Na Venezuela, massacre pós-alta na gasolina impulsionou Hugo Chávez

Em 1989, protestos reprimidos pelo governo levaram a mais de 400 mortes. Foi o início de uma onda de insatisfação que levou Hugo Chávez ao poder

Enquanto no Brasil, o aumento nos preços dos combustíveis levou a protestos de caminhoneiros que, nesta terça-feira 29, completam nove dias, em países vizinhos da América Latina, altas do tipo levaram a revoltas populares bem mais sangrentas do que os bloqueios nas rodovias brasileiras.

Na Bolívia, em 2010 uma revolta popular conhecida como “gazolinazo” irrompeu depois de um aumento de 83% no preço da gasolina. O governo de Evo Morales tentava cortar subsídios que vigoraram por 12 anos, mas teve que voltar atrás depois de cinco dias. Foi a maior crise de seu governo.

Mas o movimento contra a alta nos combustíveis que mais impacto teve na política da América Latina aconteceu em 1989, na Venezuela. Em fevereiro daquele ano, a alta no preço da gasolina levou a uma revolta popular que ficou conhecida como “Caracazo” e foi duramente reprimida pelas forças armadas venezuelanas. A cifra oficial é de cerca de 400 mortos, mas até hoje o número é tido como incompleto.

O acontecimento produziu um ponto de virada na história venezuelana, que acabaria por culminar na eleição do general Hugo Chávez (1954-2013) em 1998. No livro, “Hugo Chávez: minha primeira vida – conversas com Ignacio Ramonet”, Chávez afirma que o Caracazo foi o fato político de maior importância do século 20 no país. “Ele marca o renascimento da revolução bolivariana”, afirma Chávez em uma das entrevistas do livro.

Tudo começou com um pacote de medidas econômicas anunciadas pelo então presidente venezuelano, Carlos Andrés Pérez. Pérez foi eleito em dezembro de 1988, depois de já ter governado o país entre 1974 e 1979 —período de crescimento e prosperidade econômica com o aumento dos preços do petróleo no mercado internacional. Já naquela época, o petróleo era a principal fonte de divisas para a Venezuela, e foi Peréz quem nacionalizou a indústria petrolífera do país, em 1976, comprando por um bilhão de dólares as companhias estrangeiras.

No segundo mandato de Peréz, no entanto, a situação havia mudado. Os preços internacionais do petróleo estavam caindo, e a dívida externa venezuelana havia chegado a 35 bilhões de dólares. Segundo Peréz, o único meio de lidar com a crise econômica produzida por esses dois fatores —e, mesmo assim, continuar garantindo empréstimos do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial— era por meio de um pacote de medidas de austeridade, combinado com o próprio FMI.

As medidas, anunciadas no início de fevereiro de 89, incluíam a liberação das taxas de juros, unificação cambial e consequente desvalorização do bolívar, determinação de taxa de câmbio flutuante, fim do subsídio dos preços de todos os produtos, aumento das tarifas de serviços públicos, restrição do crédito, redução do gasto fiscal e um aumento de 100% no preço da gasolina.

Apesar das várias medidas, foi justamente o aumento no preço do combustível que disparou o Caracazo. Na manhã de 27 de fevereiro, quando os novos valores para a gasolina entraram em vigor, fazendo aumentar também o preço da passagem de ônibus, trabalhadores que se preparavam para pegar a condução em Guarenas, município na periferia de Caracas, se revoltaram diante do valor da passagem. O movimento se alastrou para a capital venezuelana e outras seis cidades, como Maracaibo, San Cristobal e Puerto La Cruz.

O preço da gasolina foi, como aqui em menor escala, apenas o gatilho para a demonstração de uma insatisfação muito maior. A violência tomou as ruas principalmente de Caracas, onde gangues bloquearam as vias, atearam fogos em ônibus e atacaram policiais com pedras e armas caseiras. Outras cidades também tiveram ruas e estradas bloqueadas, veículos queimados e saques a lojas.

“Em Caracas, as avenidas principais foram tomadas por centenas de manifestantes, que destruíam as vitrines de lojas e levavam tudo que podiam. Entre os slogans gritados ou pichados nas paredes, estavam ‘o povo está com fome’ e ‘o povo está bravo’”, descreve Margarita Lopez-Maya, professora aposentada do Centro de Estudos do Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela e especialista no Caracazo, em um de seus artigos sobre o tema.

Na capital venezuelana, a revolta durou cinco dias e só começou a arrefecer depois que Peréz instituiu um toque de recolher e suspendeu garantias constitucionais relativas a procedimentos de prisão, busca e apreensão e liberdade de imprensa. Centenas de pessoas foram presas.

Antes disso, a força bruta entrou em cena. Nas primeiras horas de 28 de fevereiro, o Exército venezuelano foi ordenado a restaurar a ordem nas ruas —chegando a disparar contra a população. O resultado foram centenas de mortos e milhares de feridos.

Chávez, na época um dos líderes da facção bolivariana nas Forças Armadas, estava doente e não esteve envolvido diretamente nos fatos do Caracazo. Ele e outros membros do exército já esperavam uma oportunidade como aquela para dar um golpe no governo e tomar o poder, mas foram incapazes de entrar em ação, surpreendidos pela movimento popular, como o próprio Chávez relata em seu livro. “O povo nos ultrapassou, saiu primeiro”, disse na ocasião.

Segundo Philip Gunson, analista da International Crisis Group, uma ONG voltada à resolução e prevenção de conflitos armados internacionais, e baseado em Caracas desde 1999, o Caracazo foi apenas um de uma série de avisos que mostraram que o sistema político baseado no petróleo estava ruindo e que, eventualmente, levariam o chavismo ao poder.

Anos mais tardes, em 1992, Chávez usou o Caracazo para legitimar sua tentativa de golpe contra o governo de Peréz, argumentando que aquela era uma democracia falsa que disparava contra os civis desarmados, explica Lopez-Maya em entrevista por e-mail a EXAME.

“É um discurso que dura até hoje como a versão oficial do chavismo sobre por que se insurgiram contra a democracia venezuelana. Eu acredito que, de fato, algo muito profundo se quebrou na relação da democracia com o povo venezuelano naqueles dias, porque, a partir daí, aumentou a violência no país, que segue piorando”, afirma Lopez-Maya.

A tentativa de golpe falhou, mas Peréz sofreu um impeachment pelo Congresso venezuelano no ano seguinte por acusações de desvio de dinheiro público. Em 1998, Hugo Chávez foi eleito o presidente da Venezuela.