O impacto do fenômeno financeiro nas periferias

Estudo mostra que o valor das operações de crédito cresceu quase cem vezes entre 1995 e 2013, com 58% do total movimentado por famílias de baixa renda

A “financeirização” da vida cotidiana, por meio do acesso ao crédito, tornou-se um dos componentes mais dinâmicos do capitalismo contemporâneo.

E fator de reconfiguração das periferias de metrópoles de países emergentes.

Este foi o fio condutor da pesquisa Urbanização e fenômeno financeiro em Buenos Aires e São Paulo no período da globalização, apoiada pela FAPESP no âmbito de acordo de cooperação com o Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas de la República Argentina (Conicet) .

O estudo foi conduzido pelos professores Fabio Betioli Contel, do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), e María Laura Silveira, do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas de la República Argentina (Conicet). E contou com a participação de Marina Regitz Montenegro, orientanda de Contel em pós-doutorado também apoiado pela FAPESP .

“O projeto contribuiu para a aproximação e o intercâmbio de pesquisadores entre a USP e diversas universidades argentinas, mas principalmente com a Universidade de Buenos Aires (UBA)”, disse Contel à Agência FAPESP.

Mencionando por enquanto apenas os dados levantados no Brasil, e ressalvando que tal levantamento se encerrou antes que a crise conjuntural atualmente vislumbrada pudesse aparecer nas estatísticas, o pesquisador afirmou que o valor das operações de crédito contratadas por pessoas físicas cresceu quase cem vezes entre 1995 e 2013, passando de R$ 12,9 bilhões a R$ 1,251 trilhão (dados não deflacionados).

Desse total, 58% foram movimentados por famílias com renda per capita entre R$ 320 e R$ 1.120.

“Por meio de mecanismos como o cartão de crédito, o crediário nas grandes redes de comércio varejista, o financiamento para aquisição de imóveis, automóveis e outros, a ‘financeirização’ passou a fazer parte da vida cotidiana da população mais pobre. E a forte expansão do consumo que ocorreu durante o período estudado só pôde se viabilizar por causa dela. O número de cartões de crédito cresceu 590% entre 2000 e 2012, aumentando principalmente entre a população de menor renda.”

“Coerção da compra”

Um fenômeno importante investigado pelos pesquisadores foi que o protagonismo no processo de “financeirização” deixou de se limitar à ação dos bancos e instituições especificamente financeiras e passou a ser exercido também por grandes redes de comércio varejista. “Essas empresas obtêm, muitas vezes, maior lucratividade com a venda de produtos financeiros, como o crédito ao consumidor, do que com a venda das mercadorias que fabricam ou comercializam. Os juros incorporados às prestações excedem significativamente o valor real dos eletrodomésticos ou eletroeletrônicos vendidos”, destacou Contel.

A facilidade do crédito proporciona ao consumidor acesso imediato a um bem que sua renda não permitiria ter. Trata-se, como disse o pesquisador, daquilo que na sociologia foi denominado “coerção da compra”, no contexto da “sociedade do consumo”. “Essa ‘imediaticidade’ é a grande sedução do crédito. Se a pessoa economizasse durante alguns meses, poderia, no final do período, comprar o produto pelo preço à vista. O crédito lhe permite obter o produto imediatamente. Mas ao preço de pagar, muitas vezes, o dobro do valor.”

É preciso considerar que o impulso da compra atende, em vários casos, a uma demanda legítima, reprimida durante anos. O comprador pode ter necessidade real de determinado produto ou ser motivado pelo valor simbólico que atribui à posse dele. Se o seu padrão de renda aumenta, há uma tendência muito forte de responder a essa demanda.

“Um dos problemas é que o consumidor com menor grau de instrução raramente faz o cálculo de quanto terá pago pelo produto após quitar todas as parcelas. Sua preocupação é saber se o valor de cada prestação cabe no orçamento mensal..” As consequências disso podem ser o endividamento, a inadimplência e até mesmo a insolvência. No segmento das famílias com renda familiar até 10 salários mínimos, 63,9% estavam endividadas e 23% inadimplentes em 2013”, informou o pesquisador.

A principal forma de endividamento detectada pela pesquisa foi o uso do cartão de crédito, correspondente a 75,2% dos casos. Um mecanismo conhecido, confirmado pelo estudo, é o fato de o cartão ser, muitas vezes, usado para rolar dívida. “É claro que o acesso ao consumo gerou um aumento do conforto na vida das pessoas. Seria um contrassenso negar ou subestimar esse fato. Mas o que uma análise aprofundada evidencia é que esse fenômeno mais cria consumidores do que cidadãos”, argumentou Contel.

Financeirização do território

A pesquisa demonstra ainda que, concomitantemente à “financeirização” da economia, ocorre também a “financeirização” do território. E este foi um fenômeno bastante enfatizado pelo estudo, que se desenvolveu, afinal, no âmbito da geografia.

“Constatamos a crescente presença, nas periferias de São Paulo, de agências bancárias, instituições financeiras de crédito pessoal, filiais das grandes redes de varejo e serviços (dedicadas à venda de vestuário, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, fast food ou entretenimento), supermercados, hipermercados e shopping centers. Áreas que, na década de 1990, não eram sequer atendidas por serviços de entrega em domicílio passaram a dispor desses fixos geográficos. E, devido à concentração de estabelecimentos, muitas localidades das periferias tornaram-se pontos de referência para o consumo de moradores de outras áreas”, discorreu o pesquisador.

“Do ponto de vista do fluxo da renda, essa difusão e capilarização dos bancos, instituições financeiras e redes de comércio varejista nas periferias, acentua, por meio do custo dos produtos financeiros, a transferência de recursos dos segmentos de menor renda para o circuito superior da economia urbana, constituído pelos grandes grupos empresariais. Do ponto de vista das economias locais, promove a reconfiguração do espaço, contrapondo aos estabelecimentos dedicados aos pequenos negócios – o chamado circuito inferior da economia urbana – uma concorrência altamente capitalizada, favorecida pela publicidade, pelo status simbólico das marcas e pela oferta de crédito a prazo”, prosseguiu.

Como explicou o pesquisador, a “financeirização” é um dado estrutural do capitalismo contemporâneo. Os nexos financeiros comandam todas as atividades econômicas, incluindo a indústria, o comércio e os serviços. E, ou bem a empresa é diretamente controlada por um banco, ou bem acaba desenvolvendo um braço financeiro, que eventualmente suplanta em importância sua própria atividade-fim (industrial, comercial ou de serviços). A novidade, se é possível denominá-la assim, foi a extrema intensificação do processo graças ao recente aumento do poder dos atores financeiros, dado sua maior capilaridade no território e sua onipresença nos circuitos da economia urbana.

“Um aspecto muito relevante da ‘financeirização’ é a ‘ bancarização’. Antes, a interface dos bancos com os correntistas eram as agências bancárias. Hoje, além das agências, a nova topologia bancária permite a prestação de serviços por meio dos caixas eletrônicos, dos correspondentes bancários (que são postos disponibilizados, principalmente, em agências do correio e casas lotéricas), de terminais de cartão de crédito e débito e de computadores e smartphones. Até camelôs de rua utilizam atualmente terminais de cartão de crédito e débito para facilitar a venda de seus produtos. Trata-se de um processo de desmaterialização da moeda em escala planetária. Existe, e se desenvolve cada vez mais, uma nova base técnica que coloca os bancos, literalmente, em todos os lugares”, concluiu Contel.