdas de 139 bilhões de reais; a nova previsão das instituições financeiras, colhida pelo ministério da Fazenda, é de 140,1 bilhões.

Vários motivos explicam a diferença de 1,1 bilhão na conta. Primeiro, o mercado espera que o país cresça menos do que a previsão otimista do governo. O último boletim Focus aponta uma expectativa de 1,3%, enquanto o Orçamento diz que o PIB será 1,6% maior. Os gastos públicos de 2016 também estariam subestimados no orçamento deste ano. Com isso, mesmo que a PEC do teto de gastos seja aprovada, a base de cálculo que o governo está usando seria irreal, na visão das instituições.

A terceira medida do governo para fechar as contas é o pacote de concessões, mas ele também traz desconfianças. “Há dúvidas se essas medidas tampão darão certo. A expectativa do governo é arrecadar 24 bilhões com pacote, mas no nosso cenário, esse valor está em 20 bilhões”, diz Fabio Klein, analista de finanças públicas da consultoria Tendências.

O governo ainda enfrenta dificuldades para aprovar a PEC que limita o crescimento de gastos à inflação do ano anterior. Não há certeza de que ela passe pelo Congresso da maneira que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, planeja, mesmo com o apoio declarado de parlamentares do centrão. O presidente da Câmara diz que pretende vota-la até o final de outubro e o governo espera que ela seja aprovada no Senado antes do final do ano. Tudo precisa dar certo para que as expectativas voltem a jogar a favor.