Novo mix do PIB puxa crescimento sem pressionar juro

A economia cresceu 0,6% no 3º trimestre, ante estimativa de 0,4%. O consumo das famílias avançou pelo quinto trimestre seguido

Ao contrário do que seria de se esperar, o crescimento maior que o previsto do PIB brasileiro no 3º trimestre não está levando à alta dos juros futuros e nem à redução das apostas em cortes da Selic.

O principal motivo é o mix de política econômica conduzido pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, que se destina a promover o crescimento com investimentos e consumo privado, em meio aos juros mais baixos, e não com estímulos do governo.

“O que gostei do resultado divulgado hoje foi a qualidade do número, pois foi um crescimento mais sustentado pelo setor privado e o gasto do governo se contraiu”, disse Alberto Ramos, economista-chefe do Goldman Sachs para América Latina.

A economia cresceu 0,6% no 3º trimestre, ante estimativa de 0,4%. O consumo das famílias avançou pelo quinto trimestre seguido, enquanto o consumo do governo recuou pelo segundo período consecutivo. Os investimentos, também vistos como indicador de expansão saudável, tiveram a segunda alta seguida.

Bancos como o Goldman Sachs, Bradesco e Barclays elevaram as projeções para o PIB deste ano após a divulgação do número nesta terça-feira.

O governo tirou o Estado da economia e abriu espaço ao setor privado, disse o secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Adolfo Sachsida, ao comentar o resultado do PIB em entrevista à rádio Jovem Pan. O crescimento já foi observado nas vendas da Black Friday e vai permitir ao país o melhor Natal dos últimos anos, disse o secretário.

A economia está indo para um ritmo de expansão próximo de 2% de forma saudável, sem estímulo fiscal, que seria insustentável, e puxado pelo setor privado, disse o economista do Itaú Unibanco, Luka Barbosa. Do lado da demanda, investimentos foram mais fortes e a construção – um setor que vinha pesando negativamente nos últimos anos – teve o segundo trimestre positivo, destaca o economista.

Selic

A aposta de novo corte de 0,50 ponto percentual da Selic em dezembro, para 4,5%, está mantida, até porque foi claramente sinalizada pelo Banco Central na última reunião do Copom.

Barbosa, do Itaú, prevê ainda outras duas reduções adicionais do juro básico, de 0,25 pp cada em 2020, para 4%. Os motivos são a inflação abaixo da meta e o crescimento econômico, previsto em 2,2% para o próximo ano, ainda dentro do potencial do país.

Caso o governo prossiga com o ajuste fiscal, o PIB crescerá com pressão inflacionária menor e, quando o BC tiver de elevar os juros no futuro, a Selic não precisará subir a níveis já vistos no passado, diz Ramos, do Goldman. “Mas ainda é preciso continuar com as reformas, aprofundar o ajuste fiscal e tornar a economia mais produtiva.”