Multinacionais elevam aportes no Brasil para ajudar filiais

Empresas que já tinham presença significativa no país têm trazido mais recursos em 2015 do que em 2014. Motivo: ajudar as filiais, que passam por dificuldades

Embora a crise econômica esteja tornando o Brasil cada vez menos atrativo para investimentos estrangeiros, as empresas de fora que já possuíam uma presença significativa no País estão trazendo mais recursos em 2015 do que em 2014.

Analistas que acompanham a atuação de multinacionais explicam: não se trata de uma aposta em uma recuperação rápida do Brasil, mas de uma tentativa de socorrer as filiais, que passam por dificuldades e necessitam de recursos para manter competitividade no mercado.

No acumulado do ano até setembro, o Investimento Direto no País (IDP) soma US$ 48,2 bilhões, queda de 34% em comparação com igual período do ano anterior, quando o montante atraído foi de US$ 73,2 bilhões, segundo dados do Banco Central.

No entanto, países como Alemanha e Itália, que estão entre as maiores economias do mundo e contam com multinacionais atuando no Brasil, apresentaram aumento em seus aportes neste ano. Os alemães elevaram a entrada de dólares em 12%, e os italianos, em 11%.

“Os negócios entre países acontecem mais quando já existem investimentos. Nos momentos de crise, sobretudo, as empresas estrangeiras fazem aportes para socorrer suas filiais brasileiras que estão em dificuldades”, afirmou Ronaldo Padovani, analista de negócios da ITA, agência do governo italiano responsável por promover empresas italianas no exterior e atrair investimentos para a Itália, atuação similar à da Apex no Brasil.

O movimento se torna mais claro quando se observa o envio direto de empresas estrangeiras para suas unidades no Brasil, os chamados empréstimos intercompanhias. No acumulado do ano até setembro, as empresas italianas enviaram 45% mais desses recursos a suas filiais brasileiras em 2015 do que em 2014. Entre as companhias alemãs, a alta é de 24%. Levando em conta as norte-americanas e as japonesas, houve crescimento de 18% e 41%, respectivamente.

“São investimentos de velhos conhecidos nossos”, diz o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica e economista-chefe da Mapfre Investimentos, Luís Afonso Lima. “São recursos voltados para não perder mercado, trata-se de uma tática defensiva, de curto prazo. E quando se olha os aportes anunciados pelas empresas para o futuro, os investimentos de expansão estão prevalecendo em relação aos de instalação”, disse.

Além disso, para as companhias já instaladas, o cenário recessivo da economia não é suficiente para interromper investimentos iniciados, diz o economista Bruno Lavieri, da 4E Consultoria. “Aquilo que foi iniciado há um ou dois anos não dá para estancar. Mesmo em crise, se você tem uma fábrica que está quase pronta, você conclui a fábrica”, afirma.

A japonesa Honda é um exemplo disso. A montadora investiu R$ 1 bilhão na construção de uma segunda fábrica no Brasil, em Itirapina, interior de São Paulo. O empreendimento ficou pronto em abril, mas o início das operações, que estava previsto para o primeiro semestre de 2016, foi adiado e ainda não há uma nova data. “A unidade estará pronta para iniciar a produção em massa assim que houver melhor previsibilidade do mercado”, disse a empresa no fim de outubro.

Padovani, da ITA, lembra também que as empresas estrangeiras estão cientes do potencial brasileiro e por isso evitam sair do País, o que significa que as companhias socorrem suas filiais neste momento porque acreditam em um futuro melhor. “A capacidade produtiva existe. Quando a economia se recuperar, haverá um potencial de crescimento que não é hipotético, é alto”, disse.

Assim também pensa o presidente da Mercedes-Benz no Brasil, Philipp Schimer. Em outubro ele afirmou que a montadora alemã seguirá “arrumando a casa” para dar uma reposta rápida quando o setor automotivo apresentar melhora. A declaração do executivo foi dada no mesmo dia em que a Mercedes-Benz lançou dez modelos de caminhões no Brasil, apesar da queda nas vendas do segmento em 2015. No acumulado de janeiro a outubro, o número de caminhões vendidos caiu 44,9% ante igual período do ano anterior.